Arquivo da categoria: Religião

Crer sem pertencer

b600-estatisticas-evangelicos-sem-igrejaHá pouco mais de um ano, uma reportagem da Folha de São Paulo causou um verdadeiro frenesi nos sites e blogs evangélicos espalhados pela internet. A matéria trazia o seguinte título: “SOBE TOTAL DE EVANGÉLICOS SEM VÍNCULOS COM IGREJAS”. O texto usava como base para argumentação os dados da “POF – Pesquisa de Orçamentos Familiares”, do IBGE, que foram confirmados pelos números do Censo 2010. Segundo o levantamento, entre 2003 e 2009, o percentual de evangélicos sem vínculo institucional subiu de 4% em 2003 para 14% em  2009, em números, isso significa um aumento de 4 milhões de pessoas.

Os dados são realmente alarmantes, assustadores, mostrando que 14% dos evangélicos não estão em nenhuma igreja. Confessam a fé, declaram-se evangélicos, mas não pertencem a nenhuma comunidade. Para muitos, o mundo evangélico começa a experimentar um pouco da realidade do catolicismo, na qual se confessa a crença, mas não se pratica efetivamente. Mesmo assim, a pergunta que fica no ar é: “Por que os evangélicos estão abandonando as igrejas?”. Há muitas pesquisas que tentam responder essa pergunta.

A própria matéria da Folha estava embasada pelas opiniões de antropólogos e sociólogos.  Em comum as pesquisas revelam que as pessoas estão cansadas do modelo eclesial vigente, no qual se valoriza mais a instituição do que o ser humano, ou seja, o fiel se transforma em mercadoria religiosa, disputada pelas mais variadas denominações que tentam se colocar como legítimas representantes de Cristo, únicas detentoras da verdade.

igreja(4)É interessante notar que em junho de 2007 a revista Enfoque Gospel publicou uma matéria que apontava razões pelas quais os fieis estavam abandonando as igrejas. Isso mostra que o assunto preocupa não é de hoje. As razões que a matéria levantou giravam em torno de problemas institucionais, como não achar uma tarefa para se engajar, mudanças do jeito de ser da comunidade religiosa, reclamações da liderança, hipocrisia dos irmãos etc.

Tudo isso seria efeito colateral da institucionalização exagerada, que deixaria as pessoas em segundo plano, tratando-as como mercadoria. Essa insatisfação generalizada e crescente é uma das causas do aumento de números de novas igrejas independentes, sem vinculo com nenhuma denominação já existente. Mas, nota-se que, apesar de o número de igrejas independentes crescer, o número dos sem igreja e dos sem vínculo cresce numa proporção ainda maior. A razão é simples: essas novas igrejas não apresentam, em essência, uma nova proposta, um novo jeito de ser. Em tese, nascem como uma alternativa, mas, na prática, vão se tornando apenas mais uma instituição, caindo nos mesmos vícios que antes condenavam.

Estamos longe de entender tudo que está relacionado a esse fenômeno, mas o certo é que estamos diante de uma crise, com problemas, desafios e oportunidades. Não há como apontar saídas para o mundo evangélico em si, pois ele já trilha uma estrada quase sem volta. Neste sentido, precisamos reforçar a nossa identidade enquanto igreja, comunidade de fé. Precisamos continuar sendo uma “igreja para quem não gosta de igreja”, ou seja, sendo um abrigo, uma família cristã, para abraçar, cuidar e amar aqueles que se machucaram, decepcionaram-se, desiludiram-se com as igrejas que tratavam a fé de maneira institucionalizada demais ou, até mesmo, como mercadoria barata. Precisamos reforçar nossas dimensões comunitárias, entendendo que nosso chamado é para compartilhar a vida uns com os outros e, assim, sermos uma alternativa real ao modelo de igreja mercadológico que impera em nosso tempo. Hoje, as pessoas creem, mas não querem pertencer. Precisamos continuar sendo uma comunidade da qual as pessoas tenham orgulho de fazer parte, na qual se possa crer e pertencer.

Sal e Luz

Neste final de semana, postei na página do blog no facebook o seguinte texto: “Vivemos um moralismo imbecil hoje em dia. Cristãos se escandalizam mais com um palavrão do que com pessoas passando fome nos bancos de suas igrejas. Hoje, a santidade evangélica virou simplesmente: não fume, não beba, não faça sexo. A justiça, a igualdade, o perdão e a solidariedade são abstrações utópicas de pregadores subversivos. A ‘vontade do Pai’ e o ‘venha a nós o teu Reino’ foram reduzidos a ‘vá ao culto, aprenda os dogmas e cumpra as regras’”. Várias pessoas curtiram e algumas comentaram, mas um comentário em específico me chamou a atenção:

“Acredito que o moralismo faz parte, não deve ser encarado como “apenas” mas como “também”…acho muito radical dizer que estes valores, dogmas sejam imbecis…afinal de conta temos que ser luz e sal…acredito que de tudo que foi escrito acima contribui para sermos verdadeiros cristãos!!! Até porque não se deve confundir santidade com assistência social…esse assunto dá pano para manga… acho muito radical o texto desse fé sem bengalas, abçs!”

O comentário acima me chamou a atenção pela forma como o post foi lido e compreendido. Escrevi apenas um parágrafo, mas acredito que ele tenha conseguido resumir bem o câncer do cristianismo em nossos dias. E um câncer é algo que fica crescendo silencioso durante um bom tempo, até que pequenas dores começam a aparecer e, após alguns exames e constatações, descobre-se que ele existe. A partir disso a dor é dobrada, porque, além do sofrimento físico, há o psicológico, pois inevitavelmente a notícia de um câncer pode parecer, para muitos, uma sentença de morte. Toda notícia de um câncer é recebida com radicalidade, por isso, mesmo que eu usasse eufemismos, o que se quis mostrar é sim uma doença que, se não tratada em tempo, nos levará a morte.

O texto não dizia, em momento nenhum, que a moralidade, a santidade, os dogmas, os rituais ou qualquer outra coisa que se tenha a ver com a religião são imbecis. No entanto, eu disse que a forma como o mundo gospel ou evangélico trata a moralidade e a santidade é imbecil. Por quê? Simplesmente porque é reducionista, externalizador e classificador.

Por exemplo, quando eu digo que as pessoas se escandalizam mais com um palavrão do que com pessoas passando fome nos bancos das igrejas, não estou dizendo que não devemos tomar cuidado com as nossas palavras, mas que exageramos ao supervalorizar isso em detrimento de outras coisas importantes.

A santidade, de fato, acabou se reduzindo a “não faça isso, não faça aqui outro”. Dessa maneira, a linda mensagem de convocação para o Reino, proclamada por Jesus, ganha um tom negativo, virando um convite reduzido e mesquinho para abraçar mais um sistema religioso entre tantos, carregado de obrigações e proibições.

A questão da ação social não tem nada a ver com a santidade alienante ensinada nos guetos evangélicos. Sobre isso direi apenas que não consigo compreender um santo formal, sentado na igreja, fazendo orações, ofertando, levantando as mãos para “adorar”, mas não estendendo a mão para ajudar o necessitado. A santidade como se ensina hoje é mera separação do mundo, isolamento, trancamento, confinamento. A santidade como se ensina hoje faz com que as igrejas fiquem alienadas social e politicamente, não se envolvendo com as questões importantes e relevantes para sociedade. A santidade gospel é a santidade do medo, do terror. Se pecar, Deus vai passar o rolo compressor. A santidade gospel é a santidade de um corpo pobre que só serve para cuidar dos interesses de uma alma. A santidade gospel é grega e espírita. Não consegue olhar para integralidade do homem em suas relações corporais, emocionais, espirituais, sociais etc. A santidade gospel é estruturada em cima de um ditado popular: “cuida da alma porque o corpo já foi”.

Para terminar, deixo uma reflexão sobre ser sal e luz – a metáfora utilizada por Jesus para expressar como seria a nossa ação no mundo.

Ser sal e luz é ser agente de transformação aqui e agora, mudando a realidade desde mundo. Não é possível salgar sem se misturar, de modo irreversível, com os alimentos.

Os guetos evangélicos nos chamam ao isolamento, a uma vida moldada pela realidade gospel, a uma espécie de submundo, subcultura. O mundo gospel hoje é um grande monastério esquizofrênico.

O convite de Jesus não é para o isolamento, reclusão em submundos, mas para vivermos na nossa cultura a contracultura subversiva do Reino.

Jesus, perdoem-me a expressão, era um cara “mundano”. Ele não vivia no isolamento religioso da sua época, mas se misturava com os “mundanos” do seu tempo, sendo chamado de glutão e beberrão. Prostituas, divorciadas, cobradores de impostos, leprosos, coxos. Era com esse tipo de gente que Jesus se misturava.

Você conta nos dedos de uma mão deficiente o número de religiosos transformados pela mensagem subversiva do Reino. Todavia, é impossível contar o número de pessoas que estavam à margem da religião e foram tocadas não só pela mensagem, mas pelo Reino em si. Isso nunca aconteceria se Jesus estivesse trancando no submundo gospel do seu tempo. É impossível iluminar com a luz escondida dentro de templos, cd’s, livros, rádios e tvs gospels.

O isolamento vem do medo de ser “um sal que perdeu o sabor”. No entanto, tão inútil quanto um sal que perdeu o seu sabor é um sal cheio de sabor em um saco fechado que nunca teve uma pitada lançada ao risco de mudar um alimento.

Dizem que São Gonçalo, no Estado do Rio de Janeiro, é uma das cidades do mundo com maior densidade de evangélicos por m², mas o que isso significa para São Gonçalo? A cidade continua suja, a saúde publica é um lixo, a educação não passa de castração intelectual, as ruas cheias de buracos, crianças e idosos jogados nas praças. Onde está todo sal que as estatísticas afirmam que São Gonçalo tem? Trancados em sacos (guetos) gospels? Onde está toda luz de São Gonçalo? Escondida, cuidadosamente, no subterrâneo gospel? Hoje, a melhor definição para São Gonçalo foi uma que achei no facebook: “um lugar escuro e cheio de praças, onde você nunca deve ir”.

Pelo que percebo no imaginário gospel popular, moldado pela mídia gospel alienante e castradora, ser sal e luz virou sinônimo de ser apenas diferente, custe o que custar, até o isolamento.

Essa é a realidade que precisa ser iluminada e temperada. Esse mundo que precisa ser mudado. Se continuarmos trancados, esta realidade passará e o que iremos mudar? O céu? Os anjos? O diabo? O inferno?

Contradição Batista

Há alguns fatos que, de tão estranhos e surreais, se equilibram delicadamente entre o triste e o cômico. Talvez se enquadrem com perfeição na expressão popular: “É melhor rir para não chorar”.

Um desses fatos estranhos aconteceu diretamente comigo, envolvendo a minha pessoa. Fui pregar em uma igreja, em um domingo de manhã, e minha primeira palavra foi um “Bom dia!”. Para o meu estranhamento, ninguém respondeu. Todos ficaram emudecidos. Continuei a mensagem normalmente e, ao terminar, passei a palavra ao pastor da igreja. Ele, sem meias palavras, explicou de modo direto que “dar bom dia não é uma tradição batista”. Eu, que já estava sentado ao lado da minha esposa, perguntei a ela em tom debochado: “Então, o que é uma tradição batista? Ser mal educado? Grosseiro?”. Confesso que no momento eu fiquei chateado com a imbecibilidade das palavras sem sentido e mal colocadas em público, mas hoje, sempre que conto essa história eu conto achando graça.

Um outro fato, não menos estranho, aconteceu há pouco tempo quando uma nova igreja estava para ser organizada. O líder da nova igreja, ao convidar os pastores da redondeza, esbarrou com um pastor que negou o convite usando o seguinte argumento: “Eu não vou à organização da sua igreja, porque não é uma tradição batista organizar igrejas em prédios alugados”. Neste caso, confesso, chorei de tanto gargalhar. Mas, pensando bem é mais uma coisa para chorar. Principalmente, porque esse pastor, que pautou sua prática com uma tradição, está sendo acusado de um contato – digamos – nada pastoral com uma adolescente de sua igreja.

Nos dois casos, se destaca a palavra TRADIÇÃO, mas ela não foi dita sozinha, estava casada com a palavra Batista. Não se falava de uma tradição genérica, mas de uma específica: TRADIÇÃO BATISTA. A razão pela qual não se pode ser educado em um púlpito é a mesma razão oferecida para não apoiar uma igreja que está começando, ainda sem um grande capital e sem um prédio próprio – TRADIÇÂO BATISTA.

Eu acho lamentável porque, embora eu respeite e dialogue com outras tradições cristãs diferentes da minha e até mesmo outras religiões, eu nasci em uma tradição batista e estudei em um seminário batista. Durante anos, eu provavelmente fui batista pelo simples fato de ter nascido em um lar batista. Depois passei a admirar a denominação, quase endeusando. Fui ensinado, de modo quase forçado, que a doutrina batista era a melhor e a mais coerente com as escrituras sagradas. Cheguei a ouvi que as doutrinas eram tão coerentes e corretas a ponto de proteger o texto. Valeram-se de um texto de provérbios que fala de demarcação de propriedades para dizer que não era bom mexer nas tradições batistas, pois está escrito: “Não removam os marcos antigos”. No entanto, quanto mais eu mergulhava nesse universo, mas eu percebia os instrumentos de controle e as contradições internas.

Por exemplo, segundo os princípios batistas, a bíblia é a única regra de fé e prática. Ora, se se justifica uma ação ou omissão usando a TRADIÇÃO, já não são mais as escrituras que estão ditando as regras do jogo, mas um conjunto de costumes e entendimentos que foram passados durante anos e ninguém sabe da onde veio e por que veio, sendo que, qualquer um que tenta mostrar como eles se originaram é considerado herege, traidor da doutrina e da tradição. Neste sentido, a bíblia torna-se apenas instrumento de discurso para se tentar justificar, mesmo que precariamente, as tradições e dogmas, pois estes, em termos de regra de fé e prática – na prática – já se tornaram, em muito superiores às escrituras.

Mais interessante, ainda, é que os documentos batistas incentivam o estudo honesto e profundo das escrituras: “O indivíduo tem de aceitar a responsabilidade de estudar a Bíblia, com a mente aberta e com atitude reverente, procurando o significado de sua mensagem através de pesquisa e oração, orientando sua vida debaixo de sua disciplina e instrução”. No trecho acima, fala que é responsabilidade do indivíduo estudar a bíblia, mas não de qualquer maneira: 1- com a mente aberta (sem conceitos pré-concebidos e pré-moldados pelas tradições e doutrinas); 2- com reverência (tendo a noção que se está diante de um escrito sagrado, sendo necessário para uma melhor compreensão a dedicação a pesquisa – estudo sério – e a oração; e, 3- colocando a vida debaixo da disciplina e instrução da bíblia (não da tradição).

Eu confesso que, um dia, até pensei em deixar de ser batista. Hoje, para ser sincero, não uso rótulos, gosto de ser chamado apenas de cristão. Mas, entendo que minhas compreensões da vida e do meu relacionamento com Deus e com meus semelhantes estão muito ligadas aos princípios batistas. Lamentavelmente, a maioria dos batistas sabem que existem doutrinas batistas, tradições batistas e mais uma coleção de invenções adjetivadas com a palavra batista, contudo desconhecem a existência dos princípios batistas.

Boa parte dos batistas que conheço se acham guardiões da “sã doutrina”, da liturgia correta e dos padrões morais absolutos. Olham para outros grupos protestantes históricos ou mesmo os evangélicos como se fossem inferior ou até mesmo “burros” por não entenderem o que está tão “claro” nas escrituras. Esse espírito arrogante leva a maioria dos batistas a viverem de maneira isolada no mundo cristão. Não dialogam com outras tradições e pensamentos divergentes. O isolamento é tanto que ouvi um pastor batista dizendo uma vez que não é correto um batista se casar com um pentecostal, porque isso seria jugo desigual. Antes, só se negava o casamento entre um “crente” e um não crente, já que luz não pode se misturar com trevas. Agora, já há uma distinção entre “luz mais forte” e “luz mais fraca” ou “luz diferente”, já nem consigo definir bem, pois o nível de sectarismo é alto demais.

Essa postura julgadora e arrogante dos batistas em relação aos outros cristãos de tradições diferentes é contraditória, inclusive, com os princípios batistas, que assim falam: Os batistas consideram como inalienável a liberdade de consciência, a plena liberdade de religião de todas as pessoas. O homem é livre para aceitar ou rejeitar a religião; escolher ou mudar sua crença; propagar e ensinar a verdade como a entenda, sempre respeitando direitos e convicções alheios; cultuar a Deus tanto a sós quanto publicamente; convidar outras pessoas a participarem nos cultos e outras atividades de sua religião(…). Tal liberdade não é privilégio para ser concedido, rejeitado ou meramente tolerado – nem pelo Estado, nem por qualquer outro grupo religioso – é um direito outorgado por Deus.
Cada pessoa é livre perante Deus em todas as questões de consciência e tem o direito de abraçar ou rejeitar a religião, bem como de testemunhar sua fé religiosa, respeitando os direitos dos outro”.

Por fim, minhas convicções são de fato batistas, mas não me acho superior a nenhum outro cristão que pensa diferente de mim. A cada dia, com a mente aberta, avalio a possibilidade de compreensões diferentes serem mais coerentes que as minhas. Muitos batistas dizem que não sou batista, porque não tenho como regra de prática as tradições, mas tento ter as escrituras (lidas sem a lente do dogma). Se o texto sagrado não me proíbe, não vai ser a tradição quem vai proibir. Por questões pequenas, me consideram um batista “meia boca”: vou às celebrações de bermuda, prego sem terno, não participo de politicagens baratas da denominação, não vou a eventos e muito menos contribuo financeiramente com ela. Respeito quem se embola nos tecidos da estrutura denominacional, apenas não serve para mim. Sou batista, não porque é melhor diante de Deus, mas porque acredito em seus princípios, mesmo não seguindo suas tradições. Acho que, para encerrar, como manda a boa tradição batista, é melhor usar as palavras de Jesus, a palavra encarnada: “Vocês anulam a palavra de Deus (me anulam – eu – Jesus) com a tradição de vocês”.

Facebook Religioso

Às vezes, minha consciência me prega peças. Uma delas aconteceu na madrugada de hoje. Ao perder o sono, peguei o celular que estava ao meu lado na cama e acessei o Facebook, olhando o feed de notícias, vendo se havia algo interessante. Em um determinado momento, esbarrei com algumas publicações de um amigo que conheci na época de adolescente, quando éramos da mesma igreja. Eram publicações de vídeos do Youtube, contendo funk carioca, carregado de expressões sexuais e palavrões.

Inicialmente, não achei muito legal, mas depois deixei meus instintos religiosos falarem mais alto. Comecei a lembrar de que este amigo se afastou da igreja no início da sua juventude. Com o seu afastamento, rapidamente jovens piedosos apareceram contando histórias de sua rápida decadência espiritual, pedindo, contritos, oração por ele, já que a santidade era medida por coisas bem fáceis de observar: sexo, álcool, cigarro, baladas, músicas “mundanas”.

Lembrando-me dessas coisas, rapidamente fui tomado por um espírito farisaico e pensei: ele publica essas coisas porque está perdido no mundo, precisando voltar para igreja. O cara está perdido e um dia já esteve nos bancos da santa igreja. Como pode?

Eu acho que eu estava com sono, porque, um segundo depois, quando me senti mais acordado, vieram à memória inúmeras outras publicações no Facebook, tanto minhas quanto de diversos amigos que sempre estiveram na igreja. Percebi que boa parte dessas publicações eram versinhos bíblicos de caixinha de promessa (uma espécie de oráculo gospel), partes de devocionais diários e livros evangélicos confessionais, frases de efeito gospel, frases bonitinhas declarando amor a Deus e a Jesus e infinitas outras coisas do gênero religioso/gospel.

Comecei a me perguntar se fora do Facebook somos tão santos assim. Então uma pergunta me atingiu como um raio, destruindo minha pseudo segurança religiosa: será que estamos usando o Facebook para projetar uma imagem polida de nós mesmo, escondendo quem verdadeiramente somos? Será que teríamos a coragem de usar as palavras que usamos com nossos amigos mais íntimos no Facebook? Por que sentimos essa necessidade intensa de nos autoprojetar com uma imagem construída?

Eu não vou citar exemplos, mas o meu contato cotidiano com a maioria das pessoas que postam mercadoria gospel no Facebook revela que há uma distância enorme entre o que são e o que postam. Para ser sincero, há uma distância enorme entre o que sou e o que posto, entre o que escrevo e o que sou.

Para acalentar minhas conclusões, lembrei que Jesus nutriu profundos embates com os religiosos do seu tempo, pessoas como eu, provavelmente. Ele os chamava de sepulcro caiado, raça de víboras, hipócritas. Jesus denunciava que eles por fora eram uma coisa e por dentro, outra. Os acusava de anular a palavra de Deus usando a tradição.

Por outro lado, quando Jesus esteve diante dos excluídos do seu tempo, dos pecadores, publicados, das prostitutas, dos leprosos, dos humilhados e rejeitados, suas palavras eram de amor e graça. Jesus era acusado de comer e beber com pecadores e publicados, de andar com pessoas de baixa reputação. Era para esse tipo de pessoa que o Reino era anunciado, até mesmo como uma espécie de subversão do sistema religioso, social, econômico e político da época.

Fico pensando: se Jesus estive caminhando por aqui hoje, será que ele comeria em minha casa ou me chamaria de hipócrita? Sem falsa humildade, acho que ele diria: “Você não passa de um hipócrita, que posta no Facebook palavras bonitas, versos, mas por dentro está cheio de maldade. Sepulcro caiado, que projeta no Facebook uma imagem polida de você mesmo, algo que talvez nem você mesmo queira ser, mas quer que as pessoas pensem que você é”.

E creio que, em minha religiosidade mórbida, provavelmente eu ficaria chocado, pois acho que não iria gostar de ver Jesus comendo e bebendo com os funkeiros e pagodeiros do meu tempo (pessoas como o meu amigo que posta palavrões e palavras obscenas no Facebook), as prostitutas, os travestis, os “crackudos”, anunciando que as boas novas do reino são para gente como eles, irremediavelmente doentes, não para gente como eu que achou cura nos braços seguros da religião.

Quem será salvo?

Eu confesso que aprendi a “boa doutrina” desde criança. Desde muito garoto ouvi da dualidade céu e inferno. Desde cedo aprendi que quem aceitasse Jesus como salvador e senhor, levantasse a mão, professasse publicamente a fé e fosse batizado seria salvo do fogo eterno e teria o passaporte carimbado para o céu. Em contrapartida, aprendi que quem não declarasse que Jesus é o salvador iria queimar no fogo do inferno, com o diabo e seus anjos, fritando eternamente em um lago de fogo.

Um pouco mais tarde, fui tomado por um ardor missionário quando percebi que, teoricamente, dentro desse conceito de salvação, os índios isolados na Amazônia que nunca tiveram contato com o evangelho ocidentalizado iriam diretamente para o inferno. Gerações e mais gerações de índios, todas, caminhando diretamente para os braços do diabo. Lembro-me de ter visto encenações descrevendo o inferno e as pessoas lá dentro sendo interrogadas sobre a razão que as levou para lá. Elas sempre diziam: “Não me falaram de Cristo”. Neste sentido ficava claro que a nossa missão era simplesmente “falar de Cristo”, oferecer o convite, para que não fôssemos culpados do sangue daquelas pessoas.

Com o tempo, fiquei muito perturbado ao perceber que havia no mundo e ainda há, mesmo com a internet, povos e mais povos isolados. Há pessoas que morrem sem nunca terem ouvido nada a respeito de Jesus nem mesmo o nome dele. E aqueles índios que viveram durantes anos nas Américas e na Oceania sem nunca terem tido contato com o cristianismo até a era das grandes navegações, será que foram todos para o inferno?

Às vezes, confesso, sou tendente a dizer que Deus, cuja essência é o amor, que morre na cruz para dar vida, salvou todos eles. Quando digo isso, algumas pessoas me perguntam se sou universalista, ou seja, se acredito que no final das contas Deus vai salvar todo mundo. Eu digo, sinceramente, que não gosto de definições taxativas, mas que gostaria muito que, de fato, Deus no final das contas salvasse todo mundo.

Muitos rebatem dizendo que Deus seria injusto salvando todo mundo, pois existem aqueles que creram na mensagem dele, seguiram o caminho dele e no final das contas não adiantou nada, já que outros que viveram de qualquer modo também foram salvos. Esse tipo de argumento é mais uma vez a nossa arrogância de pseudo superioridade cuspindo em nossas faces. É mais uma vez o grito de dor que revela o nosso íntimo mais sujo e a verdadeira face do nosso buscar a Deus. Pensar dessa forma é, para mim, seguir a Deus ou porque se tem medo do inferno ou porque se quer algo em troca. Quem quer alguma vantagem de Deus, qualquer que seja, até mesmo a salvação do inferno, se sente injustiçado ao ouvir da possibilidade de Deus salvar todo mundo.

Eu digo que ficaria feliz ao ver na mesa de Deus, ao meu lado, pessoas que viveram comigo, mas nunca professaram a mesma fé que eu. Eu ficaria feliz ao ver os índios das tribos mais remotas do mundo, que nunca tiveram contato com o cristianismo ocidentalizado e institucionalizado, comendo à mesa de Deus. Eu ficaria feliz ao ver os grandes ateus do mundo, que negaram a existência de Deus, sentados à mesa de Deus. Eu ficaria feliz vendo terrorista e outras pessoas mais que cometeram atrocidades sentados à mesa de Deus. Não me sentiria injustiçado porque cri e levantei a mão e eles não. Não me sentiria injustiçado porque enquanto eu estava na igreja todo domingo, muitos deles estavam na praia. Não me sentiria injustiçado por ter tentado seguir padrões morais mais elevados e alguns até sem sentido e muitos deles não. Eu simplesmente ficaria feliz e pensaria: “Realmente Deus é o Deus da graça”.

E se me perguntassem então qual é vantagem de ser Cristão eu diria: valeu a pena porque eu sempre tinha um amigo que podia contar. Valeu a pena porque a mensagem de Cristo encheu minha vida de sentido e significado. Valeu a pena porque andando com Deus entendi que minha vida não era produto do caos e do acaso. Valeu a pena porque, como diz Ed René, muito mais do que me salvar do inferno, Deus está me salvando de mim mesmo, da minha arrogância, da minha estupidez, da minha insensatez, da minha maldade, do meu orgulho, do meu egoísmo. Muito mais do que uma salvação para o futuro, Deus está me salvando no presente, no aqui e agora.

Eu não vou bater o martelo e definir se Deus vai salvar todo mundo ou se ele elegeu uns para salvar ou se ele vai salvar aqueles que levantaram a mão. Não sei essas respostas. Mas aprendi a não ficar definindo quem vai ou não ser salvo. Tem gente que diz que o papa não pode ir para o céu. Tem gente que diz que o Bono Vox não pode ir para o céu. Tem gente que diz que Madre Tereza não pode ir para o céu. Que Mahatma Gandhi não pode ir pro céu. O que vejo é que as pessoas não se contentam em saber se são ou não salvas. Na verdade, como não conseguem ter a certeza, precisam definir quem não é salvo. Então, preferem pautar a sua pseudo certeza de salvação na completa certeza de condenação daquele que crê diferente. Quem vai ser salvo ou quem é salvo? Sinceramente, não sei. Mas, de que salvação estamos falando? Salvos de que? Salvos de quem? Salvos para que?

Gospelfobia

Certa vez, por volta das onze da noite, eu estava chegando a minha casa, cansado, depois de um dia de trabalho e aulas no seminário. Eu estava em um meio de transporte alternativo, conhecido como van. Ao descer do transporte, na entrada da rua onde moro, percebi que estava sem minha carteira. Tentei gritar para van parar, mas foi inútil. Corri desesperadamente até minha casa para pegar o carro e ir atrás da van. Cometi todas as infrações de trânsito possíveis e impossíveis, arrebentei a suspensão do carro nos buracos das ruas de São Gonçalo, mas, finalmente, alcancei a van.

  Quando parei o transporte, o motorista me reconheceu. Eu disse que havia esquecido minha carteira na van e perguntei se alguém havia achado. Ele perguntou aos passageiros, mas todos responderam negativamente. Então fiz uma checagem pelos bancos e pelo chão do veículo, mas não encontrei. Voltei para casa decepcionado, pois eu tinha certeza que a carteira estava naquela van – afinal eu lembrava com clareza de ter tirado a carteira do bolso para pagar a passagem.

  No meu íntimo eu sabia que alguém naquela van havia se apossado da minha carteira e não queria devolver. Comecei a elaborar julgamentos, pensando nas pessoas com maior aparência de desonestidade. Por fim, naquele momento, só me restou voltar para casa e ligar para as operadoras de cartões de créditos e bancos para pedir o cancelamentos dos cartões e dos talões de cheque. Isso tudo ocorreu em uma sexta.

Na segunda-feira, enquanto eu estava almoçando, o gerente do meu banco me liga dizendo que um senhor havia encontrado minha carteira, deixando o telefone celular para que eu entrasse em contato. Rapidamente fiz a ligação e, para minha surpresa, o senhor também estava no Centro do Rio de Janeiro, em uma rua perto de mim, na qual marcamos nos encontrar para que ele devolvesse minha carteira. Deixei o almoço pela metade e fui rapidamente ao encontro dele.

Ao chegar, o senhor se identificou como pastor evangélico de uma igreja com um desses nomes estranhos, que ficava no ponto do final da van, e estava acompanhado de um diácono. Ele estava com todos os meus documentos, talão de cheque e, ainda os demais papeis e cartões de visita que se encontravam em minha carteira, inclusive comprovantes de pagamento em máquinas de cartão de crédito. No entanto, minha carteira e o dinheiro que estava dentro dela não estavam com ele.

 Vendo minha surpresa, o pastor disse que havia chamado o diácono como testemunha do que ele iria dizer. Ele começa então a contar que um irmão da igreja dele, na hora da oferta, ofertou com cheque. Eles desconfiaram porque o cheque não era dele e o valor era alto demais. Apertaram o irmãozinho até que ele confessou que encontrou uma carteira em uma van, mas que  não estava mais com o dinheiro nem com a carteira, só com o restante do conteúdo em um saco plástico . Diz o pastor que, ao analisar meus documentos, levou um susto, pois viu minha carteira de estudante do seminário de teologia. Ele então brigou com o irmão dizendo que ele estava trazendo maldição para igreja dele, pois o dono da carteira era um servo de Deus que estudava para ser pastor. Pegou o saco plástico das mãos do irmão e disse que tentaria devolver antes que Deus fizesse algo.

 Quando o pastor falou que fora um irmão que achou a carteira, eu lembrei que um homem de terno e gravata, com uma bíblia gigante debaixo do braço, havia entrado na van. Ele tinha aparência humilde, terno surrado, mas não tinha cara de desonesto. Talvez aparentasse um pouco de insanidade, pelo jeito estranho de se comportar e pelo simples fato de usar terno e gravata no calor do Rio de Janeiro sem que isso seja uma imposição do trabalho. Quando procurei a carteira na van ele estava lá dentro, mas não disse nada. Será que foi ele? – eu fiquei me perguntando.

 Inicialmente essa história seria hilária, mas refletindo bem, ela se tornou aterradora. O que leva uma pessoa a achar um cheque, falsificar a assinatura de seu dono e entregar como oferta na igreja? Talvez tenha a ver com um dos últimos textos que postei aqui: “Caçadores de Recompensas”. As igrejas hoje enfatizam tanto a ideia de que é preciso dar para receber que geram um tormento na cabeça das pessoas que, em busca de bênçãos, acabam fazendo loucuras. Outro dia ouvi de um casal que comprou um carro financiado, com muito esforço conseguiu pagar o carro e, depois, entregou o carro para o pastor da igreja. O detalhe é que o pastor da igreja já era dono de um Kia Sportage. Eu realmente não posso entender o que está acontecendo. Se esse pastor fosse humano, o mínimo que ele faria era dizer que Deus reconhece a intenção do coração do casal, mas deseja que o carro fique com ele. Mas o pastor aceitou o carro.

Outra coisa me incomodou sobremaneira. O pastor brigou com irmão porque a carteira era de um seminarista que, na cabeça dele, era um servo de Deus que tinha uma conexão especial com Deus, uma unção. Mexendo com um servo de Deus, automaticamente, eles estariam mexendo com Deus e atraindo as maldições de Deus para vida deles. E se a carteira fosse de um pai de família, pobre, e dentro dela houvesse os últimos dez reais para comprar leite pão e leite pros filhos, o pastor não se incomodaria? Se eu tenho uma leitura razoável da Bíblia, entendo que mexer com o direito do pobre, usurpar o pobre e o necessitado é algo que magoa profundamente o coração de Deus, muito mais que mexer com um sacerdote ou, no meu caso, um aprendiz de sacerdote. Algo está fora de lugar!

 Percebo uma doença generalizada, uma doença gospel. Creio que eu esteja sofrendo de golpelfobia. Eu escuto as notícias do mundo gospel e começo a ficar nervoso, quero me esconder. Ouço uma rádio gospel ligada e tenho vontade de ficar surdo. Ouço os televangelistas pedindo dinheiro, prometendo curas e enriquecendo a custa do pobre, e sinto vontade de quebrar a televisão ou então fazer como Jesus fez quando limpou o templo dos mercenários. Ouço as palavras cunhadas no gueto gospel e meus ouvidos começam a coçar. Sim, de fato, tenho gospelfobia, mas prefiro ter pavor do mundo gospel a sofrer dessa esquizofrenia gospel, que leva pessoas a se alinharem pensando que estão fazendo algo para Deus.

 Aprendi com um professor do seminário algo marcante. Eu não quero ser considerado um servo de Deus para que pessoas me olhem diferente, como se eu fosse maior que elas ou ungido. Quero ser considerado servo dos homens, que vive e pauta o relacionamento com Deus a partir do serviço ao próximo. Quero encarnar o que está escrito na primeira carta de João: “Se não amo o próximo a quem posso ver como posso amar a Deus que não vejo?”. E com humildade, peço que Deus encare meu serviço ao próximo como serviço a Ele. Mais uma vez eu digo para quem quiser ouvir: sou cristão. Creio em Jesus Cristo, o filho de Deus que, nas palavras de Leonardo Boff, “era tão humano que só podia ser Deus”.

Caçadores de Recompensas

Ontem, meio sem querer, passando rapidamente pelo Facebook, vi uma atualização de status do Pr. Fabrício Cunha, onde ele fazia a seguinte colocação: “A Teologia da Prosperidade coloca na boca de Deus uma frase que é do diabo: ‘tudo te darei se prostrado me adorares’.” Em um primeiro momento, sem pensar, fiz um pequeno comentário: “Genial”. Um pouco mais tarde, um amigo me chamou a atenção para um diálogo que estava ocorrendo nos comentários, na verdade, uma pequena discussão que começou por causa de um comentário do doutor em teologia Osvaldo Luiz Ribeiro: “Se as Igrejas que não são da TP não usarem mais Malaquias 3,10, então as considerarei sérias. Se usam, é bom não tacar pedra no telhado dos outros. Pelo visto, Ml 3,10 é do diabo! Porque o que Malaquias 3,10, que todas as Igrejas usam, diz é exatamente isso aí que acima se atribui ao diabo”. Em seguida, outros comentários foram feitos, alimentando ainda mais o debate, mas, por hora, não cabem aqui.

Esse pequeno debate em torno de um tema tão polêmico e atual no seio evangélico gerou em mim algumas reflexões. Na verdade, nem tanto em relação à teologia da prosperidade em si, mas em relação à teologia que a maioria das igrejas prega em seus púlpitos, principalmente quando o assunto em questão é dinheiro. No fundo, no fundo, o comentário do Dr. Osvaldo revela que a maioria das igrejas que pregam contra a teologia da prosperidade, na prática, pregam a mesma coisa, mas com outra roupagem. Na teologia da prosperidade, grosso modo, prega-se o dízimo em troca de riquezas e, em Malaquias 3.10, que é usado na maioria das igrejas, o dízimo em troca de bênçãos. Qual a diferença prática?

Ouvi algumas centenas de vezes, sentando em um banco de uma igreja tradicional, que todo crente que entrava no gabinete daquela igreja com problemas financeiros não era dizimista. A mensagem era clara: só se mete em problema financeiro quem não é dizimista. Para quem está sentando no banco essas palavras correm como uma ameaça. O cara que está com sua vida organizada e não é dizimista logo fica com medo de perder sua estabilidade financeira. Repare: ninguém promete riquezas em uma igreja que não prega prosperidade, mas usam o texto para fazer medo. De um lado se apela para ganância das pessoas; de outro, para o medo.

Pensando nessas coisas, começo a perceber que se a mensagem Cristã tem a ver com o cumprimento de determinadas obrigações para sermos abençoados é mais vantagem não segui-la. Vejo pessoas que nunca foram à igreja, não sabem nada de Deus, teologia ou doutrinas, mas possuem uma vida financeira equilibrada, uma família feliz, um bom emprego. Mas, a partir do momento em que essas pessoas abraçarem a fé cristã do jeito que é pregada por aí, caso não comecem a cumprir os regramentos rapidamente, correrão o sério risco de ver sua estabilidade ameaçada, pois crente que não dá dízimo tem problema financeiro, mas não crente que não dá dízimo pode ou não ter problema financeiro.

Eu sou obrigado a confessar que já fui partidário do esquema obrigações/bênçãos, em outras palavras, eu cria e pregava que se a pessoa fosse dizimista, participasse dos cultos e tudo o mais que se diz, ela, necessariamente, seria abençoada. Um dia, lembro que preguei uma mensagem baseada em Malaquias 3.10, na qual eu dizia com todas as palavras que a consequência direta do dízimo é a bênção. Usei vários exemplos de pessoas que deram o dízimo e foram abençoadas. O interessante foi que, no final, a igreja parecia em êxtase. Fiquei ouvindo elogio do sermão por semanas. Mas, aos poucos, o castelo de areia ruiu. É o que acontece quando se oferece um caminho para bênção baseado em obrigações. Rapidamente, pessoas começaram a me perguntar sobre detalhes do dízimo. Ouvi as mais variadas perguntas, mostrando o nosso velho estilo fariseu de querer colocar lei em cima de lei, mandamento em cima de mandamento. Para exemplificar, algumas das perguntas que recebi: “O dízimo é sobre o salário bruto ou o líquido?”; “Eu devo entregar o dízimo até de presentes que eu ganhar?”; “Se se eu atrasar um mês pode entregar no outro?”; “Posso entregar tudo junto no final do ano com o 13º ou tenho que entregar todo mês?”.

Ao ouvir estas e muitas outras perguntas, eu percebi que havia feito uma grande besteira. Geralmente quando prego e alguém levanta uma questão estranha, eu costumo pensar: “Será que ninguém entendeu?”. Mas, desta vez eu disse a mim mesmo: “Cara, você cometeu uma grande besteira. Você disse tudo errado”.

Ninguém se engane, essas questões saem da teoria e entram na prática. Certa vez, eu estava chegando à casa dos meus avós e o clima estava pesado. Minha avó estava revoltada com meu avô porque ele pegou o 13º salário inteiro e deu de dízimo na igreja. Como era final de ano, minha avó viu seus planos indo buraco abaixo, ou melhor, igreja abaixo. Para muitos poderia ser um ato de fé e, com certeza, conhecendo meu avô, sei que havia sinceridade no ato dele. No entanto, eu perguntei o porquê de ele ter feito o que fez. Ele simplesmente disse que durante o ano não havia dado o dízimo e agora estava dando os atrasados para que Deus o abençoasse. Embora eu tenha defendido meu avô na época, até porque já estava feito, senti um peso enorme em meu coração, sentindo que algo estava fora do lugar.

Eu sei que entro em um terreno pedregoso com esse discurso, pois o texto de Malaquias 3.10 está na bíblia e nós, cristãos, consideramos a bíblia a Palavra de Deus, nossa única regra de fé e prática. Embora eu seja um “herege”, ou seja, “aquele que escolhe”, eu digo que considero a bíblia a revelação de Deus e o caminho mais seguro que temos para se chegar a Deus. Mesmo assim, não deixo de admitir, com humildade e respeito, que o texto sagrado, por ser antigo e oriundo de culturas diferentes da minha, possui certa dificuldade de interpretação. Então é ingenuidade simplesmente ler a tradução de um texto, no meu caso em língua portuguesa, e sair tirando conclusões sobre ele e aplicando como regra em minha vida, sem antes tentar entender o contexto histórico no qual o texto foi produzido, as tensões políticas e sociais e a cultura por trás do texto. Por isso, ler Malaquias 3.10, isoladamente, e sair tirando conclusões de causa e consequência pode ser como um tiro no pé. Até porque, mesmo que entendamos o texto de modo literal, como o conhecemos em língua portuguesa, quem disse que a promessa vale para hoje também?

Não estou dizendo que é errado ofertar na igreja, muito pelo contrário: se somos membros de uma comunidade cristã, nada mais justo do que colaborarmos, cada um de acordo com suas possibilidades e dentro da generosidade de cada coração, para mantermos a comunidade funcionando. Mas acho que o problema reside em como fazemos as coisas. Usamos o medo e a ganância das pessoas para motivá-las a ofertar e criamos monstros caçadores de bênçãos ao invés de discípulos. Alimentamos um caminho para bênção que mais escraviza do que liberta, mais gera culpa do que cura. Nessa paranoia de cumprir obrigações para se conseguir bênçãos criamos uma coleção de cristãos loucos e desorientados, que perderam completamente o ponto central do evangelho.

Essa história toda de dízimos e bênçãos, a meu ver, camufla o real sentido da vida cristã. É fácil pensar que meu compromisso financeiro é de dez por cento do meu rendimento e usar o restante como bem entendo, para o meu próprio benefício apenas. É fácil achar que após eu ter entregado meu dízimo, não preciso mais ajudar o próximo, pois a parte do meu dinheiro destinada a boas ações já está com a igreja e esta que cuide dos necessitados. Na verdade, esse e muitos detalhes que viraram quase lei nas igrejas são elementos escamoteadores da integralidade da vida cristã. Exemplos como dízimo, dia do senhor, e muitos outros fazem com que fragmentemos nossa vida em partes, umas para o senhor, outras para nós e outras, bem, só Deus sabe.

O convite do evangelho é o convite à integralidade. Deus nos convida para viver uma vida integral com Ele e não apenas as migalhas que caem no chão da religião – 10% de dízimo, um dia da semana para o senhor e por aí vai. Mas esse convite não é um convite para sermos abençoados. Não significa que quando mais você viva para Deus mais bênçãos você vá receber, principalmente se você embarcar na confusão de bênção com benefícios materiais. Acho lindo que na passagem da viúva pobre, Jesus a elogia grandemente, simplesmente porque ela deu tudo que tinha, mas ele, ao mesmo tempo, não diz que ela será mais abençoada que os outros que ofertaram das suas sobras, nem diz, ao menos, que ela será abençoada por isso. Ao mesmo tempo Jesus diz que “o sol brilha sobre os bons e sobre os maus”, em outras palavras, de certa maneira, todos são abençoados pelo criador. Será que por você ser cristão você receberá mais bênção? Não necessariamente. Cristãos ficam doentes na mesma proporção que os não cristãos. Cristãos perdem o emprego, batem com o carro, se separam, perdem pessoas queridas da família e enfrentam todas as mazelas que qualquer um enfrenta.

Então, você pode se perguntar: “o que ganho por ser cristão?”. Se você se fez essa pergunta, é porque ainda não compreendeu a coisa. O caminho é o inverso. Não somos cristãos para receber bênçãos, mas o somos para abençoar vidas. Não somos chamados para receber, mas sim para dar. O que fazemos para Deus é muito mais que dizer “eu te louvo”, dar dízimo ou ir à igreja em um domingo. O que fazemos para Deus tem sua dimensão ampliada quando o fazemos para o próximo, porque como cristãos devemos ser a mão de Deus para abençoar o próximo. Como Jesus disse: “O que fizerem a um dos meus pequeninos estarão fazendo a mim”. Por isso tudo o que fazemos para Deus não deve ser feito para receber bênçãos, mas deve ser feito por amor. E não há como dizer que amamos a Deus não amando ao nosso próximo. Nós fazemos para Deus simplesmente porque Deus já fez. Em Jesus Deus nos abençoou previamente para que não virássemos caçadores de bênçãos. A questão não é o que eu ganho sendo um cristão, mas o que as pessoas a minha volta ganham por eu ser um cristão.

Fé Sem Bengalas

Oração Religiosa

Outro dia me peguei orando com uma confiança extra, como se, por um conjunto de fatores,  a minha prece fosse ser atendida e os céus, movidos.  Quando terminei de orar, investi um tempo buscando as razões da minha confiança elevada. Como um relâmpago, uma pergunta surgiu em minha mente, revelando de onde vinha minha convicção: Por que será que sempre oro com mais confiança quando eu acho que estou pecando menos?

Eu fiquei atordoado com a pergunta e, fazendo uma análise sincera dos meus pensamentos, constatei que de fato eu estava me achando um cristão mais “na linha” nos últimos tempos. O fato de começar a me achar melhor me fez pensar que teria alguns pontos com Deus e assim Ele atenderia minha oração, pois seria só debitar na minha conta celeste de boas ações e creditar no meu pedido.  O que há de errado com isso? A bíblia não diz que os pecados fazem separação entre o homem e Deus, fazendo com que Deus não nos ouça? O inverso não seria verdadeiro: se pecamos menos, então, necessariamente, Deus ouve mais?

Refletindo mais um pouco, comecei a entender que eu estava invertendo as coisas. Eu estava orando dentro do padrão ensinado pela religião e não como alguém que conversa com o Pai. A maioria dos livros sobre oração, bem como os sermões sobre oração pregados nas igrejas, nos ensina a orar religiosamente ao invés de nos dizer: simplesmente converse com o Pai. Se você frequenta igreja, já deve ter ouvido sermões sobre “A oração que move o coração de Deus”, “A oração poderosa”, “A oração que Deus ouve” e infinitos outros sermões ensinando a orar de modo que Deus atenda. No seminário, por exemplo, na disciplina Ministério Pastoral, um pastor ensinou que a oração deveria seguir alguns passos: adoração, confissão e pedido. Ele só enfeitou a oração com técnicas de convencimento, sugeridas em livros de neurolinguística. Vou explicar melhor.

A adoração seria a bajulação. É quando você chega para Deus e o elogia de todas as formas, chamando-o de poderoso, eterno, perfeito, criador, rei, soberano etc.  Acho engraçado porque às vezes vejo pessoas com poses consagradas orando e sempre começam assim: “Amantíssimo, eterno e majestoso, Deus poderoso”. Isso é para amaciar o coração de Deus. O segundo passo é se reconhecer pequeno, confessando os pecados, assim você ganha pontos positivos bajulando – desculpe – “adorando” e ainda tem seus pontos negativos anulados, terminando com um saldo positivo para, então, fazer o pedido. Com essa técnica não tem erro, pois é a mesma que as pessoas usam umas com as outras, para se conseguir o que querem.Por exemplo, vendedores são treinados para “bajular” seus clientes especiais para fazê-los comprar o que não querem comprar. Por que daria errado com Deus?

Acho que entendemos melhor quando fixamos nossos olhos no que deveria ser e não no que hoje é. Os relatos da criação, presentes em Gênesis, podem ser lidos como uma metáfora do que deveria ser o relacionamento entre Deus e o homem. O texto diz que Deus passeava pelo Jardim e conversava com o homem normalmente, assim como conversamos com um grande amigo, em quem confiamos e não precisamos de cerimônias e rituais para nos aproximar. Jesus Cristo, que é quem nos convoca novamente a ser o que deveríamos sempre ter sido, nos convida a falar com Deus como quem fala com um pai, usando um termo carregado de carinho – Abba, que significa paizinho. Por que hoje para orar nos preocupamos em posição correta, lugar correto, forma correta, palavras corretas?

Depois de muito tempo, percebi que tratamos Deus da mesma maneira que qualquer religião trata a sua divindade – na base de troca. A pessoa que coloca um despacho na esquina, o faz para conseguir o favor da sua divindade. O islâmico que faz suas orações nas horas determinadas, virado para Meca, o faz para conseguir o favor da sua divindade. Da mesma sorte, o devoto que caminha quilômetros por um determinado santo, o faz para conseguir um favor da sua divindade. Sem querer, usamos os elementos “espirituais”, como adoração, oração, leitura da palavra etc., para conseguir favores da nossa divindade. Quando assim fazemos, nossa vida com Deus e um despacho na esquina se tornam exatamente a mesma coisa – uma moeda de troca. Um meio para se alcançar o favor de Deus.

Exatamente por isso, a oração é ensinada toda ritualizada nas igrejas. Se você observar com calma as orações públicas da sua igreja, perceberá que elas obedecem a um padrão tão definido que mais se parecem com uma reza decorada, trocando apenas pequenos elementos. É por isso que quando a igreja quer algo de Deus, ela marca uma vigília (talvez ela pense que Deus está menos ocupado de madrugada). É por isso que quando alguém quer mostrar uma aparência de contrição, para convencer a divindade de que se está arrependido, se coloca de joelhos. Por causa dessas e de muitas outras razões, a oração é ritualizada, toda desenhada, cheia de regras, porque ela é usada não para se conversar simplesmente com Deus, mas como um meio de se alcançar o favor de Deus.

Deus é nosso Pai e podemos e devemos pedir coisas a Ele. Jesus diz que “Deus dá coisas boas aos seus filhos”. No entanto, não é porque você está de joelhos ou em pé, não é porque você orou de madrugada ou de tarde, não é porque você orou de um modo ou de outro, não é porque você participou de vigílias de oração, não é porque um irmão mais poderoso orou por você ou mesmo um pastor, não é porque você fechou ou abriu os olhos, não é porque você deu o dízimo, não é porque você seguiu um manual de oração, não é porque você foi a todos os cultos, não é porque você trabalha na igreja, não é porque você pecou menos ou mais, não é por razão nenhuma vinda de você que Deus vai atender ou deixar de atender uma oração.

Por isso, experimente esquecer as regras que lhe foram ensinadas e passe a conversar com Deus como quem conversa com um melhor amigo, sabendo que Ele é mais do que isso – é o Paizinho de amor. Experimente falar com Ele sem formalidades, porque o caminho para Ele já está aberto pela cruz. Experimente andar com Ele, falando com Ele em suas atividades normais. Experimente contar suas frustrações, suas dores, suas alegrias, suas derrotas e conquistas, tal qual você conta ao seu melhor amigo. Experimente não ter medo de Deus, medo de estar cometendo algum erro enquanto ora, como se você não soubesse o jeito certo de orar. Esqueça todos os significados que a palavra oração possa ter para você e passe a falar com Deus como você naturalmente fala. Durma falando com Deus e não se preocupe se você está com sono e não vai terminar a oração. Não é porque você dormiu antes de falar “em nome de Jesus” que Deus vai deixar de ouvir. Na verdade, penso nisso com uma das mais lindas figuras – a figura de quem dorme conversando com o Pai, sentindo-se acolhido e protegido, e não percebe o sono chegar, vindo a dormir no colo do Pai.  Enfim, simplesmente esteja com Deus, se relacione com Ele e viva com Ele. O resto é com Ele.

 

Sacerdotes X Profetas – Uma Briga de Gigantes

Lendo os textos sagrados desatentamente poucos percebem que há uma briga memorável que transpassa boa parte das páginas do Velho Testamento. No ringue, estão frente a frente sacerdotes e profetas, lutando, destemidamente, para levar suas tradições adiante. Essa briga é de suma importância, até mesmo para se compreender melhor os texto sagrados, já que boa parte deles nasceu para ser arma de peso nessa luta de gigantes. Mas, para entendermos melhor as proporções dessa guerra, vamos conhecer melhor cada oponente, suas qualificações, suas vitórias, seus recordes, para que as apostas possam ser feitas no “melhor lutador”, com o menor risco de perdas possíveis.

De um lado, temos a figura do sacerdote. Ele é o cara do templo, o responsável pelos sacrifícios a Deus e pelo ensino da lei ao povo. Além disso, ele é autorizado a executar os diferentes ritos e cerimoniais referentes à adoração a Deus. Ele é quem pode se aproximar de Deus para ministrar em favor do povo, atuando como um mediador entre o homem e Deus. Por conta disso, o sacerdote é sempre muito importante e até mesmo poderoso, já que controla o acesso do povo a Deus e diz ao povo como Deus gosta de ser agradado. O sacerdote geralmente está ligado ao poder constituído, ao rei. Dificilmente o sacerdote contradiz o rei, ambos trocam favores. O sacerdote oferece sacrifício em favor do rei, mesmo este sendo injusto e contrário a Deus, enquanto o rei mantém o sacerdote em sua posição privilegiada perante o povo. O sacerdote é luxuoso, usa vestes especiais, sempre adornado.

Do outro lado, temos a figura do profeta. O profeta não aparece simplesmente de uma ordenação formal, mas de um chamado especial de Deus para levar sua palavra. Alguns profetas, como Jeremias e Ezequiel, saem de dentro do seio sacerdotal. Ezequiel era sacerdote antes de receber a palavra do Senhor a ele dirigida e Jeremias era filho de sacerdote. O profeta não somente recebia e propagava a palavra de Deus, mas ele, em várias ocasiões, era quase que obrigado a experimentar as realidades da palavra em sua própria vida. O profeta não pode simplesmente saber os oráculos do Senhor, mas precisa sentir em seu âmago o que o próprio Senhor está sentindo. É por isso que Oséias vive uma parábola com Gômer e Ezequiel come o rolo das palavras do Senhor. Eles precisavam sentir a dor que o próprio Deus estava sentindo para serem capazes de comunicar suas palavras. O profeta não negocia com ninguém a não ser Deus. Ele não se associa com o poder constituído e não mede palavras para agradar ou desagradar, ele simplesmente fala o que Deus mandou falar, ou melhor, o que ele sentiu do sentimento de Deus. Por isso as mensagens dos profetas são tão eloquentes, pulsantes, tão apaixonadas. Os profetas falam de dentro do coração de Deus.

E por que sacerdotes e profetas brigam?

Tudo acontece porque os sacerdotes começaram a valorizar o que não é tão importante e a deixar coisas mais importantes de lado. Os sacerdotes começaram a criar leis e mais leis em cima das leis dadas por Moisés, bem como a acrescentar diversos rituais. Eles vendiam para o povo uma espiritualidade externalizada, baseada no cumprimento de regras e rituais. Não raro, quando um rei se associava a alguma outra divindade, o sacerdote passava a oferecer sacrifícios a essas divindades. Se o rei era injusto, os sacerdotes não ousavam levantar sua voz contra o rei. O sacerdote também não tinha coragem de levantar a voz contra os poderosos de sua época, os ricos, os grandes latifundiários, os que oprimiam o pobre, o órfão e a viúva. Enfim, o sacerdote estava preocupado em manter sua posição, seu salário, e para isso precisava manter o povo no templo, oferecendo sacrifícios e ofertando, independentemente de qualquer coisa. O sacerdote é o cara que diz: “Seja um religioso. Cumpra a lei indo ao templo. A bênção de Deus depende de sacrifícios e rituais religiosos. Fora do templo não há bênção”.

Diante desse cenário, Deus precisa dos seus servos, os profetas, para levantarem sua voz justamente contra o poder constituído, os ricos e poderosos, os opressores e injustos, os que não defendiam a causa do pobre, do órfão e dá viúva, bem como contra os sacerdotes que, além de não denunciarem a injustiça e opressão, se coadunavam com quem as praticava. Os profetas se movem de dentro do coração divino e vão em direção ao coração do povo. Ao contrário dos sacerdotes, eles dizem que “Deus está cansado dos sacrifícios (cultos), dos holocaustos, das festas sagradas”. Eles afirmam que “Deus quer misericórdia e não sacrifício”. Eles trazem ao povo o conhecimento de Deus, dizendo que é pela falta do “conhecimento de Deus que o povo é destruído”, não simplesmente por descumprir ou cumprir rituais religiosos. Os profetas começam a anunciar a “aposentadoria” sacerdotal quando dizem que “Deus vai escrever a sua lei no coração do povo”, ou seja, não será mais necessário sacerdotes para dizer ao povo o que o povo tem ou não que fazer para Deus. E mais, foi com os profetas que Deus começou a mostrar que “Ele não habitava em templos feitos por mãos humanas”. Isso na época era como dinamite no sistema religioso. Se Deus não habita no tempo, não necessariamente o povo teria que ir ao templo para prestar seus sacrifícios, ofertas e adoração. Todas essas coisas poderiam ser feitas de modo descentralizado.

Nessa guerra, aparentemente, os profetas saem perdedores. Os profetas além de terem que experimentar situações complexas para proclamarem a palavra de Deus, como os casos citados acima, eram tidos como loucos pelo povo e , frequentemente, os poderosos mandavam calar suas vozes. Os profetas foram jogados em calabouços, açoitados, serrados ao meio, alguns não puderam constituir famílias; uns, como Jeremias, se lançavam a depressão e melancolia, lamentando a desgraça que se abatia sobre o povo, a injustiça e a opressão. Os profetas não entendiam como Deus os fazia ver e sentir, os impelindo a levantar a voz contra tudo e todos, mas ao mesmo tempo Deus não fazia nada contra os opressores ou contra sacerdotes corruptos do seu tempo, que alimentavam a opressão com artifícios religiosos. Jeremias, por exemplo, chega a dizer que se sentiu enganado: “Enganaste-me e enganado fiquei”. Em outro momento ele diz que não pregará mais, porém ele não aguenta a força da palavra que se move nele e clama: “A palavra de Deus me é no coração como fogo ardente, encerrado em meus ossos, estou fatigado de conter e não posso mais”. Alguns profetas, como Habacuque e Isaías, clamavam por tempos como os de Elias e Eliseu, quando, além de enviar sua palavra, Deus dava sinais miraculosos para que cressem em suas palavras. Isaías clama em angústia: “verdadeiramente tu és Deus que te ocultas” e Habacuque começa sua profecia com um grito de dor: “Até quando, SENHOR, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei: Violência! E não salvarás?”. Pela palavra do senhor, boa parte dos profetas foi tragicamente morta, quase que martirizada. Quantos sacerdotes morreram pela palavra?

Os profetas talvez tenham se sentido como grandes perdedores, pregadores cujas palavras foram levadas pelo vento, no entanto, Jesus de Nazaré parece ter abraçado a linha profética. Ele pregou contra a injustiça e opressão, levantando sua voz em favor dos fracos e pobres. Quando ele entrava em algum embate sempre era contra algum doutor da lei, escriba, fariseu ou sacerdote. Sempre se referiam a ele como mestre ou profeta, mas nunca como sacerdote. Ele agia como um profeta, pregando por todos os lugares e entrava pouco no templo, somente o fazendo para denunciar a podridão do sistema. Não foi por acaso que Jesus foi julgado por sacerdotes, pois as palavras de Jesus ameaçavam os empregos dessa classe. Como um bom profeta, Jesus foi morto por pregar o que os poderosos e sacerdotes não gostaram de ouvir, mas transcendeu a essa condição, vindo a ressuscitar, assumindo o lugar central do universo.

Jesus desemprega os sacerdotes de uma vez por todas e quem entende isso muito bem é o autor da carta aos Hebreus, dizendo que Jesus agora é o sumo sacerdote, o único intermediador entre homens e Deus. Além disso, diz que o véu do templo se rasgou abrindo o caminho direito entre o homem e Deus. Pedro completa a ideia dizendo que cada cristão é sacerdote real. Ou seja, se cada um de nós é um sacerdote e Jesus o sumo sacerdote, para que alguém se fazendo de sacerdote hoje?

Hoje, vemos que muitos seminários entenderam isso. Eles gostam de se chamar “casa de profetas”, ou seja, lugar de se preparar pessoas para serem proclamadores da Palavra de Deus, sentindo a dor de Deus, falando de dentro do coração de Deus para o coração ferido do povo. No entanto, a pompa sacerdotal parece ser demasiadamente sedutora, levando jovens vocacionados a abandonar a palavra profética para abusar das características de um sacerdote. À frente das igrejas vemos pessoas vendidas à glória do ministério e aos altos postos denominacionais. Vemos pregações vendidas ao templo, não raro vemos pessoas declarando que templos locais são a casa de Deus. O discurso do culto, dízimo, e demais atividades da igreja como fontes de bênção é uma postura extremamente sacerdotal. Hoje existe até roupa própria para pastor, denunciando a atração, quase fatal, pelo estilo de vida elegante de um sacerdote. Em alguns meios mais radicais, os discípulos só agem depois que consultam o direcionamento do pastor, bispo, apóstolo ou patriarca, pois estes assumiram por completo a função de intermediários entre homens e Deus. A sua mensagem não liberta, mas escraviza. Usam o conhecimento dos textos sagrados para manter o povo o máximo possível vivendo em função do templo, afinal, o salário deles é diretamente proporcional a isso. Além disso não há preço nenhum a ser pago sendo sacerdote, só a glória e os benefícios, mas há um preço altíssimo a ser pago sendo um profeta de Deus (haja vistas os profetas do Velho Testamento e o próprio Jesus).

Hoje, não precisamos de sacerdotes, colocando na nossa cabeça que culto é como os sacrifícios do Velho Testamento, todavia, precisamos de profetas que não tenham medo de proclamar a mensagem de Deus, porque sentem a dor de Deus diante de toda a injustiça, miséria e corrupção que pairam por esse mundo. Mas, de alguma maneira, o povo cristão, por talvez ter se elitizado e galgado classes sociais mais elevadas, não costuma ter muita simpatia por profetas, já que estes sempre lembram o cuidar do pobre, dos necessitados, dos excluídos, dos marginalizados deste tempo, nos fazendo sair do conforto e tranquilidade de quem está “salvo, sentado e satisfeito” nos bancos de uma igreja, cantando louvores, dando ofertas e ouvindo pregações alienadoras que nos fecham em nós mesmos, no nosso pequeno mundinho gospel. O profeta não declara a completa inutilidade do templo e da vida religiosa, mas dá a eles o lugar certo, como utilitários e não como atores centrais de uma vida com Deus. Viver em comunidade faz todo sentido para o cristão e é algo importante, desde que a igreja não seja um elemento alienador e isolacionista.

Uma vez eu disse em uma igreja que crente gosta de pastor que manda e escraviza, mas não de pastor que liberta. Hoje, eu diria da seguinte maneira: “Igreja gosta de sacerdote e não de profeta”. E você, acha que seu pastor age como um sacerdote, querendo controlar sua vida religiosa e seu relacionamento com Deus ou ele age como um profeta, pregando e libertando pela palavra, pagando o preço, levando a igreja a lutar por um mundo melhor, pregando o cuidado aos injustiçados e oprimidos, construindo a paz em mundo de guerras?