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O PARADOXO DAS EXPERIÊNCIAS RELIGIOSAS

Há poucos dias, eu conversava com um amigo que, aparentemente, não tem nenhuma religião. Ele favava de uma visita feita a um templo budista, levado pelo seu irmão mais velho. Em um momento, chegou a um lugar no qual as pessoas dedicavam algum tempo para fazer seus pedidos. Foi então que ele percebeu que havia tanta coisa boa acontecendo em sua vida e, assim, passou aqueles momentos agradecendo. Ele falava de ter tido uma experiência magnífica. Sentido uma energia positiva. Por fim, disse ter experimentado uma sensação que gostaria de repetir várias vezes.

Quando ouvi a palavra “repetir”, imediatamente, eu disse: “Cuidado, pois esse é o mal das religiões. As pessoas tem uma experiência isolada e querem repetir outra vez. Acontece que experiências não se repetem. São únicas. Quanto mais alguém tenta repetir uma experiência, uma sensação, mais se embola em rituais infinitos e, no fim, se sente exaurida e frustrada. Você só experienciou as sensações descritas porque não estava procurando experiências. Estava livre para o que viesse. A partir do momento em que você procurar repetir uma experiência específica, estará se fechando para novas experiências.”

É claro que meu amigo ficou assustado e terminamos a conversa ali mesmo. No entanto, o que falei ao meu amigo serve também para qualquer religião, inclusive para o cristianismo. Ou melhor, principalmente para o cristianismo. Bato na tecla: o problema não é a experiência. Quanto a isso não tenho o que dizer. O problema é tentar repetir a experiência. É tentar sentir de novo o que se sentiu em um momento específico. Por que isso é um problema?

Simples, ao tentar se repetir uma experiência religiosa é comum tentar recriar o ambiente em que o fato ocorreu primeiramente. É comum tentar voltar ao mesmo lugar, ouvir as mesmas músicas, as mesmas palavras, ler o mesmo livro. Na segunda vez, a pessoa ainda sente algo, talvez um eco do que ocorreu antes, mas logo percebe que a intensidade não fora a mesma. Instintivamente, tenta-se entender o que deu errado e um novo ciclo litúrgico se inicia. Tenta-se aumentar a intensidade, adiciona-se itens ao ritual. E no fim, se a pessoa for honesta consigo mesmo, na busca por experiências, o máximo que encontrou foi o vazio. Domingo após domingo, culto após culto, louvorzão após louvorzão, livro após livro, madrugas em montes. Nada disso parece satisfazer. Nada disso parece fazer a pessoas sentir o que ela quer sentir. Ela quer mais. Busca mais. Mas, honestamente, ela só tem o vazio. Só tem rito. Só tem liturgia. Só tem religião. Pouco de Deus. Quase nada de sagrado. A experiência com o divino se torna apenas uma lembrança do passado longínquo.

O pior é que quem está em busca de experiência se torna presa fácil para modas que aparecem. Seja uma nova campanha que promete fazer você chegar mais perto de Deus. Seja ir a um monte orar. Seja um pastor famoso que aparece na mídia e todos dizem que tem uma palavra poderosa. Seja um final de semana que promete ser um encontro tremendo com Deus. Seja entrando num ritmo doentio de atividades religiosas. Seja seguindo manuais de espiritualidade que negam a vida e promovem o sectarismo. Seja doando dinheiro para pregadores inescrupulosos. Seja indo a igreja quase todo dia…

Por fim, buscar experiência nos leva a simplesmente mergulhar no mundo dos ritos religiosos. Dessa forma, negamos a vida, a existência, as coisas boas e belas que estão a nossa volta. Perdemos a chance de experienciar Deus no cotidiano, nos encontros com amigos, na risada livre e solta, no amor dedicado a quem amamos, no pão conquistado com o suor dos nossos rostos. Para mim, desculpem a franqueza, buscar experiências religiosas nos faz perder a chance de experimentar, de fato, a presença do Divino, do Totalmente Outro, do Luminoso, de Deus, em cada segundo das nossas vidas.

O Paradoxo da Fé

Eparadoxoxistem alguns paradoxos na bíblia. Creio que não pelo texto em si, mas pela nossa dificuldade natural de interpretação.  Por exemplo, pensemos na fé. O que é fé? Como definir? Como entender? Inicialmente, os conceitos parecem totalmente subjetivos, internos. O próprio autor da carta aos hebreus diz simplesmente que a “fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos.” Em outras palavras, a fé seria aquilo que você tem e não sabe definir exatamente, mas que prova algumas coisas que você acredita que são verdadeiras.

– Deus existe?

– Existe, claro!

– Como você prova?

– Não posso provar, apenas sei que existe!

–  Mas como você sabe?

–  Pela fé, óbvio!

– Mas o que é fé?

– “É a prova das coisas que não vemos.”

inceptionNo entanto, os textos sagrados não nos incentivam a ficar em paradoxos. No caso da fé, por exemplo, Tiago nos convida a tirar a fé da subjetividade e colocá-la no campo da prática. Ele diz que de nada adianta ter fé, mas não ter obras. Para Tiago, não faz sentido pensar na fé no campo da opinião pessoal, como uma força ou qualquer outra coisa que possa mover o mundo espiritual em nosso favor. Ao contrário, a fé, para ele, só faz sentido quando o mundo espiritual nos move em nosso próprio mundo para mudar a realidade das pessoas que aqui sofrem.

Tiago nem mesmo está preocupado com a fé como caminho para salvação. Ele argumenta: “Porventura a fé poderá salvá-lo?” Ele diz que fé como sinônimo de acreditar e crer em Deus não é suficiente, já que os próprios demônios crêem e estremecem. Diferentemente de nós, homens, os demônios nem sequer duvidam da existência de Deus.  Realmente, para Tiago, crer não é suficiente.

Tiago avança bastante na discussão sobre o tema porque ele deixa de considerar a fé como um elemento capaz de provar o que não se pode provar e passa a considerar o que fazemos como um elemento que prova se temos ou não fé. Não é que Tiago esteja contradizendo o apóstolo Paulo quando este diz que “somos justificados pela fé”, mas é que para Tiago se não temos obras nem mesmo temos a fé que pensamos ter. Se não praticamos, não temos fé. Só dizer que acredita não vale, não é suficiente.

Por que Tiago pensa assim? Porque para ele a fé é algo tão forte que necessariamente tem que mover aqueles que a tem para fazer o bem ao próximo. Se achamos ter fé, mas não somos movidos a fazer o bem ao próximo, temos tudo menos fé. Temos crendices, conceitos religiosos, posições doutrinárias, costumes litúrgicos, hábitos piedosos, mas nunca a fé.

É interessante ver que com o passar do tempo disfarçamos essa questão das obras e reduzimos tudo a simplesmente crer. Durante muito tempo, quando se falou em obras, o tema ficou reduzido a obras de religião. Por exemplo, um bom crente, que tem fé, é aquele que vai a todos os cultos, canta, participa de todas as programações da igreja, não falta uma aula da EBD, está em todas as vigílias, correntes, etc.

Tiago, todavia, não fala em termos de religiosidade, pois para ele “a religião que Deus, o nosso Pai aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo.” Tiago, mais uma vez inverte os conceitos tradicionais. Religião para ele não é uma forma de convencer Deus a fazer o que queremos que Ele faça, mas é deixar o próprio Deus nos usar para cuidarmos dos pequeninos deste mundo. Religião, para ele, não é doutrina, nem liturgia e muito menos moralidade julgadora, mas ação objetiva capaz de mudar a vida das pessoas deste mundo, aqui e agora.

Talvez por isso, Jesus tenha dado a entender, em algumas ocasiões, que teremos algumas surpresas no céu. Em Mateus 7, Ele diz que “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.” Repararam? “Dizer: Senhor, Senhor!” tem a ver com confessar, crer, e isso fica em marcante contraponto com a ação: “fazer a vontade do pai”. Por isso Ele diz: “nem todo aquele”, pois há os que dizem “Senhor, Senhor!” e conjuntamente fazem a vontade do Pai. Melhor ainda, é fazendo a vontade do Pai que dizemos com as nossas vidas: “Senhor, Senhor”.

Em outra ocasião, ainda mais inusitada, Jesus fala que no dia do juízo dará as boas-vindas aos que estiverem a sua direta, pois estes lhe deram água, comida, roupa e abrigo quando Ele passou por dificuldades. No entanto, estes que estão sendo recebidos no Reino dirão surpresos: “‘Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar?” Então, para sacramentar, Jesus diz a eles: “Digo-lhes a verdade: o que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram.”

As duas cenas parecem ter o mesmo propósito: mostrar que o caminho para Deus não é o caminho da religião de crença vazia no sobrenatural, mas se aproxima de uma fé que gera ações práticas capazes de mudar nossa própria realidade. Quem confia simplesmente nas confissões religiosas corre grande risco de se surpreender no Reino de Deus.

No final das contas, continuo sem saber definir o que é fé, mas passo a entendê-la melhor. Meus parâmetros para “medir” se tenho muita ou pouca fé mudaram radicalmente. Não tenho muita fé se creio com todas as minhas forças que Deus vai fazer o que desejo que Ele faça, mas sim, se O deixo atuar em minha vida para que eu faça aquilo que Ele quer que eu faça. Não tenho muita fé se cumpro todas as minhas obrigações religiosas, mas sim, se demonstro um amor real e objetivo para as pessoas que estão diante de mim. Não posso definir a fé, mas posso fazer o bem. A fé pela fé só prova coisas para mim. A ação que vem da minha fé, prova aos outros que tenho fé.

Por um novo caminho

mulçumanoNão faz muito tempo, talvez uns três ou quatro anos, eu defendia a ideia de que o cristianismo deveria ser mais unido. Eu lembro que ouvia piadas do tipo: “Tranque um gato, um cachorro e um passarinho em uma gaiola que eles vão aprender a conviver, mas tranque um batista, um presbiteriano e um pentecostal em um quarto que em pouco tempo eles vão se matar”. Eu lembro também de ter presenciado uma palestra com um mulçumano enquanto eu era do seminário. Na época, perguntamos para ele quais eram as razões pelas quais o islamismo crescia tanto pelo mundo. As palavras dele ainda ecoam em minha mente: “Não temos praticamente nem divisões nem dogmas, o islamismo se divide em no máximo dois grandes grupos”.

maos-unidas1Para mim, na época, estava claro que o cristianismo perdia forças, penetração e relevância no mundo graças, em boa medida, pelas múltiplas divisões que existem dentro dele. Divisões essas derivadas de múltiplas compreensões e interpretações das escrituras sagradas. De fato, não sou contra a diversidade, mas quando você divide demais algo que era para ser unitário, a ponto de causar grandes contradições internas, as coisas começam a desandar. Imagine alguém que não nasceu em um lar cristão e que resolve, por hipótese, procurar uma religião. Suponhamos que ele entre em um domingo numa igreja batista, no outro em uma presbiteriana, no outro em uma neo-pentecostal e, em outro, em uma que nem podemos classificar. O que ele pensará do cristianismo?

Quando_se_vive_dividido,_sofre-se_sempre!Depois de um tempo, eu passei a perder a fé numa possível união entre os multifacetados seguimentos cristãos. Ao olhar alguns casos esdrúxulos, principalmente oriundos do evangelho midiático, comecei a questionar se, de fato, eu fazia parte do mesmo grupo. Eu comecei a ficar chateado porque, por onde eu passava, as pessoas pensavam que eu era como aquelas pessoas da mídia. Se pregando, como um pastor que só pensa em dinheiro. Se ouvindo, como alguém facilmente engado por promessas vazias. Não! Eu nunca gostei de ser tratado como eles, confesso!

Por isso, comecei a dizer que eu não era evangélico, apenas cristão, pois esses grupos se afirmam como evangélicos e eu não queria ser contado no mesmo saco que eles. Comecei, também, a tecer duras críticas e, literalmente, me coloquei em posição de combate contra eles. Para mim, era claro que eles se tratavam de lobos desfaçados de ovelhas, joio no meio do trigo.

dualidadeEu confesso que encarei uma dualidade muito forte quando me deparei com versos que diziam para “não julgar” e com outros que diziam para “tomar cuidado com falsos profetas”. Ora, como vou saber quem é um falso profeta a menos que eu tenha suas características e exerça um certo julgamento para discernir? Não é uma questão fácil. Alguns mentores meus apontam que há uma diferença entre julgar e discernir. Eu concordo, mas admito que há uma linha muito tênue entre um e outro. Como saber o que está no coração de alguém? Como saber suas intenções?

frutoUm saída, seria olhar os frutos, pois “pelos seus frutos os conhecereis”. No entanto, há frutos que não são facilmente perceptíveis. Paulo chega a dizer aos coríntios que ele plantou e Apolo regou, mas quem viu os frutos? Que tipo de fruto tinha em Coríntio já que Paulo mesmo diz que não pode falar a eles como a espirituais, mas como carnais? Às vezes leio biografias de missionários que passaram anos no campo, mas os resultados mensuráveis humanamente são quase nulos. Seriam esses missionários infrutíferos? Em um caso ou outro vejo frutos incontestáveis na vida de irmãos, pastores, igrejas, ministérios. Mas os vejo de acordo com minha percepção humana. Como será que Deus os contabiliza?

Por conta disso tudo e mais algumas coisas, eu vou tentar voltar há três ou quatros anos e retomar meus pensamentos sobre o assunto a partir do prisma da unidade, não da unidade burra e cega, mas da unidade que entende a diversidade, com seus pontos positivos e negativos. Algumas outras razões me levam a isso.

juizAlém do fato de eu me sentir incapaz de julgar, pretendo deixar o discernimento nas mãos de Deus e nas mãos da consciência de cada um. Eu mesmo jamais me submeterei a algumas coisas, dentre elas o evangelho da prosperidade, mas pretendo apenas ensinar o caminho que acredito sem ficar tacando pedras. Isso porque, tenho que reconhecer, que igrejas neo-pentecostais chegaram em lugares e pessoas que gente como eu jamais chegaria. No meu íntimo, eu gostaria que ninguém recebesse o evangelho por um viés que não o da Graça do Crucificado, mas às vezes conto que a graça será maior que os conceitos e as formas, pois de uma forma ou de outra, como diz Paulo, o que importa é que Cristo está sendo anunciado. Eu confesso que não é fácil para mim escrever isso.

imagesEu mesmo tinha e tenho uma crise com as fortes políticas denominacionais existentes em minha própria denominação. Por conta disso resolvi nunca chegar perto dessas questões. No entanto, sempre falei mal, o que não julgo correto da minha parte. Tenho o direito de não concordar com as politicagens e de me manter longe dela, da mesma maneira que não gosto de levantar bandeiras denominacionais. Mesmo assim, meu coração de pedra se quebranta, quando eu vejo que, apesar das politicagens, eles mantém um programa chamado “Cristolândia” cujo objetivo é cuidar e recuperar viciados em Crack. Hoje, até mesmo os governos reconhecem os benefícios sociais da “Cristolândia”.

De minha parte, já que estamos falando de julgamento, se eu julgasse a mim mesmo eu me condenaria. Quais são os meus frutos? O quanto de Jesus tenho demonstrado a quem está próximo a mim? Não! Não sou melhor que ninguém! Aliás, não faz o menor sentido comparar condenados com condenados, estão todos sentenciados.

images (1)A experiência com o fesembengalas.com e com a página do facebook me fez provar boas doses de julgamento. Recebi vários e-mails enfurecidos me chamando de herege, dizendo que eu havia abandonado a sã doutrina e infinitas outras coisas. Enquanto me chamavam de herege e diziam que eu não seguia a doutrina, eu não me importava, pois quem lê o que escrevo sabe que acho essas questões ligadas demais ao controle político institucional das igrejas. Todavia, começaram a duvidar se sou ou não cristão. Isso me fez pensar. Eu senti um pouco, justamente porque eu havia parado de me nominar evangélico para me dizer simplesmente cristão. Mas, em fazendo isso, era como se eu considerasse, talvez meio sem querer querendo, os evangélicos de mídia como não cristãos. É como seu eu tivesse provado uma dose do meu próprio veneno.

images (2)Continuo não me preocupando com coisas pequenas como, por exemplo, quando me chamam de liberal. Se quem me chama de liberal parasse para estudar a teologia do século XIX para saber de fato o que é um teólogo liberal, passaria a me chamar de fundamentalista. Não me importo com julgamentos infundados. Mas, eu sei que fiquei profundamente sentido quando duvidaram do fato de eu ser cristão.

images (3)Tudo o que eu sei é que Cristo tem me salvado de mim mesmo a cada dia, pois já me salvou da morte da eterna. Sei que vivo no mar das tensões humanas, no mar das contradições e de querer fazer um bem e acabar fazendo um mal que não quero. Sei que vivo na tensão entre o que sou e o que eu deveria ser, mas ainda não sou. Mas sei que já não sou o que era e estou longe de ser o que haverei de ser. Em minha caminhada, me vejo como um Jacó lutando com Deus pelo controle da minha própria vida. Tem horas que parece que me entrego e tem outras que eu penso que retomei controle. Há momentos que parece que caminhei bastante em direção ao alvo e, em outros, parece que em voltei lá no início da caminhada. Já tentei me livrar de Deus, mas não consegui. Já tentei abandonar o evangelho do Crucificado, mas não dá. Tem horas que vejo o que preciso mudar, o quanto que preciso ser transformado e me desanimo. Tem coisas que eu sei que deveria fazer e não faço, mas olhando para trás vejo coisas que jamais imaginaria que faria e fiz (em Cristo). Vejo mudanças em mim que jamais pensei que aconteceriam, mas quando eu menos esperei, aconteceram (em Cristo). Estou bem longe de dizer como Paulo: “Vivo não mais eu, mas Cristo vive em mim” e “Sejam meus imitadores como eu sou de Cristo”. Estou longe, reconheço, bem longe disso. E não sei se um dia conseguirei dizer.

oracao-51Ainda lembro de quando eu era um adolescente e chorando, sozinho em casa, orava intensamente, de joelhos, pedindo a Deus que mudasse o que havia de ruim em mim. Eu lembro que dizia que não estava pedindo dinheiro ou cura de doenças, mas queria ser mudado. Às vezes acho que Deus não ouviu; em outras, acho que ele está aguardando a hora de agir; mas, tenho gostado de pensar que Ele está, de uma forma ou de outra, agindo. Pois é na vida, nos contados, no sofrimento, nas escolhas, que Ele molda e transforma nosso caráter, nosso ser.

uniaoPor isso, quero tentar não julgar ninguém, mesmo que eu jamais venha a seguir seus ensinamentos. Quero acreditar que, começando com as minhas imperfeições e de mãos dadas com diversos cristãos imperfeitos, poderemos sinalizar melhor o Reino de Deus. Seja um fundamentalista, um liberal, um progressista, um batista, um calvinista, um pentecostal, um neo-pentecostal, um católico, qualquer um que se reconheça como cristão a despeito dos que julgam se achando mais cristãos – como eu me achava. Quero acreditar que poderemos ser um só corpo que se une através dos dogmas fundamentais do amor e do serviço, deixando de lado os infinitos debates que duram séculos e causaram mais divisões do que união.

fe sem bengalasContinuarei manifestando minhas percepções limitadas e imperfeitas em busca de uma Fé Sem Bengalas. Peço que não julgue sem antes conversar comigo e pedir maiores explicações. Manifestarei minhas opiniões sobre temas sem julgar a opinião do outro. Em muitos momentos serão contrárias a algumas opiniões ou conceitos, mas, se você não concordar, sinta-se livre para comentar e para falar comigo. Do diálogo advém efeitos colaterais positivos para todos nós. Eu, particularmente, tenho aprendido muito dialogando. Existem percepções polêmicas, mas que não são o centro, todavia com cuidado e respeito podemos debater e construir sem nos destruir e dividir mais do que já estamos todos. Vamos tentar um novo caminho: em vez de batermos uns nos outros vamos deixar o julgamento nas mãos de Deus, assumir nossas limitações, e nos unir para tentarmos ser, de fato, um só corpo.

Em Busca de Respostas

Hoje, completo 30 anos, mas ainda me sinto como uma criança curiosa, cheia de perguntas diante do mistério do novo. Lembro-me, com certa riqueza de detalhes, do dia em que olhei para minha mãe e indaguei: “Mãe, quem criou o mundo?”; minha mãe, como toda boa mãe, tinha todas as respostas, e disse: “Foi Deus, meu filho, o papai do céu”. Não satisfeito com a resposta, eu rapidamente perguntei: “Mas quem criou Deus?”. Minha mãe se assustou um pouco, meio surpresa, e me forneceu uma resposta da qual não me lembro. Os anos foram passando e passei a colecionar questões e mais questões. Perguntas sem respostas ou com respostas parciais. Perguntas cujas respostas não passavam de outras perguntas. E hoje, confesso ter infinitamente mais perguntas do que respostas.

Nesta estrada, uma das coisas que mais me chocava era quando eu me dirigia a alguém com uma questão, que para mim era muito importante, e, em troca, eu ganhava respostas prontas, rápidas e triviais. Eu creio que a maioria de nós passa por isso, principalmente no que tange a vida espiritual. Procuramos alguém aparentemente mais maduro na fé ou mais conhecedor dos textos sagrados e colocamos as questões da nossa alma e somos presenteados com respostas prontas de manuais de teologia ou com alguma espécie de filosofia popular espiritual. O pior exemplo que posso mostrar se liga aos nossos momentos de dor e sofrimento. Diante de situações complexas da vida, procuramos respostas e alento através de pessoas que caminham há mais tempo na fé e, na maioria das vezes, recebemos respostas simplistas: “Deus sabe de todas as coisas. Quem sabe isso não foi para o seu bem? Talvez haja algum pecado escondido na sua vida e Deus está chamando a sua atenção (ou castigando)”. Alguns bêbados de boteco conseguem respostas melhores para as questões da vida do que muito cristão cheio de respostas prontas.

Eu falo desse jeito, mas eu sempre fui mestre em dar respostas prontas. Eu decoro facilmente as coisas e, por isso, mesmo antes de entrar na faculdade de teologia, eu tinha os pontos principais dos manuais de teologia na “ponta da língua”. Era só fazer uma pergunta qualquer que, rapidamente, eu acessava o manual e procurava a resposta mais “adequada” e respondia na hora. Raramente eu dizia que não sabia. Foi um amigo, com quem sempre conversei sobre espiritualidade, que me alertou meio sem querer. Uma vez, quando respondi rapidamente uma pergunta dele dirigida a mim, ele disse: “Por que você sempre tem uma resposta pronta? Assim você faz parecer que as questões são simples, quando não são”. Eu fiquei sem chão, sem resposta, e passei a deixar as respostas prontas de manuais e doutrinas na lixeira da minha mente.

Isso tudo mudou minha forma de pensar a vida e a espiritualidade. Eu descobri que a vida se faz diferente a cada dia e as questões, mesmo que formuladas com os mesmos fonemas, possuem cargas de sentido e questionamento diversos. Mesmo a pergunta sendo a mesma, o que se quer perguntar varia de pessoa para pessoa e, consequentemente, as respostas devem variar. Não há manual de teologia que de conta das complexidades da vida. Não há respostas prontas. A grande desgraça das igrejas e da teologia é juntar uma coleção de respostas genéricas, como curingas de baralho, e usá-las para responder as mais diversas e complexas questões feitas pelas mais variadas pessoas. O caminho talvez seja o inverso: a partir da dor, da crise e das questões, começarmos a abrir caminhos para, quem sabe, no problema específico de cada um, fazer uma teologia que ofereça esperança ao invés de culpa.

Hoje, fujo da tentação de responder simplesmente com um verso decorado. Muitos acham que este é o caminho: decoram versos da bíblia para serem usados nas mais diversas situações e, quando a questão chega, saem distribuindo versículos. Esquecem que os textos só foram produzidos para responder questões específicas pelas quais as comunidades cristãs primitivas passavam e por isso foram preservados. Os textos nos ajudam a interpretar nossa vida, nossa dor, mas infelizmente não são respostas prontas para cada situação pela qual passamos. Acho que fazem parte da resposta, mas não são a resposta.

É por isso que escrevo. Para abrir caminho. Escrevo para construir respostas para minha própria dor. Escrevo tendo em vista minhas próprias perguntas. Às vezes, identifico-me com as questões de alguém e busco as respostas. Em outros momentos, abro caminho para tentar ajudar um amigo, um irmão na fé, a encontrar suas próprias respostas. Termino como comecei: ainda sou o mesmo menino curioso, fazendo perguntas sem parar, tentando entender o novo que se abre diante de mim a cada dia, com infinitamente mais perguntas que respostas. Todavia, a grande diferença é que não mais me satisfaço com respostas prontas e triviais. Prefiro uma boa pergunta sem resposta a uma resposta genérica trivial que não tem nada a ver com minha dor.

Cuidado olhinho o que vê

Eu ouvi dizer uma vez que uma música para ser realmente pop precisa ter um coro que fica na cabeça, tal como uma cantiga infantil. Concordo com essa ideia principalmente porque essa semana uma música da minha infância ficou martelando minha mente, voltando a mim de tempos em tempos. A música dizia: “Cuidado olhinho o que vê. Cuidado olhinho o que vê. O salvador do céu está olhando pra você. Cuidado olhinho o que vê”. Por um instante, meu lado religioso tratou de fazer um check-up na minha vida. Será que cometi um pecado daqueles grandes e minha consciência está me acusando?

Passando o momento religioso, comecei a me lembrar de como essa música chegava a mim quando eu era criança. Toda vez que eu a cantava um sentimento de pavor tomava conta de mim. Era como se Deus estivesse escondido atrás de cada esquina, de cada muro, me vigiando para ver se eu cairia em alguma falha e, então, me castigar. Quando me falavam do evangelho, me falavam tanto de um Deus sedento por justiça que, num primeiro momento, cheguei perto de Deus mais por medo do Diabo (ou medo do próprio Deus) do que por amor a Deus. Quando me falavam de Jesus, sempre tinha aquele tom de ameaça: “Aceite Jesus porque senão você irá pro inferno. Você quer passar a eternidade toda no inferno?”. Eu, uma criança, com medo e apavorado, imaginando um capeta medieval, aceitei o convite persuasivo da religião; mas, durante muito tempo, Deus era para mim o cara que estava sempre de tocaia, esperando um vacilo meu, para então me castigar.

A coisa piorou quando eu fui batizado. Minha família, se aproveitando do rito de passagem e da mística que isso envolvia no imaginário coletivo e religioso do pequeno bairro onde morávamos, começou a dizer: “Agora você é um menino crente batizado, precisa obedecer aos seus pais e aos seus professores, porque você fez um compromisso com Deus”. Eu recebia essas palavras com profundo pavor, como se agora qualquer vacilo meu fosse passível de ser punido com um castigo dobrado. Eu continuava minha aproximação de Deus mais por medo do que por, digamos, amor.

Foram necessários anos até que eu me livrasse do medo de Deus e pudesse me aproximar dEle por amor e não por medo do inferno ou de algum castigo. Esse medo, inclusive, gerava em mim uma culpa sempre crescente. Eu sempre associava as derrotas da vida com algum castigo divino. Era como se a cada erro meu Deus viesse fazer justiça, acertando as contas comigo. Uma prova que eu não passasse, uma decepção amorosa, um problema em uma amizade, um planejamento que deu errado, enfim, qualquer coisa que desse errado eu via como se fosse a mão de Deus pesando sobre minha cabeça. E sempre tinha algum enviado – não sei de onde – para dizer: “Deus é amor, mas também é justiça. Cuidado!”. A culpa só crescia.

Depois de um tempo, percebi que se Deus fosse punir cada erro meu eu já estaria morto. Eu percebi que Deus não estava me caçando para me punir, mas estava me perseguindo com amor. Eu descobri que Deus de fato é justiça, mas não um justiceiro que transformou o mundo em um “Big Brother” gigante para me vigiar e me punir. Deus fez justiça na cruz, em Cristo. Porque na cruz foi Deus matando o próprio Deus para não ter que me matar. É por isso que vou a Ele hoje. João traduziu bem a ideia quando disse: “nós o amamos porque ele nos amou primeiro”. Persigo uma coisa: é pelo amor e graça e não pela força ou medo. Jesus me mostrou que Deus prefere matar a si mesmo a matar um dos que criou. Sinto Deus me vigiando, mas não para invadir minha privacidade ou me punir, mas para cuidar de mim e estender a mão quando eu cair.

Talvez alguém diga que esse tipo de discurso leve pessoas a viverem de qualquer jeito, mas eu digo que quanto mais nos sentimos tocados pelo amor de Deus e nos jogamos nEle mais perto de Deus chegamos. E quanto mais perto de Deus vivemos mais distantes do mal ficamos. O segrego não é viver com medo de Deus ou do Diabo, mas simplesmente se aproximar de Deus, porque Ele é amor e já satisfez sua justiça na cruz. Jogue-se, sem medo nenhum, do jeito que você é, com todas as suas imperfeições, nos braços do Pai. Ele aceita com amor e satisfação a todos que clamam: “Deus! Tem misericórdia de mim!”

Ligando os Pontos da Vida

Por ocasião da morte de Steve Jobs, assisti a um vídeo no qual ele falava em uma formatura na Universidade de Stanford. Fiquei impressionado com a visão de vida dele, mais especificamente na primeira parte, onde ele fala sobre “ligar os pontos”. Ele narra algumas coisas que lhe aconteceram no passado que aparentemente estavam fora dos planos, mas que, no final das contas, foram essenciais para o sucesso dele. Ele dizia assim: “Você não pode conectar os pontos olhando adiante, você só pode conectá-los olhando para trás. Então você tem que confiar que de algum jeito os pontos vão se conectar em seu futuro. Você tem que confiar em alguma coisa: seu Deus, destino, vida, karma, seja o que for. Porque acreditar que os pontos vão se conectar em algum momento, vai dar confiança para seguir o seu coração, mesmo que ele o leve para um caminho diferente do previsto, e isso fará toda diferença”.

Jobs falava de uma maneira que dava a entender que temos uma espécie de destino traçado, mas precisamos ter confiança para seguir nosso coração, intuição, para chegar onde temos que chegar. Isso me faz pensar no que sempre ouvimos a respeito da vontade de Deus para as nossas vidas. É como se Deus tivesse um plano para cada um de nós, que é sempre bom e agradável, mas, para que Ele possa cumprir o seu plano, precisamos estar submissos, vivendo dentro da vontade dEle. Aqueles nos quais Deus consegue operar a sua vontade são felizes e os que Ele não consegue, são infelizes, estão fora do plano perfeito de Deus para as suas vidas.

Olhando essas coisas, também lembro-me de um texto de Paulo, o apóstolo, no qual ele diz: “E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, que são chamados segundo o seu decreto”. Esse texto, de relance, me deixa a impressão de que tudo que acontece na vida, seja bom ou mau, acontece para cooperar para o bem daqueles que amam a Deus. Por isso, não raro, diante de tragédias da vida, vejo pessoas usando esse verso para (des)consolar. Por exemplo, um amigo certa vez sofreu um acidente de moto, no qual ele teve apenas alguns arranhões, rapidamente alguém disse: “Deus sabe de todas as coisas e isso aconteceu para o seu bem. Deus ‘permitiu’ isso para que você parasse de andar de moto, porque poderia ter sido pior. Você poderia ter ficado paraplégico ou ter morrido”.

Em outros tipos de desgraça, por exemplo, um tsunami, vejo pessoas dizendo que “Não se pode brincar com Deus. Ele está dando avisos para os povos idólatras se arrependerem. Deus é amor, mas também é justiça”. Em todos os casos, é como se Deus precisasse fazer o mal para fazer o bem. Alguns até tentam arrumar uma desculpa para Deus, dizendo que Ele não faz o mal, só permite. Ora, mas se o mal só ocorre se Ele permite então, no final das contas, nesta visão, são elas por elas, Deus acaba sendo o autor do mal, já que ele poderia não ter permitido. Neste sentido, entendendo que Deus “permite” um mal para gerar um bem, mesmo que didático, equivale a dizer que, se “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus”, então, um tsunami na Ásia, um recém nascido assassinado, um jovem atropelado, um aborto de uma adolescente, uma criança passando fome, tudo isso ocorre “para o bem daqueles que amam a Deus”. No final, para Deus fazer o bem àqueles que o amam, Ele precisaria, no mínimo, “permitir” o mal aos que não o amam ou aos que não o amam tanto assim.

Por essa razão, eu prefiro outra tradução do texto de Paulo. Na verdade, nem é outra tradução do mesmo texto, mas outra tradução de um manuscrito diferente. Se você tiver uma Bíblia NVI, e olhar em Romanos 8.28, verá que há uma nota de rodapé dizendo que alguns manuscritos oferecem uma versão diferente do texto. Essa versão diferente, presente em alguns manuscritos da carta de Paulo aos Romanos, diz da mesma maneira que citei em cima (“todas as coisas cooperam juntamente para o bem daqueles que amam a Deus”), presente na maioria das versões que levam o nome Almeida. No entanto, a NVI utiliza manuscritos diferentes, que são mais confiáveis segundo a crítica textual, pois o manuscrito original se perdeu e tudo que temos são cópias da cópia da cópia. A NVI diz assim: “Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem dos que o amam”.

Olhando distraidamente, alguém pode dizer que os textos dizem a mesma coisa, mas um olhar um pouco mais atento vai perceber que os textos dizem coisas completamente diferentes. No primeiro texto, o foco está nas coisas. São elas que cooperam para o bem, ou seja, o que acontece, seja mau ou bom, acontece de maneira pré-determinada para cooperar para o bem de uma classe de privilegiados – aqueles que amam a Deus. No segundo texto o foco está em Deus e não nas coisas. As coisa acontecem de maneira aleatória, não determinadas. Deus não faz ou permite o mal para fazer um bem. O mal simplesmente acontece porque “no mundo vocês terão aflições” e o “mundo jaz no maligno”. Deus não faz o mal, nem mesmo nas tragédias naturais, pois “toda criação geme com dores de parto esperando a manifestação dos filhos de Deus”. Só que, quando o mal acontece, Deus vem e age para, de alguma maneira, mesmo em meio ao caos, fazer o bem aos que o amam. Ele, que é o sumo bem, não pensa no mal e nem o planeja, fica perplexo diante da maldade humana e até mesmo agoniza e chora quando algum mal acomete algum de seus filhos. Mas, Ele age para, do mal que Ele não fez, trazer o bem aos seus filhos, aqueles que o amam.

Eu não consigo olhar para minha vida e dizer que cada passo meu foi planejado por Deus. Se fosse assim, meus erros e decisões estranhas também deveriam ter sido. Eu só vejo uma forma de ligar os pontos da minha vida: crendo que Deus, por sua Graça, pegou meus erros, minha maldade, meu pecado, minhas decisões erradas, meus caminhos tortos e, de alguma maneira completamente misteriosa para mim, agiu para me fazer o bem. Os males que se abateram sobre mim ou foram causados “pelas aflições do tempo presente” ou pelos meus próprios erros, tenho certeza que nada de mal que veio sobre mim o veio das mãos graciosas e amorosas do meu Deus. Mas, se hoje sou feliz, se hoje experimento amor e graça, é porque, nesta confusão que é a minha vida, Deus agiu e tem agido, em tudo que acontece, para fazer o bem a mim. E se você hoje pode sorrir, em um mundo que jaz no maligno, é porque Deus tem agido para fazer o bem a você também. Não é o mal que deveria nos deixar perplexos, mas o bem em um mundo que jaz no maligno.

O Salto de Fé

Lembro que eu ainda estava no início do namoro com a minha esposa, quando ela me presenteou com o que foi o meu primeiro livro do Philip Yancey. Foi uma identificação instantânea. Era como se as perguntas dele fossem as minhas perguntas. O seu estilo polêmico e sua maneira peculiar de lidar com o problema do sofrimento me encantaram. Depois disso, em pouco tempo comprei todos os livros do Philip disponíveis em português e os li como quem busca um diamante em uma mina. Entretanto, nesse percurso eu percebi que minha identificação com Yancey crescia não pelas questões clássicas em relação ao problema da dor, mas sim pela sua crítica contundente à igreja na qual ele fora criado. A forma como Yancey aborda a dor em seus livros é mais um contraponto em relação à forma como a própria igreja lida com a dor, ou melhor, da distância entre o que ele aprendeu sobre sofrimento na igreja e o que a vida mostrou ser sofrimento, deflagrando a incompletude e insuficiência das respostas apresentadas pela igreja.

Livros de Yancey como “O Jesus que eu nunca conheci” são uma maneira de mostrar um Jesus livre da gaiola institucional da igreja. Literalmente ele está dizendo que o Jesus apresentado pela igreja dele não era o Jesus de fato. Outros livros como “Igreja, por que se importar?” e “Alma Sobrevivente – como minha fé sobreviveu à igreja” provocam em mim uma identificação profunda. Eu me vejo neles. Eu me encontro neles. Justamente porque desde garoto questionei o porquê de a igreja dizer o que ela dizia. Nem entro na questão do fazer, pois é forçar demais. Minha fé sempre oscilava quando eu me perguntava sobre como um Deus apresentado como infinito pode se preocupar com tanta besteirinha finita que não faz diferença para nada. Por que o Senhor do universo se preocuparia com saia ou palmas? Por que ele estaria mais disponível para nos ouvir às 7h da manhã? Será que ele não é tão finito assim e às 7h da manhã a carga de orações subindo ao céu é menor?

Ao ler Yancey, fui apresentado à filosofia do dinamarquês Søren Kierkegaard, considerado o pai do existencialismo. Conhecer o pensamento de Kierkegaard foi como uma espécie de refúgio para minha fé, algo que me protegeu sensivelmente anos mais tarde quando entrei na faculdade de Teologia. A fé como me fora apresentada era baseada no acreditar em um conjunto de doutrinas apresentadas pela igreja. Dessa maneira, os sermões da igreja eram basicamente doutrinários, ou seja, tentando provar, a partir do iluminismo, com ferramentas lógicas, que essas doutrinas eram as doutrinas corretas e bíblicas. Como consequência, quem não cresse exatamente daquela maneira era considerado um crente mal doutrinado. Minha natureza questionadora levantava perguntas toda vez que eu via uma contradição óbvia ou mesmo algo explicado forçadamente, com base no que chamo de teologia inversa: ao invés de se ler a bíblia e dela saltar as doutrinas, primeiro se conhece as doutrinas e depois se vai à bíblia e procura os fundamentos para ela. É por isso que todo mundo acha o que quer na bíblia. Adventistas, pentecostais, batistas, testemunhas de Jeová e até espíritas acham a base de suas doutrinas na bíblia. Como diz o ditado: “Quem procura acha”.

Bem cedo eu questionei o porquê de a doutrina que eu aprendi ser a correta e a dos outros a errada. Perguntei-me, com sinceridade, o porquê de Deus ter me escolhido para nascer numa igreja com a doutrina “certa” e ter deixando outros nascerem em igrejas com doutrinas “erradas”. Essa fé baseada em doutrinas é muito efêmera e fácil de quebrar. Ela é como fumaça que o vento leva. A fé baseada em doutrinas não resiste ao choque com a pós-modernidade e nem responde as questões levantadas por quem vive as crises da vida nesta geração.

O pensamento de Kierkegaard me ajudou, pois me apresentou uma nova maneira de encarar a fé, além da fragilidade da doutrina. Kierkegaard diz que o centro da alma humana é angustia. Parece estranho, mas nem tanto. Quando o homem se pergunta por si mesmo, ele se percebe diante de duas hipóteses: ou foi criado por Deus ou foi um produto do caos e do acaso. Se optar pelo caos, a vida não tem sentido, logo, só sobra a angustia. Se optar por Deus, em poucos segundos o homem se descobre como alguém criado sem precisar ser criado, pois Deus, sendo Deus, não precisa criar ninguém como necessidade pessoal. A partir disso, Soren percebe a agonia existencial do homem. O homem é um ser angustiado, em agustia. O centro da alma humana é angustia. Alma para Kierkegaard está relacionada, em termos simples, com o centro das emoções e sentimentos do homem. É quase o próprio “Eu” do homem.

A partir disso, Kierkegaard diz que o homem, ao longo da história, utilizou de algumas maneiras para superar a angustia. A primeira delas se relaciona com o estético, de forma simples, com a busca do belo e do prazer. No entanto, quanto mais prazer o homem busca, menos prazer o homem sente e, assim, o prazer se torna um desprazer. A angustia permanece. A segunda maneira é buscar o lado moral ou ético da vida, ou seja, o homem tenta ser bom ou se achar bom, mas logo perceve que isso é efêmero e a angustia permanece. A terceira maneira de superar a angustia, para Kierkegaard, é buscando o lado religioso, vivendo os dogmas e as regras da religião, todavia o homem cedo percebe que não consegue viver de acordo com a religião e angustia existencial permanece.

O interessente vem agora. Kierkegaard propõe uma quarta maneira de superar a angustia e tem a ver também com o lado religioso. Só que, ao invés de buscar o sentido nos dogmas, ele propõe um “Salto de fé” ou um “Salto no Escuro”. O que ele quer dizer com isso? A razão humana vai até certo ponto e depois não consegue compreender mais. Essa parte incompreensível não pode ser explicada ou provada por doutrinas ou teologias e enquanto o homem permanece distante do incompreensível a sua angustia permanece. Para transcender é preciso um salto no escuro. É preciso pular na escuridão mesmo sem saber o que vai encontrar na frente. Isso é fé para Kierkegaard. A fé é um salto no escuro. Não pode ser fé em doutrinas, pois estas são bem fechadas, claras e definidas, tal como uma gaiola.

Quando pela primeira vez me deparei com essa parte do pensamento kierkegaardiano, instantaneamente resolvi saltar em direção ao desconhecido. Resolvi pautar minha fé longe da efêmera gaiola doutrinária e me lançar no infinito.

Eu lembro uma música do Bon Jovi, do álbum These Days, cuja tradução diz mais ou menos assim: “Olhando da janela é um longo caminho até lá em baixo. Sinto vontade de pular, mas tenho medo de atingir o chão”. Não sei se todos percebem, mas o desejo não é de se matar e sim de se jogar em direção ao desconhecido e ao novo. Ele quer se jogar, mas tem medo de atingir o chão. A analogia é perfeita: um dia me vi em uma janela, mas não enxergava a distância até o chão e nem o que tinha na frente. No meu quarto havia o meu mundo seguro, com minhas doutrinas e tradições, passadas a mim por anos e anos. Eu tive dúvidas. Exitei. Mas, o meu mundo seguro era também o meu mundo de angustia e com respostas efêmeras e frágeis. Mesmo na dúvida, saltei em direção ao desconhecido e caí nos colos de Deus. Deus, só Deus. Sem doutrinas ou tradições. Deus por Deus, nada além de Deus.

Isso que me salvou no Seminário do Sul, pois lá, nos primeiros anos, é feito um processo de desconstrução de dogmas e tradições para só nos últimos anos reconstruir. Muitos colegas abandonaram a fé e a igreja, quando perceberam a fugacidade do que tinham aprendido durante anos. Eu me senti um pouco atordoado. Senti uma decepção profunda, como se eu tivesse sido enganado por anos. Mas, por fim, eu simplesmente pensei: eu já me joguei da janela e depois que a gente se joga, não tem mais volta. Continuo em meu salto, livre, sem amarras, nos braços do Pai. Ele não me obriga a ficar com Ele. Não me prende. Mas por causa desse encontro no salto eu não canso de me encantar com Ele e tentar, na limitação da minha finitude, conhecê-lo mais e mais. Ele por Ele. Deus por Deus. No salto, nada mais importa – só Deus.

Por um Reino de Consciência

Há alguns detalhes do filme Cruzadas (Kingdom of Heaven) que me despertam um interesse profundo. O filme conta um pouco da história das guerras entre cristãos e muçulmanos pela conquista de Jerusalém, mais ou menos no final do primeiro milênio da era cristã. As guerras eram motivadas por questões religiosas, pois Jerusalém tem lugares considerados sagrados por ambas as religiões. Apesar de algumas imprecisões históricas, o filme tenta se localizar no final do século XII, época em que o sultão Saladino reconquista Jerusalém, cidade que os cristãos da primeira Cruzada haviam tomado em 1090 d.c.

Quando os cristão tomaram Jerusalém na primeira Cruzada, tentaram transformá-la no Reino de Deus na terra; por isso, a tradução do título original do filme é “Reino dos Céus”. No filme, Jerusalém era mostrada como uma cidade onde um rico é pobre e o pobre é rico; um senhor é escravo e um escravo é livre; uma cidade onde se pode encontrar o que se procura, inclusive o perdão. Jerusalém tentava ser um reino de justiça e equidade, um lugar onde cristãos, judeus e muçulmanos pudessem conviver, sendo um lugar comum de oração para todas as crenças. Entretanto, para se manter a paz eram necessário sacrifícios. Alguns cavaleiros templários tentavam cavar uma guerra a qualquer preço com os muçulmanos e sempre que descobertos eram condenados a morte em Jerusalém.

Em um momento delicado do filme, o rei de Jerusalém, prestes a morrer, se vê em um duro dilema. Ele não tinham herdeiros – o que levaria sua única irmã ao trono, juntamente com o marido dela, um cavaleiro templário, louco para estourar uma guerra entre cristãos e muçulmanos. Ele então propõe a um dos personagens centrais do filme que se casasse com sua irmã, mas para isso, o marido dela precisaria ser executado. Seria a velha máxima: “os fins justificam os meios”, pois de outro modo Jerusalém deixaria de ser o “Reino dos Céus”. Neste momento, o rei recebe uma resposta desconcertante: “Não posso fazer uma coisa dessas”, diz o personagem, “É um reino de consciência ou nada”.

Essa frase nunca mais saiu da minha mente, ficou impressa. Eu acho que no mundo cristão temos muito a aprender com ela. Vejo, hoje, evangélicos lutando para assumir o poder no congresso para lutar pela “moral cristã”, evitando que leis contrárias às suas tradições religiosas sejam aprovadas. Muitos sonham com o dia em que o país será governado por um evangélico e assim poderão impor à sociedade os padrões de vida cristãos. Sem casamento homossexual, sem aborto, sem provas aos domingos etc. Ou seja, seria uma espécie de “Reino dos Céus” imposto pela força, pela coercitividade da lei.

Do mesmo modo, vejo, em um universo mais restrito, a igreja tentando impor aos cristãos um modelo de vida encabrestado e fechado, definido pelo universo religioso particular. Forçando os cristãos a viverem um “Reino dos Céus” com base na força e persuasão religiosa. O que vale é cumprir regras e seguir tradições, mesmo sem um encontro genuíno com o Cristo ressurreto. Há muitos líderes que acham que discipulado é colocar um cabresto no discípulo para que este siga no caminho “correto”. Esquecem que o discipulado verdadeiro vem da inspiração de vida que o líder causa no liderado e não na força e persuasão religiosa. Cristão não é cavalo para ser encabrestado. Cristão é um ser humano consciente e que deve agir a partir da consciência livre em Cristo, não em cabrestos.

Eu não acredito que a virtude genuína possa brotar pela força e imposição. Não acredito que os valores do “Reino dos Céus” possam ser impostos. Ou vivemos a ética do Reino por consciência ou ela não tem valor. Ou, se preferirem, vivemos os preceitos da bíblia por consciência ou esses preceitos serão como nada. Como Jesus disse: “Deus procura adoradores que o adorem em espírito e em verdade”, em outras palavras, que o adorem com consciência. Culto sem consciência é nada. Adoração sem consciência é vácuo. Oferta sem amor é fumaça ao vento. É um reino que brota da mente e do coração ou nada. Não adianta cabresto, “É um Reino de consciência ou nada”.

A Agonia Religiosa de Jó

Eu creio que a história de Jó seja conhecida até mesmo fora do arraial judaico/cristão. A expressão “paciência de Jó”, por exemplo, faz parte do vocabulário popular. Mesmo que não se saiba por completo os detalhes da história, a maioria das pessoas sabe que Jó foi um homem que passou por muito sofrimento, “foi paciente” e, por isso, foi “recompensado”. No entanto, qualquer um que entre a fundo na narrativa, com a mente e o coração limpos de interpretações prontas, aprendidas de livros ou mesmo aulas e sermões, começa a levantar sérios questionamentos, inclusive sobre a atuação do próprio Deus. Afinal, na história, é o próprio Deus que leva a atenção do inimigo em direção a Jó e depois ainda permite que o inimigo destrua tudo de mais precioso para Jó. Por fim, que Deus é esse que usa o sofrimento de um servo fiel para brincar de aposta cósmica com o inimigo?

Levantei a bola, mas não vou chutar. Deixo as respostas para o pessoal da teodiceia. Para mim, Deus não precisa ser defendido. Por isso, vou olhar a história sob outro ângulo, esquecendo-me dos capítulos onde Deus faz a aposta cósmica com o inimigo e concentrando-me no olhar de Jó, pois, de fato, Jó não sabia o que se passava por trás do pano. Jó não sabia que sua vida estava no centro de uma disputa cósmica. Então, o que Jó sabia?

Jó sabia que tinha perdido os seus bens e filhos, além de ver seu corpo sendo corroído por chagas. Mas além do que estava diante dele de maneira óbvia, ele agonizava profundamente porque começava a perceber que o seu sistema religioso estava quebrado. Em outras palavras, a religião havia prometido, mas esqueceu de entregar. Como assim?

A religião de Jó era um judaísmo primitivo, se é que eu posso usar a expressão judaísmo. Essa religião era desenhada de maneira bem simples. Era um sistema composto por Deus nos céus e os homens na terra, sendo que os homens se relacionavam com Deus através de um conjunto de obrigações e benefícios. Ou seja, se os homens cumprissem suas obrigações para com Deus, este mandava as bênçãos dos céus (boa colheita, casa cheia de filhos, prosperidade etc.); todavia, caso os homens não cumprissem suas obrigações para com Deus, este lhes enviaria toda sorte de maldições (a terra não produziria, os ventres ficariam estéreos, pobreza e etc.). E em se tratando de Jó, quais eram as obrigações que ele tinha que cumprir em relação a Deus?

Jó tinha todo um conjunto de rituais e regras morais para cumprir. E não é difícil ver no próprio texto que Jó era um exímio cumpridor das suas obrigações religiosas para com Deus. Também não é difícil enxergar que, até o momento da aposta cósmica, a vida religiosa de Jó funcionava perfeitamente. Ele era um cara íntegro, justo (cumpridor de regras morais) e fazia regularmente os sacrifícios a Deus (executor de rituais). Em troca, ele tinha muitos bens, muito gado, muita terra e muitos filhos. Como sabemos, da noite para o dia, ele perdeu tudo isso, juntamente com a sua saúde física. Só essas coisas já eram um profundo sofrimento, no entanto, esse sofrimento foi potencializado quando Jó percebeu que o seu sistema religioso havia desmoronado. Em outras palavras, como tudo que Jó conhecia de Deus era balizado pela religião, era como se o próprio Deus o tivesse abandonado ou, pelos menos, deixado de cumprir a sua parte no acordo.

No início do seu sofrimento, Jó ainda tenta “defender” Deus. Ele diz algumas expressões realmente lindas, tais como: “Ainda que ele me mate, eu o louvarei”, “Nu saí do ventre da minha mãe e nu voltarei; o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor”. Mesmo assim, um pouco depois, quando o sofrimento aperta, ele percebe que dentro do seu sistema religioso Deus estava em falta e, então, começa a levantar questionamentos em direção a Deus. Os amigos de Jó insistem que o sistema religioso é perfeito, restando apenas uma explicação: Jó é culpado. Mas Jó sabe que dentro do sistema ele foi irrepreensível e não aceita os argumentos dos amigos, no final das contas a única explicação é que Deus o havia abandonado, como ele expressa: “Que leve sussurro temos ouvido dele?”.

O mais interessante acontece quando Deus resolve “se defender”, pois Ele o faz sem colocar a culpa em Jó, ou seja, sem dizer que Jó cometeu falhas no sistema religioso. Afinal, o próprio Deus havia dito ao inimigo que Jó era um exímio cumpridor do sistema religioso, por que agora Deus acharia uma culpa em Jó em relação ao sistema? O que Deus faz é mostrar o quanto a visão de mundo e religiosa de Jó era pequena e limitada. Deus está mostrando a Jó que Ele (Deus) não está preso aos conceitos da religião. Deus não joga de acordo com as regras pré-definidas pela religião, mas age como quer e a hora que quer. No fim, no diálogo com Jó, Deus se mostra, revelando que ele é o detentor dos segredos profundos do universo e, por consequência, deixando claro que os conceitos construídos por Jó naquele contexto sócio religioso davam pistas falsas de quem era Deus e de quem era Jó.

Deus não diz a Jó o porquê do seu sofrimento. Não explica que Jó esteve no centro de uma aposta cósmica. Não precisava. O que Jó recebeu de Deus foi bem mais que respostas, como ele mesmo diz: “Eu te conhecia só de ouvir falar, mas agora os meus olhos te veem”. Talvez pudesse ser colocado da seguinte maneira: “Eu te conhecia só pelo que eu aprendi da religião, mas agora eu te conheço pessoalmente”. Eu arrisco o palpite de que Deus viu sinceridade na vida religiosa de Jó e resolveu libertá-lo da própria religião, deixando-o livre de regras e rituais, fazendo-o desacreditar no sistema, tirando as escamas religiosas dos olhos dele, para que no fim Jó, sem bengalas, pudesse correr livre para o colo de Deus. “Agora os meus olhos te veem”.

Por que você não quer mais ir à igreja?

Meio sem querer, em minha visita à XV Bienal do Livro, comprei um livro com a intenção de lê-lo daqui a alguns meses, mas, não sei dizer exatamente o porquê, assim que cheguei em casa comecei a olhar e, quando percebi, eu tinha lido várias páginas. Na verdade, o título do livro roubou completamente minhas atenções, rememorando, no mais fundo das minhas entranhas, uma realidade por mim vivida recentemente. O título do livro era uma pergunta, no melhor estilo soco no estômago, “Por que você não quer mais ir à igreja?”.

O livro conta a história de um homem que havia sido criado na igreja e desde pequeno se destacou no universo religioso. Quando criança, ele ganhava vários prêmios por decorar versos, por estar sempre presente na EBD, por se comportar bem, enfim, foi o tipo de filho que todo pai religioso gostaria de ter. Na fase adulta, ele se dedicou em tudo na igreja até que foi chamado para ser o pastor administrativo da sua comunidade – posição que fora aceita com grande satisfação e orgulho. Mesmo assim, ele não entendia o porquê de se sentir tão vazio. Afinal de contas ele era um bom pai de família, morava em uma boa casa, frequentava todos os cultos e fazia tudo mais que alguém possa pensar que uma pessoa considerada “um bom cristão” pelo senso comum pudesse fazer. O que estaria errado? Ele começa a entender as questões quando encontra um homem, bem comum, que começa a mostrar onde residia o problema.

Ao começar a ver do que se tratava o livro, sofri um processo profundo de identificação. Durante muito tempo tentei viver uma vida com Deus balizada pelos programas religiosos. Confundi, talvez infantilmente, crescimento espiritual com o galgar cargos de responsabilidades mais elevadas na igreja. A cada ano, eu ganhava um novo cargo, enchia-me de responsabilidades e, na razão direta, sentia-me moído e esvaziado. Em alguns momentos, eu até enxergava o que estava acontecendo comigo, mas eu estava tão mergulhado na máquina religiosa que não conseguia nadar até a superfície. Sinto-me até mal em pensar que um dia valorizei ser diretor da EBD, diácono, líder de casais, professor de classe, relator de comissão e mais outras coisas que inventamos para manter a máquina girando.

Eu acho que no processo eu cometi dois erros quase imperdoáveis. Eu confundi, em primeiro lugar, Reino de Deus com igreja. Eu achei, durante muito tempo, que servindo a igreja eu estava necessariamente servindo a Deus e ao seu Reino. Hoje entendo que para servir a Deus e ao seu Reino não preciso, necessariamente, estar servindo a igreja. A igreja pode ser uma dimensão desse serviço, mas também pode ser a grande distração, que desvia o olhar para mecanismos religiosos deixando o que verdadeiramente importa de lado. Meu segundo erro foi ter confundido religião com vida cristã. Eu achei que para se viver uma vida com Deus era preciso seguir os modelos religiosos: cultos e mais cultos, ensaios e mais ensaios, cargos e mais cargos, programas e mais programas, reuniões e mais reuniões etc. O resultado foi simples: quanto mais eu crescia na igreja, mais religioso eu me tornava e mais embaçada minha visão ficava de Deus.

Essas coisas não eram fáceis de ver. Mas eu comecei a perceber que algo estava errado porque eu havia perdido completamente o prazer de estar na igreja. Quando o domingo ia se aproximando era um tormento enorme para mim. Acordar de manhã para ir ao culto de oração, às 7 horas, sem vontade nenhuma, era pior do que encarar a Ponte Rio-Niterói segunda-feira de manhã após feriado. Era uma desgraça. Nos cultos, eu contava os segundos para acabar e ficava louco para chegar em casa e ligar a TV. Eu sentia inveja de uns amigos que passavam o culto todo do lado de fora conversando. Com certeza – e não estou de deboche – aquilo tinha uma dimensão mais espiritual do que ficar sentado vendo um “show de calouros” e ouvindo sermões sem sentido. E refletindo bem, era o melhor que aquelas pessoas podiam fazer e o faziam porque não precisavam viver de aparências como eu. Eles eram livres. Se o culto estava chato era melhor rir com os amigos e compartilhar a vida do lado de fora, afinal, quem disse que Deus mora dentro do templo? O engraçado é que algumas pessoas reclamavam comigo porque alguns dos que ficavam do lado de fora nos cultos eram meus “liderados”. Por mais moralista e hipócrita que eu fosse, nunca tive condições de achar errado, pois, na verdade, tudo que eu mais queria aos domingos era estar do lado de fora. Eu creio que só não chutei tudo pro alto, porque eu tinha meus livros e podia ouvir, nos momentos de maior vazio e crise,mensagens na internet.

Alguém pode ler este texto e achar que estou falando mal da minha antiga comunidade. Não estou falando mal dela, estou falando mal de mim mesmo, de como eu vivi e de como confundi as coisas. Eu digo que existe uma igreja para cada tipo de pessoa e a pessoa só fica em uma comunidade que não lhe agrada porque quer. Demorei a compreender isso. Se minha visão tinha uma direção oposta a da minha comunidade, por que continuar nela?

Hoje, estou reconstruindo minha vida cristã em uma comunidade que se autodenomina “uma igreja para quem não gosta de igreja”. Escuto mensagens que desmontam a religião e nos levam a viver uma ética de vida, baseada em Cristo, não em dogmas ou regras religiosas. Tenho tentado redescobri a dimensão do serviço e parei de me preocupar com o “meu lugar no corpo de Cristo”, passando a dar importância vital ao “lugar de Cristo na minha vida”. Não quero cargos, quero servir e ajudar. Quero compartilhar a vida com pessoas, ajudar uma criança a ter um futuro, estar ao lado de idosos, fazer o trabalho de pano de fundo, sem glórias ou aplausos, quero estender a mão e ajudar. Depois de alguns meses na IBON ouvindo mensagens fortes e de uma redescoberta da dimensão simples e anônima do serviço, sem compromisso com religião, denominação ou busca de bênçãos, hoje, posso dizer que recuperei meu prazer de ir à igreja. É bom demais acordar domingo de manhã feliz porque vou à igreja para adorar comunitariamente e ser profundamente tocado pela palavra de Deus.