Uma antiga nova dimensão

É muito comum no início do ano as pessoas tentarem definir planos e metas para fazer do novo ano algo diferente, melhor. É lugar comum dizer que as pessoas decidem começar a malhar, fazer faculdade, terminar um curso incompleto, começar um namoro, uma dieta, se casar, trocar de emprego, de igreja e infinitas outras coisas.

Muita gente também decide que no novo ano tentará ter um relacionamento melhor com Deus. Uns decidem ter mais compromisso com a igreja local, deixar de fazer coisas que consideram erradas e passar a fazer coisas que consideram corretas.

Isso tudo é normal, entra ano e sai ano será sempre igual. “Nada de novo debaixo do sol”, já dizia o pregador rabugento de Eclesiastes.

O que me deixou intrigado foram as propagandas de igrejas para o início do ano. Uma delas estava realizando uma campanha de sete quartas de oração para ter doze meses de provisão e bênçãos de Deus.

Eles foram geniais. “Vamos resolver o ano em uma tacada”, eles pensaram. Vamos dedicar sete dias orando para que Deus abençoe o ano inteiro. Por que sete? Um número cabalístico. Um pouco de mandinga e mística judaica para forçar uma barra com Deus.

O interessante é a falta de noção dos líderes. Eles têm certeza que se o cara for os sete dias orar lá com eles Deus vai abençoar os doze meses do ano? E se ocorrerem tragédias na vida das pessoas que forem nos sete dias? O que os líderes vão dizer? Que eles não oraram direito? Que tiveram pouca fé? Que estão em pecado? Que não ofertaram o suficiente?

Esse foi um exemplo. Coloquei para refletirmos, pensarmos. Não são sete dias de oração. Não é nenhuma campanha de vitória. Não é vigília atrás de vigília. Não é nada disso que fará com que Deus nos abençoe. Já escrevi e não me cansarei de escrever e dizer que buscar Deus por causa de bênçãos, em uma relação de obrigações e benefícios, é loucura, é reduzir Deus a um ídolo, a um deuzinho qualquer. Deus quer relacionamento. Deus quer que vivamos com Ele. Deus quer que abençoemos vidas e não que fiquemos como loucos alienados trancados em templos, vigília atrás de vigília, caçando bênçãos.

O pior é que o povo é atraído por esse tipo de coisa e os líderes se aproveitam disso. Querem encher templos. No final, o que temos são decepcionados. Pessoas feridas. Porque prometem bênçãos em nome de Deus, como se o próprio Deus prometesse, mas esquecem que Deus não pode ser controlado ou domado, Deus não se pode convencer com cultos, vigílias, oferendas ou musiquinhas. Deus é Deus e faz o que quer na hora que quer e como quer.

O mundo evangelho precisa recuperar o horizonte da graça e da Cruz. Sem isso, nos tornamos caçadores de recompensas, que buscam a Deus por ganância ou mesmo medo, no máximo, culpa. Com a Cruz e a graça de lado, somos presas fáceis para os macumbeiros gospels de plantão. Somos atraídos pra toda sorte de campanhas, vigílias, correntes. Passamos a acreditar que podemos obrigar Deus a agir como queremos, a nos abençoar de qualquer jeito. Transformamos Deus em um ídolo.

Entretanto, se mantivermos os olhos na Graça e na Cruz do Cristo, recuperaremos a boa mística cristã, que nos leva a experienciar, aqui e agora, um Deus em nós que não está lá fora, longe, com as mãos encolhidas, fazendo pirraça esperando nossas oferendas. Pelo contrário, entendemos que Deus é aquele que, independentemente dos nossos despachos evangélicos, “trabalha até agora”.

Nesta boa mística, compreendemos que o mundo natural no qual vivemos não é tudo que há, pois contemplamos uma dimensão mais profunda da existência – a dimensão espiritual. No entanto, isso não nos torna semideuses, ou alienígenas, como se não vivêssemos aqui ou não dependêssemos deste mundo. Na verdade aprendemos a ser de fato humanos, tendo como referência as pegadas deixadas por Jesus de Nazaré.

O ponto central é: quanto mais “santos” ou “espirituais” formos, mais verdadeiramente humanos seremos. Sentiremos a dor do outro e a dor da terra. Dançaremos e choraremos juntos. Daremos as mãos para lutarmos pelo direito do oprimido e do excluído.
A boa mística cristã, revelada nos mistérios da Cruz e da graça, nos faz perceber o “Deus em Nós” que, nas palavras de Hugo Assmann, “se revela no amor solidário ao próximo”.
Para terminar, deixo a frase de Leonardo Boff: “Jesus Cristo era tão humano que só podia ser Deus”.

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Crer sem pertencer

b600-estatisticas-evangelicos-sem-igrejaHá pouco mais de um ano, uma reportagem da Folha de São Paulo causou um verdadeiro frenesi nos sites e blogs evangélicos espalhados pela internet. A matéria trazia o seguinte título: “SOBE TOTAL DE EVANGÉLICOS SEM VÍNCULOS COM IGREJAS”. O texto usava como base para argumentação os dados da “POF – Pesquisa de Orçamentos Familiares”, do IBGE, que foram confirmados pelos números do Censo 2010. Segundo o levantamento, entre 2003 e 2009, o percentual de evangélicos sem vínculo institucional subiu de 4% em 2003 para 14% em  2009, em números, isso significa um aumento de 4 milhões de pessoas.

Os dados são realmente alarmantes, assustadores, mostrando que 14% dos evangélicos não estão em nenhuma igreja. Confessam a fé, declaram-se evangélicos, mas não pertencem a nenhuma comunidade. Para muitos, o mundo evangélico começa a experimentar um pouco da realidade do catolicismo, na qual se confessa a crença, mas não se pratica efetivamente. Mesmo assim, a pergunta que fica no ar é: “Por que os evangélicos estão abandonando as igrejas?”. Há muitas pesquisas que tentam responder essa pergunta.

A própria matéria da Folha estava embasada pelas opiniões de antropólogos e sociólogos.  Em comum as pesquisas revelam que as pessoas estão cansadas do modelo eclesial vigente, no qual se valoriza mais a instituição do que o ser humano, ou seja, o fiel se transforma em mercadoria religiosa, disputada pelas mais variadas denominações que tentam se colocar como legítimas representantes de Cristo, únicas detentoras da verdade.

igreja(4)É interessante notar que em junho de 2007 a revista Enfoque Gospel publicou uma matéria que apontava razões pelas quais os fieis estavam abandonando as igrejas. Isso mostra que o assunto preocupa não é de hoje. As razões que a matéria levantou giravam em torno de problemas institucionais, como não achar uma tarefa para se engajar, mudanças do jeito de ser da comunidade religiosa, reclamações da liderança, hipocrisia dos irmãos etc.

Tudo isso seria efeito colateral da institucionalização exagerada, que deixaria as pessoas em segundo plano, tratando-as como mercadoria. Essa insatisfação generalizada e crescente é uma das causas do aumento de números de novas igrejas independentes, sem vinculo com nenhuma denominação já existente. Mas, nota-se que, apesar de o número de igrejas independentes crescer, o número dos sem igreja e dos sem vínculo cresce numa proporção ainda maior. A razão é simples: essas novas igrejas não apresentam, em essência, uma nova proposta, um novo jeito de ser. Em tese, nascem como uma alternativa, mas, na prática, vão se tornando apenas mais uma instituição, caindo nos mesmos vícios que antes condenavam.

Estamos longe de entender tudo que está relacionado a esse fenômeno, mas o certo é que estamos diante de uma crise, com problemas, desafios e oportunidades. Não há como apontar saídas para o mundo evangélico em si, pois ele já trilha uma estrada quase sem volta. Neste sentido, precisamos reforçar a nossa identidade enquanto igreja, comunidade de fé. Precisamos continuar sendo uma “igreja para quem não gosta de igreja”, ou seja, sendo um abrigo, uma família cristã, para abraçar, cuidar e amar aqueles que se machucaram, decepcionaram-se, desiludiram-se com as igrejas que tratavam a fé de maneira institucionalizada demais ou, até mesmo, como mercadoria barata. Precisamos reforçar nossas dimensões comunitárias, entendendo que nosso chamado é para compartilhar a vida uns com os outros e, assim, sermos uma alternativa real ao modelo de igreja mercadológico que impera em nosso tempo. Hoje, as pessoas creem, mas não querem pertencer. Precisamos continuar sendo uma comunidade da qual as pessoas tenham orgulho de fazer parte, na qual se possa crer e pertencer.

O Deus de um Ateu

Ontem, eu conversava com meu chefe a respeito de algumas mudanças que implementamos esse ano nas rotinas de trabalho que geraram uma otimização nos processos da nossa área. Em um determinado momento, ele simplesmente me disse: “Deus ajuda quem trabalha direito”. Eu ri levemente e ele perguntou: “Você concorda?”. Eu, meio sem graça, não disse que sim nem que não, porque não gosto de relações de causa e consequência. Ele então reafirmou: “Eu acredito que Deus ajuda quem trabalha direito, embora eu seja ateu”. Ele viu minha cara de espanto e falou rindo: “Eu sou ateu, mas acredito que Deus ajuda quem trabalha direito, você não?”. Mais uma vez não respondi nada.
Essa conversa com meu chefe me fez pensar em algumas coisas. O que estava por trás da ideia dele era a crença na retribuição. De alguma maneira ele acredita em causa e consequência. Aqui se faz, aqui se paga. Quem semeia, colhe. E por aí vai.
Uma outra coisa foi o fato de a palavra “Deus” ter sido usada completamente esvaziada de sentido. Ele não cria em Deus, se afirmou ateu, usou a palavra Deus porque, devido à sua descendência italiana católica, ouviu o nome Deus usado em tudo desde garoto. “Graças a Deus”, “Deus me livre”, “Deus nos ajude”, “Ai meu Deus”. A palavra “Deus” é usada com os mais variados sentidos, até mesmo para se praguejar. E por vezes é usada simplesmente para denotar uma espécie de força impessoal que se move entre o destino, o caos e o acaso. Por isso, um ateu diz: “Deus ajuda quem trabalha direito”. De que Deus ele estava falando?
Diante disso, reacenderam algumas questões importantes em mim. Quem semeia realmente colhe? E se houver uma seca? Será que tudo é tão cartesiano assim? Eu não acho que a vida seja feita de leis fechadas, previsíveis. As regras não são tão claras quanto achamos que são. Achamos que quem é bom recebe o bem e quem é mau recebe o mal. Mas então Jesus diz que “o sol brilha sobre os bons e maus e a chuva cai sobre os bons e maus”. O Salmista já questionava: “Por que prosperam os ímpios?”.
Eu concordo em parte com meu chefe, pois Deus ajuda, mas não necessariamente quem faz direito. Para mim, Deus ajuda quem Ele quer e por razões que só a Ele pertencem. Não tenho como trancar Deus em meus conceitos medíocres sobre Ele.
Uma última questão é: “como novamente preencher de sentido a palavra Deus?”. Eu acho que, sem querer, usamos o geral como particular. O nome deus é uma designação genérica para nomear uma determinada classe de seres. Mas, cada um desses seres tem um nome. Como nós, cristãos, cremos que há um só Deus, então usamos o geral como particular, mas não necessariamente todos os usos da palavra “Deus” se referem ao nosso Deus. Neste sentido, tendemos ler a fala do outro com o nosso entendimento. Escutei a palavra Deus na boca de um ateu e achei que era o meu Deus. Não, não era. Era qualquer coisa que ele simplesmente chamou “Deus”.

“O AMOR VENCE”

robbellTerminei de ler “O amor vence” do polêmico Rob Bell. Não consigo entender como as pessoas o xingam tanto, já que ele afirma e reafirma a divindade e supremacia de Jesus. Não é Jesus a pedra de Roseta dos cristão? Ou a crença no inferno e no diabo é maior que a crença no próprio Cristo? Ou será que os cristãos não sabem pregar o amor sem ameaças medievais em relação ao inferno? Será que o amor de Deus é tão pouco visível que precisamos falar mais de castigo do que de graça?
Para mim, não é questão de acreditar ou não no inferno, pois o Diabo perde feio pro trânsito do Rio de Janeiro. A nossa volta está cheio de gente vivendo um verdadeiro inferno, crianças e idosos nas ruas, drogados, gente passando fome. E não existe só um diabo, que para muitos está no centro da terra usando calça vermelha e um tridente. Basta olhar nossos governos e até muitas igrejas evangélicas, e veremos muitos diabos de terno e gravata roubando o povo, desviando recursos da saúde e educação, fazendo da existência de muitos pequeninos um verdadeiro inferno. Eu pergunto: que respostas a fé cristã tem para os infernos de hoje? Como a igreja pode tirar as pessoas do inferno aqui e agora e levar para o céu aqui e agora? Será que a fé cristã é apenas uma esperança pós morte? Será que ser cristão é apenas acreditar em algumas doutrinas, realizar alguns rituais e obedecer códigos morais elevados para depois, se tiver feito tudo certinho, ganhar o céu?
amor-vence-15591_249x243O livro de Rob Bell deveria ser lido e estudado em boa parte das igrejas de hoje, pois pelo menos aprenderiam a olhar mais para Jesus e menos para o diabo. Aprenderiam a deixar de lado ameaças e neuroses medievais para se centrar no amor de Deus revelado no Cristo. Aprenderiam a lutar por um mundo melhor aqui e agora, a salvar pessoas dos infernos do aqui e agora. Aprenderiam a viver.

Por fim, o que faz diferença não é crer no inferno, mas crer no Cristo e tentar ser como Cristo tirando muitos do inferno que vivem aqui e agora.

Como os religiosos contribuem para o mal-estar das cidades

transitoQuem mora e trabalha em uma grande cidade sabe que a vida anda uma loucura. O trânsito tem estado caótico, roubando momentos preciosos da vida, da vivência em família, do lazer, de uma boa leitura e de um bom descanso. Como se não bastasse toda correria da cidade, há alguns grupos religiosos que insistentemente buscam destruir os pequenos momentos de paz e descanso que sobram na tormenta urbana.

Há cinco anos, quando me casei, fui morar em um condomínio, em um apartamento bem pequeno. A grande vantagem era o sossego. Assim que eu entrava em casa era praticamente impossível ser incomodado. Até mesmo as pessoas íntimas precisavam tocar o interfone na entrada, que era monitorada por um sistema interno de TV. Um pouco mais tarde, devido a uma catástrofe da natureza, fui obrigado a mudar, em caráter de urgência, para um casa, em uma rua, fora da pseudo segurança de um condomínio. A vantagem estava no fato de a casa ser maior e não haver mais problemas com vagas de garagem. A desvantagem, no entanto, estava no fato de poder ser incomodado facilmente.

               grupoEu gosto quando parentes e amigos vem me visitar, mesmo sem avisar. Minha casa está sempre aberta para receber as pessoas que amo. Por consciência cristã, não me importo quando aparecem pedintes na minha porta e procuro ajudar sempre que posso. No entanto, perco completamente a paz com os religiosos. Eles parecem não ter escrúpulos e fazem de tudo para vender sua mercadoria religiosa. Vejam os fatos:

ore_baixoEm frente a minha casa havia uma missão de uma igreja que se reunia toda quinta-feira por volta das 20h. Nesta época, eu saía cedo de casa e chegava um pouco antes de começar as atividades da missão. Quando eu tentava descansar, começava o som alto, com uma cantoria desafinada com músicas de radinho gospel, doses de glossolalia e pregações sem sentido. Eu, que sou cristão, ficava transtornado, imaginem um não cristão? Durante um tempo, procurei compreender e relevar, mas fiquei completamente chateado quando descobri que eles faziam questão de virar a caixa de som para rua, colocando no maior volume que podiam. Será que eles acham que estão evangelizando os vizinhos? No meu caso, se eu não fosse cristão, essa seria umas das razões que me fariam não abraçar a fé.

 testemunhasGraças a Deus, a missão fechou. Mas ganhei outro tipo de religioso para me atormentar em meus dias de descanso – as testemunhas de Jeová. Já perdi a conta de quantas vezes elas bateram em minha porta, tentando me converter a uma fé completamente sectária e exclusivista. Em alguns momentos eu estava dormindo e levantei pensando que podia ser uma urgência. Em outros eu estava comendo, lendo e até mesmo vendo TV. Será que essas pessoas não tem noção? Em todas as vezes, eu tive vontade de falar, com o máximo de educação que uma situações dessas pode permitir, que eles são extremamente inconvenientes. Mas resolvi perder um pouco do meu tempo ouvindo quieto. Talvez isso seja amar aos inimigos, pois de alguma forma tenho descoberto que, se tenho algum inimigo, eles são os religiosos.

 Procissão em Caçador SCOntem eu dirigi cerca de 40 km até uma cidade vizinha. Chegando lá, um desânimo tomou conta de mim quando vi um engarrafamento em uma rua pacata que nunca fica engarrafada. Eu pensei: engarrafamento sábado e em cidade pequena, onde isso tudo vai parar? Então, olhei com calma e vi uma procissão. O cortejo religioso havia parado o trânsito de uma cidade pequena, transtornando a vida de muita gente, inclusive a minha. É assim que Deus quer ser conhecido? Com os seus fiéis atormentando a vida de outras pessoas?

                Pensando nessas coisas, confesso que me sinto completamente envergonhado. Refletindo bem, eu já fiz todas essas coisas citadas acima e até piores em nome da religião, pensando que eu estava fazendo um favor a Deus, quando, no máximo, eu estava provocando o ódio e antipatia do povo em relação a minha fé.

               Culto na ruaEu lembro que inúmeras vezes, durante sábados e tardes de domingo, eu saía com grupos de pessoas, batendo de casa em casa para convidar para um culto ou mesmo (des)evangelizar. Lembro com riquezas de detalhes que fazíamos cultos na casa das pessoas e fazíamos questão de colocar a caixa de som virada para rua. Às vezes o lugar era pequeno e nem era preciso microfone ou amplificação, mas ligávamos o som o mais alto que podíamos, pois queríamos que os vizinhos escutassem. Penso que eu devo ter sido muito xingado nesta época e dou toda razão a quem o fez, já que hoje, eu mesmo me xingaria se eu fizesse isso.

              praçaLembro que várias vezes fomos para praças, colocando som e tudo que se tem direito, atrapalhando o lazer das pessoas que lá estavam. Eu mesmo já preguei várias vezes em praças e hoje, por dinheiro nenhum, aceito pregar em um lugar público onde as pessoas que estarão ouvindo não necessariamente desejam aquilo. Fui convidado, há poucos dias, para pregar no calçadão de uma praia em um culto jovem. Durante o convite, ouvi expressamente: “Vamos fazer neste horário porque é a hora que as pessoas vão lanchar e passear no calçadão”. No mesmo momento eu disse que não podia ir. Isso é completamente contra os meus princípios. Fiquei me imaginando de mãos dadas com a minha esposa, no calçadão da praia, comendo pipoca, contemplando o mar, conversando sobre a vida e, de repente, um grupo começa a falar, cantar, gritar, se contorcer e tudo mais. Eu odiaria. Então, não vou fazer aos outros o que não quero que façam comigo.

                Passeata_Carreata-Dia-do-Evangélico-007Eu acho que a pior coisa que fiz foi em um dia da bíblia. Várias igrejas se reuniram para fazer um culto da bíblia em uma praça. Para piorar, todas elas resolveram ir em passeata e carreata, levantando bandeiras da bíblia e cantando hinos. Isso, em plena tarde de domingo. Fechamos várias ruas com a passeata e provavelmente acordamos muito trabalhador cansado de uma semana de trabalho com a cantoria. Fechamos, por um espaço de tempo, uma rodovia estadual com grande fluxo de veículos e a avenida principal de um bairro. Sem contar que, sem pedir licença, tomamos conta da praça, pouco se importando se quem estava lá antes de nós queria ou não ouvir e ver o que estávamos fazendo.

                marchaInfelizmente é triste. Embora eu tenha parado de fazer essas coisas, muitas e muitas pessoas ainda continuam fazendo. Um amigo não cristão do trabalho me contou revoltado a respeito de uma igreja perto da casa dele que ensaia todo sábado de manhã, forçando-o a acordar cedo em seu dia de descanso. Hoje temos louvorzão, marcha pra Jesus e infinitas outras coisas que atrapalham o trânsito, fazem barulho e perturbam a vida das pessoas. Quem faz essas coisas diz que faz para evangelizar. Acreditam que os fins justificam os meios. Passam por cima das pessoas, desrespeitam e tudo o mais para levar uma mensagem de amor. Como uma mensagem de amor pode ser levada sem respeito ao próximo?

prayerfamilyprayingAlguns dizem: mas se as pessoas do mundo fazem, por que nós não podemos fazer? Porque, como Jesus disse, não somos iguais ao mundo, não devemos nos amoldar a ele. Se os funkeiros ligam o som alto nos carros e perturbam os vizinhos e o próximo nas praças, devemos tomar isso como exemplo negativo e não fazer o mesmo. Se alguns grupos fazem passeatas, paradas e perturbam a ordem pública nos deixando presos em engarrafamentos, devemos fazer o máximo possível para contribuir para paz no trânsito. Se as casas de shows, boates e bares fazem barulho até tarde, devemos colocar isolamento acústico em nossos templos, objetivando causar o mínimo de transtorno aos vizinhos. Parece que estamos querendo combater fogo com fogo e estamos contribuindo para um verdadeiro caos nas cidades. Está na hora de dar a outra face. De abaixar o volume. De partir para paz e não para guerra. A igreja precisa ser o exemplo que sinaliza como as cidades podem ser mais humanas, civilizadas e respeitosas. Um bom lugar para pessoas de todas as crenças viverem em paz.

Simpatia Gospel

Sempre escrevo a partir do cotidiano, dos acontecimentos e dos encontros da vida. Também escrevo a partir de lembranças, coisas que ouvi ou vivi, coisas que vi acontecer, coisas que fiz. É normal, ao olhar para trás, reler a vida com outros olhos, enxergando a partir de outras e novas perspectivas. Com já dizia o antigo filósofo: “Não é possível se banhar duas vezes no mesmo rio”.

Assim, revistando a minha memória, lembrei coisas que me fizeram refletir.

A primeira delas diz respeito a um pastor que disse que sempre que saía de casa de manhã recitava o Salmo 23 completo, com o intuito invocar a presença de Deus. Por várias vezes o vi dizer que Deus o livrou de determinados perigos porque ele havia orado de manhã e recitado o Salmo que, neste caso, funcionava como um mantra ou uma simpatia. Se recito o Salmo Deus me livra, caso contrário o mal chega a mim.

Passei por muitos problemas comuns em companhia de outras pessoas cristãs. Problemas da vida, como um acidente de carro, um pneu furado, um radiador que ferveu, uma chave de casa perdida, uma carteira roubada ou esquecida e infinitos outros. O interessante é que sempre aparecia alguém para questionar nossas atividades com o sagrado. “Vocês oraram antes de sair de casa? Fizeram o culto doméstico? Leram a bíblia?”. Com as perguntas, a pessoa estava querendo dizer que o mal está vindo sobre nós porque deixamos de cumprir nossos deveres religiosos.

O engraçado era quando havíamos cumprido todos os nossos deveres e mesmo assim um mal ocorria. Então, alguém levantava e dizia: “Estão vendo, se não tivéssemos orado, poderia ter ocorrido algo bem pior. Precisamos buscar mais o Senhor”.

Um último fato também se relaciona a encontros com outros cristãos. Vez ou outra aparecia alguém sugerindo que cada um dos presentes tirasse um versinho da caixinha de promessas para recitar pro grupo. Como é um evento aleatório, as pessoas recebiam como se fosse Deus falando para vida delas naquele momento, não importando o contexto em que o verso estava presente, nem o período histórico. Os versos funcionavam como cartas de tarô e sempre tinham uma boa promessa, algo positivo. Vez ou outra alguém ainda fazia comentários do tipo: “Viu o que diz o verso? Deus tem algo grande para sua vida”. Impressionante, mas nunca apareceu em uma caixa de promessa versos do tipo: “Vende tudo que tem e dá aos pobres”, “Nem todo que me diz: ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino de Deus”.

Esses fatos mostram que tratamos Deus como objeto ou mesmo um gênio da lâmpada mágica. Mostra o quanto transformamos a fé cristã em superstição. Mostra também que achamos que para Deus nos proteger ou cuidar de nós precisamos cumprir algumas tarefas, como orar, recitar salmos em forma de mantra, ler a bíblia por obrigação e não devoção. A maioria dos cristão acha abominável deixar uma cigana ler a mão ou ir a uma cartomante para ver o que as cartas dizem (para mim é inutilidade), mas usa caixinhas de promessas (tarô gospel) para tentar saber o que Deus tem para sua vida, pois as mesmas funcionam como uma espécie de horóscopo gospel ou algo do tipo. Como diz Ed René Kivitz: “O mundo evangélico está mais preocupado em fazer Deus funcionar do que em se relacionar com Ele”.

Termino citando uma das minhas frases preferidas do Philip Yancey: “Graça significa que não há nada que possamos fazer para Deus nos amar mais e nada que possamos fazer para ele nos amar menos”. Não há nenhuma simpatia, nenhum ritual, nenhum dever religioso que obrigará Deus a fazer o que queremos que Ele faça. Como diz Jesus de Nazaré: “O meu Pai trabalha até agora” e “sabe do que precisamos antes de pedirmos”. Então, sem simpatia, sem neuras, sem medo de perder bênção ou ocorrer o mal, busquemos a Deus não para fazê-lo funcionar ou nos amar mais, porém para simplesmente nos relacionarmos com Ele, tendo-o como o Pai de amor, o amigo fiel, mas nunca como o gênio da lâmpada.

Obama x Fundamentalistas

Acompanhei as eleições americanas com certa apreensão. Eu confesso que estava ligado na Globo News e praticamente não dormi essa noite. Quando vi que Obama venceu, senti um alívio pelo mundo. Tudo que o mundo menos precisava agora é de mais um fundamentalista político/religioso e xenofóbico assumindo o poder da nação com maior poderio bélico do planeta. Muitos dizem que Obama não é boa opção devido às opiniões dele a respeito dos gays e do aborto. Para mim, os gays, as prostitutas, as adolescentes grávidas e toda uma gama de excluídos precisam ser abraçados e cuidados pela igreja. O que adianta proibir casamento gay se homens vão continuar dormindo junto? A menos que se faça como nos países islâmicos que declaram o próprio homossexualismo como crime. E mesmo nos países onde homossexualismo é crime há homens e mulheres que o praticam, inclusive de maneira forçada (Há países que se um homem for estuprado por outro pode ser condenado por homossexualismo forçado, dá para entender?). E digo que muito fundamentalista cristão gostaria que fosse assim nos EUA e no Brasil. Não estou falando de liberalismo, mas tenho me convencido que as pessoas nas quais a igreja mais bate e acusa hoje seriam as mais amadas e protegidas pelo Cristo.

Não estou falando de um fundamentalismo clássico, no qual se crê em algumas coisas como imutáveis, mas falo de algo perverso, que exclui o outro.
Muitos que consideram os gays como os piores seres do mundo estão nas igrejas fazendo fofoca, negam a fala ao outro, não perdoam, brigam por cargos nas igrejas e denominações, fazem calúnias e difamações, em muitos casos mantém relações extra conjugais por anos por baixo dos panos, quando não desejam as meninas e meninos das igrejas e até consumam esses desejos.
Eu não sou melhor que nenhum desses, sou pior. E por isso não quero escolher nenhum grupo para Judas, nem mesmo os fundamentalistas ou liberais, enquanto escondo meu câncer debaixo de um “terno armani”. Aquele que não tem teto de vidro atire a primeira pedra. Aquele sem pecado atire a primeira pedra. Eu sou pecador. Meu teto é de vidro. Que o Senhor me ajude a não jogar pedras nem mesmo como resposta aqueles que me apedrejam. Aqui está minha outra face, é só bater.

Os Dízimos e as Bênçãos de Deus

Há alguns dias, alguns amigos e eu estávamos conversando sobre um amigo comum, não era bem fofoca, mas estava quase nesse nível. O amigo em comum é um profissional liberal e alguns amigos da roda estavam dizendo que ele ganhava muito bem e não entendiam como ele não tinha um carro. Eu argumentei dizendo que ele sustentava a família sozinho e por isso não era possível adquirir um bem tão caro. A conversa estava girando nestes dois eixos: uns dizendo que ele podia e outros que ele não podia comprar um carro. Foi quando uma das pessoas disse: “Ele ganha bem, mas não tem um carro porque não serve a Deus e não dá o dízimo”. Eu fiquei estarrecido com o comentário e na hora preferi não continuar a conversa.

Algumas coisas me vieram à mente. Para começar, conheço muitas pessoas que nunca pisaram na igreja e muito menos deram dízimo que tem carros bons e casas boas. Também conheço pessoas que são de igreja, mas nunca deram o dízimo e, contudo, tem bons carros, empregos e casas boas. Para piorar, conheço pessoas que foram dizimistas a vida inteira, mas nunca conseguiram comprar um carrinho velho e vivem uma vida simples. Sem contar que há muita gente que dá o dízimo e para ter um carro precisa pagar em infinitas prestações, se privando de muitas coisas, quase não tendo dinheiro nem para colocar gasolina no carro ou fazer as revisões. Isso é bênção ou a pessoa se ludibriou com esse mundo capitalista e deu um passo maior que as pernas? Era a questão do salmista: “Por que os ímpios prosperam?”.

Não preciso responder essa pergunta agora. Talvez prosperem porque trabalham ou porque deram sorte ou, até mesmo, porque Deus os abençoou para mostrar que o “sol brilha sobre os bons e sobre os maus”. O que me intrigada não é o fato dos não cristãos que não entregam o dízimo prosperarem, mas alguém achar que um cristão só é abençoado quando entrega o dízimo.

Esse sistema de trocas me entristece bastante. É um relacionamento com Deus negociado, sempre esperando algo. Muita gente esquece que, na vida, a maior bênção que podemos ter é andar com Deus e não as coisas que ele pode ou não nos dar. Eu prometo que não queria falar de religião, mas quando me deparo com essas coisas, eu vejo que Deus está sendo reduzido a um deuzinho tribal, e não consigo deixar de falar ou escrever.

Eu não acredito que dízimos e ofertas sejam um meio para se alcançar à bênção de Deus, mas sim uma forma de abençoarmos outras pessoas e a comunidade na qual estamos inseridos. A bênção não é o que vamos ganhar por darmos um dízimo ou uma oferta, mas é o simples ato de nos despirmos de nosso egoísmo para contribuir com o outro.

Hoje, o que tem se mostrado complicado é que tem muita gente usando as contribuições dos irmãos para benefício próprio. Basta ver o pessoal da mídia. No entanto, neste assunto, precisarmos ter consciência comunitária e discernimento. Quando somos cristãos e fazemos parte de uma comunidade cristã, nada mais justo do que contribuir para mantê-la funcionando e para suprir a necessidade daqueles que tem menos. A maioria das comunidades precisam de um local para se reunir, pagam contas de energia e telefone, precisam de móveis, pagam zeladores e etc. E todos que fazemos parte precisamos colaborar. Seria dez por cento? As ofertas devem ser entregues só na igreja? Não vou responder essas questões, cada um contribua segundo o que Deus colocar no coração e com quem (ou onde) desejar, mas é certo que precisamos ter discernimento. Precisamos saber como o dinheiro que damos está sendo usado e gerido. Há muita gente se aproveitando da boa fé das pessoas e explorando de tudo que é jeito possível. É preciso consciência e discernimento.

Eu sempre digo que falta honestidade hoje em dia e, até mesmo, caráter. Uma pessoa normal, criada na igreja, tem essa mentalidade de entregar o dízimo para ser abençoada porque foi ensinada assim, talvez nem tenha culpa. Chateia-me é ver líderes, que estudaram teologia, ensinando barganha com Deus, sistema de trocas, busca louca por bênçãos. Eu proponho uma coisa: ensine a abençoar vidas ao invés de buscar bênçãos. Mas ensine a abençoar não como a forma mais nova e reveladora de se arrumar mais bênçãos ainda, ensine a abençoar e a dar, a se doar, como a forma mais sublime de se viver o cristianismo. O resto é com Deus.

Tudo bem, você vai mandar eu ler Malaquias 3.10 e eu vou mandar você ler o texto todo e o contexto histórico e depois ler o que o Novo Testamento fala do assunto, depois que você fizer isso, a gente volta a conversar, porque eu já li Malaquias 3.10. E doutrina de versinho isolado está mais para simpatia gospel do que teologia cristã.

Sobre Futebol, Política e Religião – Algumas reflexões

Há mais ou menos um ano, soube que um grupo de pessoas estava orando por mim. A razão era simples: estavam preocupados comigo, pois eu estava escrevendo coisas estranhas na internet, dando a entender que eu abandonei a fé ou, pelo menos, a “sã doutrina”. Foi justamente quando lacei o FÉ SEM BENGALAS e, de fato, entendo que as coisas que eu escrevo aqui não são muito ortodoxas. Na época achei engraçado e isso no máximo se tornou piada entre alguns amigos.

Eu confesso que passei por um processo longo de transição, saindo de uma posição na qual eu achava conhecer a verdade absoluta para uma em que me considero sempre em construção, com possibilidades de aprender e rever meus conceitos à luz de novas experiências. Embora eu sempre tenha me considerado um cara, em essência, existencialista, houve um momento em que realmente eu me achei o dono da verdade. Se achar o dono da verdade era e é muito coerente para quem vive um cristianismo institucional, pois é desse pseudocontrole sobre as verdades sagradas que nasce boa parte do modelo hierárquico eclesial.

As religiões vivem de achar que sabem a verdade final sobre as coisas. Com o cristianismo não é diferente. Paulo Brabo, nas páginas iniciais do seu livro “A Bacia das Almas”, escreve: “A Bacia é o repositório final de idéias condenadas à reformulação eterna”. No evento de lançamento do livro, Ed René Kivitz perguntou a Brabo se isso não era perigoso para o cristianismo, justamente porque o cristianismo, institucionalmente falando, se baseia em conceitos pré-concebidos, prontos, e, reformulá-los ou o simples fato de questioná-los pode ser algo extremamente perigoso. O próprio Ed questiona e reformula muita coisa, não tudo ou a maioria, isso me faz crer que ele estava tentando deixar o Paulo Brabo numa saia justa.

A verdade, pelo menos em relação a mim, é que vivo em um processo constante de reformulação. O título do meu blog representa um exercício e um objetivo de vida. Desejo me desvencilhar das bengalas da minha fé, dos acessórios, do que não é essencial. Desejo não ficar preso a fundamentos que no final podem se revelar inconsistentes ou meros construtos políticos/históricos. Desejo uma fé relacional com Deus, de caminhada, e não uma fé religiosa, de troca, obrigações e benefícios. Não quero limitar Deus a formulações dogmáticas. Não quero aprisioná-lo em meus conceitos sobre Ele. Não quero trancá-lo em uma gaiola doutrinária, litúrgica ou moral.

Por conta disso, muitos me chamam de liberal e, até mesmo, herege. Provavelmente quem fala assim não sabe o que é um liberal e muito menos o que é um herege. Já vi pessoas considerando liberal um cristão que simplesmente não está preso a algumas questões litúrgicas que, na verdade, mais se parecem com usos e costumes, como uso de vestimentas e manifestações nos cultos. Também já vi pessoas serem consideradas hereges simplesmente porque abandonaram uma igreja mais tradicional ou questionaram algum dogma petrificado. Eu não saberia me definir, mas o certo é que abraço algumas considerações mais críticas em relação à teologia cristã da mesma maneira que tenho alguns pensamentos quase fundamentalistas. O que posso dizer é que não fecho. Por mais contraditório que seja, fecho que não fecho. Um herege é basicamente aquele que escolhe. Nesse sentido, quando me chamam de herege eu fico feliz. Um herege sempre foi aquele que escolheu um caminho diferente daquele ditado pela religião institucionalizada. No que cabe, escolho o caminho da religião, no que não cabe, escolho outra direção. Simples assim.

Eu não escrevo para fazer pessoas pensarem como eu ou mudarem suas posições, mas escrevo para organizar minhas idéias e procurar caminhos para mim. Não raro, encontro com pessoas que estão mais ou menos no mesmo caminho e direção que eu, nascendo assim uma espécie de identificação. Esse é um processo natural até mesmo nos relacionamentos de amizade e na escolha de uma igreja para ser membro, por exemplo. As pessoas ficam mais próximas daqueles que se identificam mais, onde há afinidade de pensamentos, idéias e caminhos.

Tenho tentado, há um bom tempo, me relacionar com pessoas das mais diferentes posições. Não é fácil, porque não é natural. Dizem que, ao menos no Brasil, três assuntos causam divisões: futebol, política e religião. O interessante é que, embora flamenguista, me relaciono bem com pessoas de outros times. Às vezes alguém fica chateado com alguma brincadeira, mas no final é apenas curtição. Lido bem com pessoas com posições políticas diferentes das minhas e acho sempre interessante discutir capitalismo e socialismo. Mas eu já percebi que a coisa esquenta mais quando o assunto é religião. Esquenta mais ainda quando se discute divergências dentro de uma mesma religião, denominação ou igreja.

No fundo, lá no fundo, isso acontece porque, bem ou mal, todos sabemos que em termos de futebol é questão de gosto pessoal e tradição familiar. Em termos de política, a coisa gira em torno de preferências pessoais. Qual posição política trará mais benefícios para mim? Qual prefeito me dará um cargo? E por aí vai. Futebol e política são relativos. Mas a religião é toda construída em termos de absolutos. Para uma religião ser verdadeira, todas as outras precisam ser falsas. E isso vai se estendendo em todas as camadas religiosas. Para uma doutrina ser verdadeira, uma diferente tem que ser falsa. Para um modelo de culto ser verdadeiro, o outro tem que ser falso. Para um jeito de ser igreja ser verdadeiro, o outro tem que ser falso. A religião é extremamente dependente da verdade, ou melhor, do domínio da verdade. Por isso, mata-se em nome da religião, porque sempre se quer calar a voz contrária que diz que há outras possibilidades além da que recebemos. Em alguns casos, não se mata pela religião, mas se exclui, se abandona, chama-se de perdido, herege, alguém para quem o sol da graça não pode brilhar porque ele só brilha dentro do quintal de determinada religião, denominação ou igreja.

As experiências com o blog, neste pouco mais de um ano online, foram fantásticas. Recebi vários comentários e e-mails, uns elogiando e outros me chamando de herege. Conheci pessoalmente alguns leitores do blog de religiões diversas e isso foi fantástico. Conheci uma mulher que lida com ensino religioso nas escolas, mas ela em si não abraça nenhuma religião, já tentou várias, mas não abraçou nenhuma. Conheci um maçom que foi criado em um lar sincrético, com misturas católicas e de religiões afro, que hoje se declara em busca de algo. Todas essas pessoas se disseram leitoras do blog porque me proponho a fazer um diálogo com as mais diferentes tradições e, todas elas, de alguma maneira, foram machucadas pela religião institucionalizada, sofrendo alguma espécie de abuso, preconceito ou mesmo exclusão. Todas essas pessoas querem um algo a mais na vida, abraçar a espiritualidade, conhecer Deus, mas estão cansadas de religião, dogmas, rituais, tabus.

Neste sentido, em tenho uma enorme identificação com esse tipo de gente, pois também já me senti cansado de tudo que tenha a ver com religião. Hoje, a única diferença, é que lido de maneira mais pacífica com ela, pois não quero mudar nem as religiões nem as instituições, mas quero viver minha espiritualidade cristã de maneira livre e responsável mesmo se eu estiver dentro de uma instituição. Posso abraçar uma identidade religiosa, socialmente falando, mas não é a religião que dita minha vida e muito menos como ando com Deus.

Aqui mora algo estranho, porque falo coisas que são contrárias à religião, embora eu ache que tenha muitas coisas boas nela. A religião se tornou uma forma de tentar convencer o sagrado a fazer o que queremos. Se tornou um sistema de trocas. A religião perdeu sua essência de religação com o sagrado, reconexão, e se tornou uma forma de extorquir de Deus aquilo que ele está disposto a dar de graça. Em alguns sentidos, dentro do próprio meio evangélico, que sempre falou na Graça de Deus, a religião ganhou contornos primitivos, sacrificiais, com barganhas e toda sorte de crendice para tentar convencer Deus a abençoar. Algumas pessoas estão chamando de macumba gospel, porque muitas atitudes não tem diferença nenhum em relação a um despacho deixando na esquina (com todo respeito aos praticantes de religiões que assim procedem). Neste sentido, a religião se torna um vício, pois se vai achando que quanto mais ritos cumprimos, quanto mais regras obedecemos, mais Deus é obrigado a abençoar.

Essa idéia de religião é totalmente oposta à idéia de Graça. Religião é uma tentativa de extorquir o sagrado; graça significa Deus estendendo a mão para salvar independentemente de quem sou ou fui, do que fiz, faço ou desejo fazer. Toda vez que chego perto de um sistema que tenta impor um conjunto de obrigações para se achegar a Deus eu passo a ter sérias desconfianças.

Jesus teve como principais opositores os religiosos do seu tempo, aquelas pessoas que viviam para religião, que logravam algum benefício social, econômico e político derivado da posição religiosa. Para essas pessoas, Jesus expressou suas palavras mais duras: “Raça de víboras, hipócritas, sepulcro caiado etc”. Os textos dos evangelhos sempre relatam os religiosos com ódio de Jesus, com os ouvidos fechados para mensagem do Reino, procurando uma oportunidade para prendê-lo e até mesmo matá-lo.

O que me impressiona é que anos mais tarde pegaram as palavras, os atos e a vida de Jesus, juntaram mais alguns detalhes, adaptaram algumas coisas, racionalizaram aqui e ali, e transformaram tudo isso em uma nova religião. Esta, por carregar o nome de Jesus, seria a única verdadeira, a religião das religiões e todas as outras seriam pagãs, malignas. No entanto, a própria religião que leva o nome de Cristo virou um sistema com obrigações e benefícios para se alcançar as bênçãos de Deus. O que mudou foram os rituais, os tabus e as crenças dogmáticas, mas virou mais uma religião.

No entanto, apesar desse aprisionamento de Deus em mais um entre tantos sistemas, a mensagem do Cristo ali preservada, mesmo domada, super interpretada, adaptada, alegorizada, ainda era a mensagem do verbo encarnado, uma palavra viva e cheia de poder que mexe e remexe com aqueles que se colocam diante dela. É impressionante, pois essa palavra sempre deixa aqueles que se deparam com ela diante de uma decisão: aceitar ou não? viver ou não? aplicar ou ignorar?

Deus, infelizmente, ao longo da história, se tornou uma mercadoria privada das religiões. Destarte, é bem natural as pessoas se achegarem a Deus através da religião e, alguns, apenas alguns, compreendem, depois, que a religião era e é apenas mais um meio no qual Deus se revela, mas ela é incompleta, infantil, é um sistema cheio de bengalas, apoios e é preciso entendê-la para usar o que ela tem de bom e não cair nas suas armadilhas e ilusões.

Felizmente ou infelizmente, os assuntos que pulsam em mim tem a ver com o Sagrado, Deus, teologia, cristianismo, igreja. Já prometi a mim mesmo que nunca mais falaria desses temas, nunca mais pregaria ou escreveria nada sobre essas coisas, mas, pegando carona com Jeremias, “A palavra me é no coração como fogo ardente, encerrado em meus ossos, estou fatigado de conter e não posso mais”. Eu não consigo deixar de expressar e sofro consequências por causa disso. A única maneira de falar do sagrado sem sofrer consequências é não falando ou então pregando ou escrevendo coisas que não afrontem os dogmas.

Escrevo em um blog público, mas que a pessoa só entre se quiser, ou ela clica em um link ou digita o endereço no navegador eletrônico. Estou sempre disposto a dialogar, a conversar, seja com quem for e mesmo quando recebo algum comentário ou e-mail ofensivo, procuro conversar cordialmente. Sempre temos nossas opiniões e sempre procuro rever e reformular as minhas e defendo de maneira fundamentalista o direito que qualquer um tem de pensar diferente de mim. Há pessoas, infelizmente, com quem podemos conversar sobre futebol, política, novela, filmes e até mesmo fazer fofoca da vida do irmão, que tudo fica tranquilo, mas quando o assunto é religião, a conversa fica intragável.

As ideias aqui expostas continuarão em constante processo de reformulação. Me deixo sofrer sempre um efeito colateral a cada comentário ou e-mail que recebo de algum leitor do blog. Minhas opiniões já mudaram muito desde que comecei a escrever, em muito por causa dos comentários e e-mails que recebi ou mesmo livros ou conversas que tive pelo caminho. O que quero é continuar sofrendo este efeito, este impacto, estas mudanças. O que quero é que, nessa teologia feita no caminho, com pessoas de vários lugares e tradições religiosas, as nossas bengalas da fé sejam quebradas. Desejo que nossa fé corra livre em direção a Deus, sem amarras, sem medos, sem ganância, apenas com o desejo sincero de estar com Aquele que é tudo em todos. Por fim, desejo que Deus me ajude a conversar sobre religião, com respeito e amor, até mesmo com aqueles que me dirão, face a face, que irei pro inferno por causa das minhas ideias.

Contradições Evangélicas

Essa semana, li um artigo publicado na Folha de São Paulo, cujo título era: “Kit Evangélico”. A publicação fazia referência à aliança firmada entre José S20121020-115438.jpgerra e Silas Malafaia, visando conquistar o voto dos evangélicos na disputa pela prefeitura da capital paulista.

Muito do artigo mostrava algumas contradições de José Serra que ora se mostra mais conservador ora se mostra mais liberal em relação a temas polêmicos como a descriminização do aborto e a questão homossexual. Para ganhar votos, o tucano voa de galho em galho, buscando apoio nos mais diferentes setores. Agora, a bola da vez é a ala evangélica, tradicionalmente mais conservadora.

Essa parte da matéria não me chamou muita atenção, pois para mim é tema vencido. Não sou a favor de “Kit Gay”, nem de liberar aborto, bem como nada que seja contrário à vida. Não por posições religiosas ou mesmo fincadas na moral cristã ocidental, mas por acreditar no valor inalienável da vida. No entanto, mesmo não tendo nada a favor em relação a “Kit Gay” ou a qualquer coisa do gênero, sou completamente a favor de respeitarmos os homossexuais e, na mesma balança, sermos por eles respeitados.

O que me despertou interesse profundo foi a parte final da matéria, a qual fala de um tal de “Kit Evangélico”. Segundo a matéria, esse kit seriam algumas coisas pelas quais os evangélicos lutam, principalmente quando estão no poder ou quando apoiam alguém para chegar ao poder. Segundo a matéria, “Ocupação do solo, aliás, integra o “kit evangélico” real, a agenda de interesses que religiosos apresentam aos candidatos. Desejam tratamento diferenciado para os templos -a fim de que possam ultrapassar os níveis de ruído exigidos de outros estabelecimentos e fixar-se onde e como queiram, a despeito das normas urbanísticas”.

Eu não preciso dizer muito, mas é triste ver que os evangélicos lutam para poderem ultrapassar o nível de ruído permitido por lei. Quem mora perto de igrejas sabe o quanto é ruim chegar em casa cansado do trabalho e ser obrigado a ouvir músicas altas, pregações e até mesmo gritarias. Isso não é um preconceito em relação a igrejas, pois é horrível, da mesma sorte, ter que ouvir carros de som, propagandas políticas, som alto das mais variadas festas e etc.

Essa é uma questão de completa falta de respeito em relação ao próximo. Todo mundo que faz uma festa ou um culto religioso e seu som ultrapassa os níveis de ruído estabelecidos em lei deveria ser severamente punido, multado e o seu templo ou casa de festa fechados. Os evangélicos deveriam estar lutando para que a lei fosse obedecida, dando, em primeiro lugar, o exemplo. Uma coisa simples seria cuidar do isolamento acústico dos templos, assim, poderiam se reunir a qualquer hora sem incomodar os vizinhos.

Outra coisa é a questão da ocupação do solo. Hoje as cidades enfrentam um grande problema devido ao crescimento desordenado. Na tentativa de conter isso, algumas cidades estão criando regras urbanísticas mais severas (isso quando o prefeito não está vendido para alguma construtora) visando solucionar os problemas. Essas regras incluem lugares específicos para se estabelecer comércios, moradias, igrejas, incluindo as regras para construção, como a quantidade de andares permitidos. Mesmo que outros grupos briguem para infringir as leis, o povo evangélico deveria ser o primeiro a lutar para que a lei fosse cumprida, buscando uma cidade melhor para vivermos.
Por fim, matérias como essa da Folha mostram uma espécie de ódio e preconceito em relação ao mundo evangélico. Não é um ódio porque os “crentes” deixaram o mundo e estão vivendo para Deus, mas um ódio porque os evangélicos se juntam para lutar pelos seus próprios interesses, não se importando com a lei nem com a cidade. Há uma máxima antiga que diz: “Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem com você”. Jesus inverte essa lógica, tornando-a positiva, e diz: “Faça aos outros o que você gostaria que fizessem com você”. O mundo evangélico da mídia, a galera gospel, está mergulhado em uma profunda contradição: lutam para infringir as leis e as regras urbanísticas, fazendo aos outros o que não gostariam que fizessem com eles. Depois vão dizer que é perseguição quando uma lei vier restringindo o horário dos cultos estabelecendo punições severas. Não será perseguição. Estarão colhendo o que estão plantando hoje.