Arquivo da categoria: Cotidiano

Sobre as Ondas

Há algumas coisas estranhas em nossas vidas. Sempre foi complicado para mim entender o sofrimento e aceitar as mazelas desta vida. Confesso que passei muito tempo tentando entender, estudando o assunto, mas continuo completamente sem respostas. Na verdade, acho até que desisti de procurar determinadas respostas, embora um nó sempre permaneça na garganta.

É bem verdade que de tempos em tempos ondas grandes quebram sobre nossas cabeças. Às vezes, nem mesmo nos recuperamos de uma onda e mal colocamos o rosto para fora da água, buscando um pouco de ar e direção, uma outra onda quebra sobre nós, jogando-nos para o fundo, completamente impotentes.

Como a maioria das pessoas, quando os problemas se abatem, procuro alguma forma de abrigo. Nestas horas, confesso, tento voltar mais meus olhos para Deus que, na verdade, sempre foi e sempre será meu único refúgio. Na hora da dor ou mesmo quando um problema maior que nós chega, não resta muita coisa a fazer a não ser simplesmente orar e pedir ajuda ao Senhor. Podemos criticar isso, mas não há jeito. Mesmo que enquanto tudo está bem não estejamos buscando a Deus, na hora do desespero não pensamos duas vezes e nos jogamos nele.

No entanto, mesmo com certa humildade e sentimento de pequenez trazidos pela dor, lá no íntimo, lá no fundo, bem no fundo, eu sempre achei que tinha algum crédito para trocar com Deus. Eu até tentava me livrar destes sentimentos, pois em teoria eu sabia que não fazia sentido. Eu sabia e sei que tudo que vem a mim é pela graça e misericórdia de Deus, mas, mesmo assim, me via minimamente merecedor de algo. Eu talvez achasse que por me dedicar bastante nas tarefas da igreja, Deus me olharia de forma especial. Essas coisas assim. Tenho até vergonha de escrever.

No entanto, após uma crise de estresse no início deste ano, eu diminuí consideravelmente minhas atividades na igreja, talvez por não me achar em condições, já que sempre levei essas tarefas como muita reverência, temendo pela vida das pessoas que estavam diante de mim. Neste exato momento da minha vida, duas grandes ondas quebraram em minha cabeça. Literalmente uma atrás da outra. Fato que me fez perder o sono em uma noite. Foi então que me peguei orando e, para mim surpresa, não havia mais em o sentimento de que eu merecia algo. Eu não me vi com créditos diante de Deus, muito pelo contrário, enxerguei-me completamente devedor, como um pedinte endividado, com as mãos completamente vazias.

Nessa hora, eu percebi que eu só podia contar com a Graça. Eu não tinha nada para oferecer e muito menos promessas vazias para fazer, pois as mesmas eu já havia quebrado várias e várias vezes. Tudo que me restou e me resta é colocar todos os meus problemas e toda a minha dor diante do Pai, confiando exclusivamente nEle.

Não sei quando essas ondas passarão. Confesso que estou me preparando para um longo período de apneia no fundo do oceano, mas se depois dessa eu aprender que não sou nada, não tenho nada e que dependo completamente de Deus, então, que quebrem as ondas.

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No que estou me tornando?

Minha estrada não é simples, mas creio que a de ninguém o seja. Não digo que é ruim. Na verdade, acho a vida boa, muito boa para ser vivida. Como diz a música:

“Te mostro um trecho, uma passagem de um livro antigo
Pra te provar e mostrar que a vida é linda
Dura, sofrida, carente em qualquer continente
Mas boa de se viver em qualquer lugar”

Sim! A vida é dura, sofrida e carente em qualquer lugar, mas, como diz outra canção: “A vida é tão rara”.

Mesmo assim, digo que viver é complexo. Existir é complicado. Perceber-se existindo, respirando, pensando, no palco da vida com diferentes atores é algo ao mesmo tempo maravilhoso e aterrador. É um convite a explorar, conhecer, sentir e, ainda assim, uma experiência de medo paralisante. É como olhar belas ondas no mar. São belas, perfeitas, poderosas. Logo me imagino no meio delas, mas um frio percorre a espinha, um medo que petrifica. É o risco.

Viver é um risco. Existir é perigoso. Se perceber neste palco é ameaçador.

E se eu pudesse sentar na plateia para me assistir atuando no palco da vida? O que eu diria do meu eu que está no palco? Será que eu o veria como um ator barato com atuações pífias? Será que veria autenticidade nas atuações? Seria que eu veria algo distante de mim mesmo? Ou será que me reconheceria no meu eu que atua?

Olhando para mim, de dentro de mim, sentado no palco da minha alma, da minha mente e do meu coração, já não sei quem sou. Já não sei o que é falso e o que é autêntico. Como em um esquizofrenismo, já não sei o que é fantasia e o que é realidade. Tornei-me o que eu não queria me tornar, mas insisto em pensar que sou o que queria ser.

Já não sei se fui além ou se fiquem aquém. Não sei se estou crescendo ou atrofiando. Não sei se estou melhor ou pior.

Alguns fardos ficaram para trás. Todavia, no que estou me tornando? Não me sinto melhor. Não me sinto mais gente, mais humano. Sinto-me mais frio, mais distante.

O que estou valorizando? O que estou priorizando? O que estou buscando?

O vazio! O vento! O Nada! A escrita na areia que a onda do mar apaga! A beleza presa ao tempo! A imortalidade do presente que já não existe!

O que estou buscando? O vazio! O nada! O vento!

Lições de um velório

Comecei o primeiro dia de 2014 em um sepultamento. Era o pai de uma amiga da minha esposa. Nossa presença lá se restringia a dar apoio à amiga, nada mais. Ainda assim, ao mesmo tempo, vivenciei uma cena comum e incomum. Se por um lado, eu nunca tinha ido a um “evento” fúnebre em um dia que costuma ser festivo; por outro, todavia, percebi que não há nada de especial no primeiro dia do ano, pois nem a morte pede licença. Para muitos era um feriado, mas, para os coveiros, um dia de trabalho normal. Na verdade, muito trabalho, pois, só enquanto lá estive, vi três corpos sendo levados para sepultura.

No entanto, algo me chocou de maneira especial e me incomodou de maneira tal que fui obrigado a escrever um texto para organizar as ideias e tentar entender o incompreensível. Desde o início, percebi um grupo de religiosos na sala do velório, o que achei bonito e positivo. Eram pessoas da igreja de um parente do falecido que estavam ali para apoiar. Eis aí um lindo papel que muitas igrejas prestam.

No decorrer dos acontecimentos e observando alguns fatos, comecei a me perguntar se o papel que aquele grupo de religiosos estava prestando era realmente positivo. A dor da família era realmente grande. A esposa do falecido chorou até desmaiar. Ela não conseguia compreender. Dizia que não saberia como viver sem o seu marido. Várias vezes ouvi o seu grito de dor: “Por quê, meu Deus?” Igualmente, outras pessoas da família repetiam, em prantos, o mesmo grito. E ouvi várias crianças, provavelmente, netos do falecido, perguntando o porquê de aquilo estar acontecendo.

Foi então que começou o show de respostas prontas e praticamente indiferentes à dor da família. Alguém parou ao lado da viúva e disse: “Foi a vontade de Deus, que o levou para ele não sofrer muito.” Como quem nem escutou, a viúva simplesmente continuou seu pranto e, meio que não suportando a dor da perda, desmaiou. Quando recobrou a consciência, simplesmente repetia: “Por quê, meu Deus?”

Foi duro ver e ouvir alguém dizendo para uma criança inocente que “Papai do céu quis levar o vovô para morar com ele”. Ouvindo as palavras, tudo que a criança podia fazer era continuar seu choro. Para piorar a dor, ela descobriu que Deus era o culpado pelo seu sofrimento. Talvez, por isso, ela tenha chorado ainda mais depois dessas palavras.

Eu já estava incomodado com essas cenas que insistiam em se repetir, mesmo assim, nada me preparou para o que veio a seguir. Um pastor foi chamado para trazer uma palavra para os familiares e amigos do falecido. Eu pensei que ele traria uma palavra de consolo, no entanto, eu vi alguém subindo em um pedestal, se colocando em posição de superioridade, como se nem mesmo a morte o afetasse. Suas palavras eram proselitistas. Ele parecia ignorar a dor e “aproveitou” o momento para falar de sua fé.

O problema é que ele falava com arrogância. Falava de pecado, morte. Tentava encaixar um plano de salvação. A família enlutada, em sua maioria longe dos arraiais da igreja, parecia não escutar. Limitavam-se a chorar. Os religiosos que acompanhavam o pastor faziam questão de dizer: “Amém”, “Aleluia”, após cada frase de efeito. Ele falou, falou, e não disse nada. Ao final, fazendo uso de uma cadeia hierárquica eclesiástica que pouco fazia sentido ali, chamou um presbítero para orar. Não parecia uma oração, mas sim uma pregação, daquelas em se cita a bíblia para Deus. Perdeu a oportunidade de pedir por consolo e pelo alívio da dor experimentada pela família. A oração, seguindo o estilo do pastor, foi arrogante e prepotente, estava mais preocupada em “evangelizar” do que em consolar.

É interessante que quando me dirigi ao carro para ir embora, encontrei uma propaganda do cemitério, oferecendo-me a oportunidade de comprar uma cova. No mesmo instante, eu disse a minha esposa: “A administração do cemitério está igual àquela igreja. Não respeitam nem a dor das pessoas. Não perdem uma oportunidade para fazer negócio”.

Sabe, há anos questiono o que muita igreja faz em sepultamentos. Ouvi várias mensagens pregadas em velórios e a maioria esmagadora delas possuía um tom proselitista. Eu já vi várias pessoas dizendo: “Temos que aproveitar, pois nessas horas as pessoas estão mais abertas para ouvir o evangelho”. Eu questiono seriamente esta tese. Ouvir? Quem sente dor simplesmente sente, não escuta nada. A pessoa não quer alguém para falar, muito menos fazer propaganda de religião, mas quer alguém para compartilhar a dor. Eu lembro que no velório do meu avô um pastor chegou sorrindo. Eu pensei comigo na época: “Por que esse desgraçado está sorrindo? Será que ele não poderia pelo menos fingir que sente algo?” Na verdade, ele fingia sim, tentava fingir que estava tudo bem. Mas, para que fingir? Para que tentar passar um clima que não existe?

O problema todo é que boa parte das igrejas não vai a um velório para se solidarizar com a dor e oferecer um pouco de consolo, nem que seja apenas um ombro para chorar. Na verdade, vão para fazer caridade e proselitismo travestidos de evangelismo barato. Quando alguém faz caridade, simplesmente se mantém em uma posição de superioridade, olhando de cima para baixo, como se estive bem e, aquele que recebe a sua caridade, numa pior. Quando alguém se solidariza com a dor do outro, simplesmente, se coloca ao lado do sofredor. Não oferece respostas prontas e sem sentido. Não oferece posições doutrinárias. Não repete cartilha de teologia e nem revistinha de EBD. Quando nos solidarizamos, simplesmente nos oferecemos para sofrer junto.

Boa parte de nós não quer sofrer a dor do outro. Por isso, é melhor agir como aqueles religiosos do velório, cuja espiritualidade os havia tirado a humanidade. É melhor nos acharmos melhores por termos uma fé. É melhor nos acharmos superiores por crermos num conjunto de dogmas. É melhor olhar de cima para baixo do que sentar ao lado para chorar junto.

Quando eu olho para Jesus vejo alguém que se esvaziou de sua divindade para ser plenamente humano e se solidarizar com a nossa dor e sofrimento. Ele levou isso às últimas consequências, chegando ao ponto de assumir a morte que era nossa. Enquanto esteve entre nós, chorou diante da morte de um amigo, tanto pela dor que Ele mesmo sentiu, quando por solidariedade ao sofrimento das irmãs do morto. Jesus simplesmente sofria com os que sofriam. Jesus nunca fez caridade e só mostrou superioridade diante dos caridosos religiosos do seu tempo. Jesus se solidarizava.

Diferentemente de Jesus, nós gostamos de parecer espirituais, quase seres diferentes, iluminados, quase deuses. Esse sempre foi o pecado mortal da humanidade: desejar ser como Deus, igual a Deus. Jesus se esvaziou da divindade e foi plenamente humano e, sendo achado em forma humana, pode mostrar o que significava verdadeiramente ser Deus. Gosto de quando Leonardo Boff diz: “Jesus era tão humano que só podia ser Deus”. Infelizmente, a igreja parece fazer propaganda contra o humano. Querem ser “espirituais” e acabam vivendo como que alienados. Não tenho tempo para explicar, mas a mensagem do velório foi mais platônica do que cristã. Infelizmente, a maioria dos púlpitos das igrejas prega mais Platão do que Jesus.

Na hora da dor, a igreja quer levar Jesus em forma de palavra e versos decorados, tentando evangelizar. No entanto, já deveríamos ter aprendido que não faz sentido levar simplesmente o nome de Jesus ou alguns conceitos, precisamos ser Cristo para as pessoas que estão sofrendo. Precisamos sofrer junto, solidarizar e não fazer caridade, muito menos evangelismo barato.

Mas, sabem o que mais me impressionou positivamente? Duas cenas protagonizadas por pessoas que não criam em Deus. Em uma delas, um tio explicava para o sobrinho que “não conseguimos entender a morte, mas precisamos nos acostumar, pois faz parte da vida.” Ele dizia que “durante a vida veremos várias pessoas que amamos morrendo, por isso era preciso aceitar.”

Eu sei que é impossível aceitar a morte ou mesmo se acostumar. No entanto, o tio ateu não colocou a culpa em Deus e muito menos deu respostas prontas e sem sentido. Simplesmente assumiu que não conseguimos entender.

A outra cena foi impressionante. Após o caixão ter sido colocado no solo e a sepultura fechada, as pessoas ficaram paradas, olhando, sem dizer uma palavra. Foi aí que uma das filhas do falecido quebrou o silêncio e disse: “Gente! Se meu pai estive vivo iria pergunta o que vocês estão fazendo aí parados. Ele diria: ‘vão viver a vida de vocês porque eu vivi a minha e muito bem.’”

Instantaneamente, lembrei os apóstolos olhando Jesus subir ao céu em Atos 1. Eles ficaram parados, sem dizer nada. Até um anjo disse a eles: “O que vocês estão fazendo aí parados?”

Após as palavras dessa filha, eu percebi que um peso saiu do semblante das pessoas. Todas se sentiram mais soltas. A dor continuava, as lágrimas ainda regavam o solo, mas a página podia começar a ser virada. Me pergunto:  por que isso não aconteceu através das palavras do pastor e da oração do presbítero? Por que as pessoas não se sentiram consoladas após a pregação? Há momentos em que Deus fala mais por uma pessoa de fora da igreja do que por um pastor que arrogantemente diz estar falando em nome dEle.

 

 

O PARADOXO DAS EXPERIÊNCIAS RELIGIOSAS

Há poucos dias, eu conversava com um amigo que, aparentemente, não tem nenhuma religião. Ele favava de uma visita feita a um templo budista, levado pelo seu irmão mais velho. Em um momento, chegou a um lugar no qual as pessoas dedicavam algum tempo para fazer seus pedidos. Foi então que ele percebeu que havia tanta coisa boa acontecendo em sua vida e, assim, passou aqueles momentos agradecendo. Ele falava de ter tido uma experiência magnífica. Sentido uma energia positiva. Por fim, disse ter experimentado uma sensação que gostaria de repetir várias vezes.

Quando ouvi a palavra “repetir”, imediatamente, eu disse: “Cuidado, pois esse é o mal das religiões. As pessoas tem uma experiência isolada e querem repetir outra vez. Acontece que experiências não se repetem. São únicas. Quanto mais alguém tenta repetir uma experiência, uma sensação, mais se embola em rituais infinitos e, no fim, se sente exaurida e frustrada. Você só experienciou as sensações descritas porque não estava procurando experiências. Estava livre para o que viesse. A partir do momento em que você procurar repetir uma experiência específica, estará se fechando para novas experiências.”

É claro que meu amigo ficou assustado e terminamos a conversa ali mesmo. No entanto, o que falei ao meu amigo serve também para qualquer religião, inclusive para o cristianismo. Ou melhor, principalmente para o cristianismo. Bato na tecla: o problema não é a experiência. Quanto a isso não tenho o que dizer. O problema é tentar repetir a experiência. É tentar sentir de novo o que se sentiu em um momento específico. Por que isso é um problema?

Simples, ao tentar se repetir uma experiência religiosa é comum tentar recriar o ambiente em que o fato ocorreu primeiramente. É comum tentar voltar ao mesmo lugar, ouvir as mesmas músicas, as mesmas palavras, ler o mesmo livro. Na segunda vez, a pessoa ainda sente algo, talvez um eco do que ocorreu antes, mas logo percebe que a intensidade não fora a mesma. Instintivamente, tenta-se entender o que deu errado e um novo ciclo litúrgico se inicia. Tenta-se aumentar a intensidade, adiciona-se itens ao ritual. E no fim, se a pessoa for honesta consigo mesmo, na busca por experiências, o máximo que encontrou foi o vazio. Domingo após domingo, culto após culto, louvorzão após louvorzão, livro após livro, madrugas em montes. Nada disso parece satisfazer. Nada disso parece fazer a pessoas sentir o que ela quer sentir. Ela quer mais. Busca mais. Mas, honestamente, ela só tem o vazio. Só tem rito. Só tem liturgia. Só tem religião. Pouco de Deus. Quase nada de sagrado. A experiência com o divino se torna apenas uma lembrança do passado longínquo.

O pior é que quem está em busca de experiência se torna presa fácil para modas que aparecem. Seja uma nova campanha que promete fazer você chegar mais perto de Deus. Seja ir a um monte orar. Seja um pastor famoso que aparece na mídia e todos dizem que tem uma palavra poderosa. Seja um final de semana que promete ser um encontro tremendo com Deus. Seja entrando num ritmo doentio de atividades religiosas. Seja seguindo manuais de espiritualidade que negam a vida e promovem o sectarismo. Seja doando dinheiro para pregadores inescrupulosos. Seja indo a igreja quase todo dia…

Por fim, buscar experiência nos leva a simplesmente mergulhar no mundo dos ritos religiosos. Dessa forma, negamos a vida, a existência, as coisas boas e belas que estão a nossa volta. Perdemos a chance de experienciar Deus no cotidiano, nos encontros com amigos, na risada livre e solta, no amor dedicado a quem amamos, no pão conquistado com o suor dos nossos rostos. Para mim, desculpem a franqueza, buscar experiências religiosas nos faz perder a chance de experimentar, de fato, a presença do Divino, do Totalmente Outro, do Luminoso, de Deus, em cada segundo das nossas vidas.

Enlouquecidos pela Religião

uruguaianaÉ estranho como alguns fatos parecem me perseguir. Ontem eu estava no camelódromo da Uruguaiana, um conhecido centro de compras popular, no Rio de Janeiro. Eu estava comprando um carregador para celular e, enquanto eu negociava com o vendedor, comecei a ouvir uma conversar mais exaltada vinda do stand de vendas que ficava em frente. Neste primeiro momento, era possível ouvir algumas palavras familiares sendo pronunciadas com certo medo, entre elas: Deus.

tabacariaQuando terminei de comprar o produto, pude entender melhor a cena. Um homem alto e magro, na casa dos seus trinta anos, vestindo bermuda, camiseta e chinelo, segurando um cigarro recém-comprado, discutia calorosamente com a vendedora do stand, que era uma tabacaria. Pelo que percebi, a vendedora, que parecia ter certa intimidade com o cliente, havia estranhado o fato de ele estar comprando um cigarro, já que o mesmo, em tempos passados, havia entrado para uma igreja e abandonado o vício.

arrancando-os-cabelos-300x195Ao ser questionado, o homem foi tomado por um grande assombro, parecia transtornado, enlouquecido, fora de si. Ele começou então a dizer repetidamente, em alta voz, de modo atropelado: “Eu fui pra igreja, mas não consegui abandonar o cigarro. Eu fiz Jejum, orei no monte, fiz tudo que eles mandaram, mas não adiantou nada, estou do mesmo jeito, até pior”. Ele foi interrompido pela vendedora da tabacaria que citou para ele um clichê evangélico extraído de um antigo hino: “Mas está escrito: ‘Eu venho como estou’”.

Neste momento, o transtorno do homem cresceu exponencialmente. O pavor era transparente em seus olhos. Então ele começou a dizer: “Eu fui como estava, mas agora é pior porque eu sei os estatutos de Deus e estou fazendo o que ele não gosta. Deus vai me castigar e agora vai ser muito pior”. A garota da tabacaria retrucou: “Mas Deus é amor”.

O homem caminhou rapidamente em direção à garota, apontando o dedo, quase gritando: “Deus é amor, mas também é justiça. Ele é um fogo consumidor. Agora ele vai me castigar, vai acabar comigo. Eu não tenho desculpas, mas não tem jeito, eu jejuei, fui ao monte, eu fiz tudo, mas não consegui. Vai ser pior agora. Vai ser pior agora”.

O rapaz deu uma tragada profunda em seu cigarro e saiu apressadamente pela rua, transtornado, repetindo suas últimas palavras: “Vai ser pior agora”.

A cena ficou gravada como um filme em minha mente e, enquanto eu caminhava em direção à estação das Barcas, fui fazendo algumas reflexões.

de-onde-vem-seu-medo-6-40É extremamente ruim o que boa parte das igrejas anda fazendo com as pessoas, pois ensinam um conceito de Deus que mais adoece os homens do que trás cura. Ensinam um Deus impossível de se relacionar. Um Deus que está lá longe e precisa ser agradado a qualquer preço, pois caso não seja agrado não se fará de tímido na hora de castigar e punir. Falam que Deus ama, mas ama condicionalmente. Ama aqueles que fazem tudo direitinho, tudo certo, que cumprem todos os mandamentos, tantos os da bíblia como os inventados pela religião/tradição. Neste sentido, Deus se torna a própria personificação do mal, do pavor, do medo, pois ninguém faz tudo certinho. Aquele pobre homem sentia um pavor louco de Deus. Ele cria em Deus, mas estava esperando apenas o momento em que Deus o sentenciaria, sem dó nem piedade, por conta do seu cigarro, dos seus vícios. Pobre alma atormentada por um arquétipo divino inventado pelos homens.

Já faz um tempo que, no alto das minhas crises com a igreja institucionalizada, eu cheguei a pensar que seria melhor não levar mais ninguém para igreja, pois as igrejas estavam deixando as pessoas piores do que antes. Hoje, não penso de maneira tão radical, mas não sai da minha cabeça que para muita gente era melhor nunca ter conhecido ou entrado em determinadas igrejas. O homem em questão é um exemplo. A igreja o enlouqueceu, o transtornou. Ele anda pelas ruas com medo e pavor, pensando que Deus está de tocaia em cada esquina ou poste esperando ele passar para acertar as contas.

medo1Alguém pode dizer que este homem é uma exceção. Eu digo que é uma exceção comum que está virando regra. Tenho encontrado com diversas pessoas com os mesmos sintomas, os mesmos medos, os mesmos pavores, mas só que em menor escala. Os hospitais psiquiátricos estão abarrotados de loucos religiosos. Encontro pessoas apavoradas porque faltaram um culto, uma vigília, porque deram menos de 10% de dízimo em um mês. Encontro pessoas que cometeram um erro e não conseguem se livrar da culpa, não conseguem sentir o perdão e a cura. E os líderes ainda colaboram para o transtorno , já que vivem dizendo: “Quem perdeu o culto tal, perdeu a bênção”, “Quem perdeu a vigília, perdeu a bênção”, “Quem não deu o dízimo não vai ser abençoado”. E por aí vai. Recursos mesquinhos para encher templos, mas que podem causar grandes problemas no relacionamento das pessoas com Deus.

O clichê evangélico usado pela vendedora da tabacaria – “Eu venho como estou” – deveria deixar de ser um mero clichê para se tornar uma realidade experiencial da igreja. Na verdade, deveríamos entender e ensinar que podemos e devemos ir como estamos a Deus, não somente uma vez, mas todos os dias das nossas vidas. Jesus me mostrou que Deus não está de braços abertos somente para aqueles que fazem tudo certinho e cumprem todos os rituais inventados pela religião, mas o está principalmente para os pecadores que se assumem como tais. Por isso, João diz: “Se alguém diz não ter pecado é mentiroso”. E ainda: “Escrevo estas coisas para que ninguém peque, mas, se alguém pecar, temos um advogado junto a Deus, a saber: Jesus Cristo, o justo”. Isso porque “Ainda não somos o que haveremos de ser”.

carinho deusMeu convite a você é para que você vá a Deus todo dia, toda hora, sem medo, sem pavor. Vá sempre como você estiver, do jeito que você é. Quando você falhar, saiba que o mundo inteiro poderá atirar pedras, mas Deus será o primeiro a oferecer o perdão e a cura. Quando você se achar a pior pessoa do mundo, corra para o colo do Pai, pois as mãos dele não irão pesar sobre sua cabeça, mas irão acariciar o seu rosto e enxugar dos seus olhos toda lágrima. Não perca tempo. Não tenha medo. Vá sempre a Deus do jeito que você estiver. E lembre-se, como diz Ed René Kivitz: “O amor de Deus só é suficiente para que você não viva de qualquer jeito se você tiver consciência que Deus vai continuar lhe amando mesmo se você viver de qualquer jeito”.

Uma antiga nova dimensão

É muito comum no início do ano as pessoas tentarem definir planos e metas para fazer do novo ano algo diferente, melhor. É lugar comum dizer que as pessoas decidem começar a malhar, fazer faculdade, terminar um curso incompleto, começar um namoro, uma dieta, se casar, trocar de emprego, de igreja e infinitas outras coisas.

Muita gente também decide que no novo ano tentará ter um relacionamento melhor com Deus. Uns decidem ter mais compromisso com a igreja local, deixar de fazer coisas que consideram erradas e passar a fazer coisas que consideram corretas.

Isso tudo é normal, entra ano e sai ano será sempre igual. “Nada de novo debaixo do sol”, já dizia o pregador rabugento de Eclesiastes.

O que me deixou intrigado foram as propagandas de igrejas para o início do ano. Uma delas estava realizando uma campanha de sete quartas de oração para ter doze meses de provisão e bênçãos de Deus.

Eles foram geniais. “Vamos resolver o ano em uma tacada”, eles pensaram. Vamos dedicar sete dias orando para que Deus abençoe o ano inteiro. Por que sete? Um número cabalístico. Um pouco de mandinga e mística judaica para forçar uma barra com Deus.

O interessante é a falta de noção dos líderes. Eles têm certeza que se o cara for os sete dias orar lá com eles Deus vai abençoar os doze meses do ano? E se ocorrerem tragédias na vida das pessoas que forem nos sete dias? O que os líderes vão dizer? Que eles não oraram direito? Que tiveram pouca fé? Que estão em pecado? Que não ofertaram o suficiente?

Esse foi um exemplo. Coloquei para refletirmos, pensarmos. Não são sete dias de oração. Não é nenhuma campanha de vitória. Não é vigília atrás de vigília. Não é nada disso que fará com que Deus nos abençoe. Já escrevi e não me cansarei de escrever e dizer que buscar Deus por causa de bênçãos, em uma relação de obrigações e benefícios, é loucura, é reduzir Deus a um ídolo, a um deuzinho qualquer. Deus quer relacionamento. Deus quer que vivamos com Ele. Deus quer que abençoemos vidas e não que fiquemos como loucos alienados trancados em templos, vigília atrás de vigília, caçando bênçãos.

O pior é que o povo é atraído por esse tipo de coisa e os líderes se aproveitam disso. Querem encher templos. No final, o que temos são decepcionados. Pessoas feridas. Porque prometem bênçãos em nome de Deus, como se o próprio Deus prometesse, mas esquecem que Deus não pode ser controlado ou domado, Deus não se pode convencer com cultos, vigílias, oferendas ou musiquinhas. Deus é Deus e faz o que quer na hora que quer e como quer.

O mundo evangelho precisa recuperar o horizonte da graça e da Cruz. Sem isso, nos tornamos caçadores de recompensas, que buscam a Deus por ganância ou mesmo medo, no máximo, culpa. Com a Cruz e a graça de lado, somos presas fáceis para os macumbeiros gospels de plantão. Somos atraídos pra toda sorte de campanhas, vigílias, correntes. Passamos a acreditar que podemos obrigar Deus a agir como queremos, a nos abençoar de qualquer jeito. Transformamos Deus em um ídolo.

Entretanto, se mantivermos os olhos na Graça e na Cruz do Cristo, recuperaremos a boa mística cristã, que nos leva a experienciar, aqui e agora, um Deus em nós que não está lá fora, longe, com as mãos encolhidas, fazendo pirraça esperando nossas oferendas. Pelo contrário, entendemos que Deus é aquele que, independentemente dos nossos despachos evangélicos, “trabalha até agora”.

Nesta boa mística, compreendemos que o mundo natural no qual vivemos não é tudo que há, pois contemplamos uma dimensão mais profunda da existência – a dimensão espiritual. No entanto, isso não nos torna semideuses, ou alienígenas, como se não vivêssemos aqui ou não dependêssemos deste mundo. Na verdade aprendemos a ser de fato humanos, tendo como referência as pegadas deixadas por Jesus de Nazaré.

O ponto central é: quanto mais “santos” ou “espirituais” formos, mais verdadeiramente humanos seremos. Sentiremos a dor do outro e a dor da terra. Dançaremos e choraremos juntos. Daremos as mãos para lutarmos pelo direito do oprimido e do excluído.
A boa mística cristã, revelada nos mistérios da Cruz e da graça, nos faz perceber o “Deus em Nós” que, nas palavras de Hugo Assmann, “se revela no amor solidário ao próximo”.
Para terminar, deixo a frase de Leonardo Boff: “Jesus Cristo era tão humano que só podia ser Deus”.

Crer sem pertencer

b600-estatisticas-evangelicos-sem-igrejaHá pouco mais de um ano, uma reportagem da Folha de São Paulo causou um verdadeiro frenesi nos sites e blogs evangélicos espalhados pela internet. A matéria trazia o seguinte título: “SOBE TOTAL DE EVANGÉLICOS SEM VÍNCULOS COM IGREJAS”. O texto usava como base para argumentação os dados da “POF – Pesquisa de Orçamentos Familiares”, do IBGE, que foram confirmados pelos números do Censo 2010. Segundo o levantamento, entre 2003 e 2009, o percentual de evangélicos sem vínculo institucional subiu de 4% em 2003 para 14% em  2009, em números, isso significa um aumento de 4 milhões de pessoas.

Os dados são realmente alarmantes, assustadores, mostrando que 14% dos evangélicos não estão em nenhuma igreja. Confessam a fé, declaram-se evangélicos, mas não pertencem a nenhuma comunidade. Para muitos, o mundo evangélico começa a experimentar um pouco da realidade do catolicismo, na qual se confessa a crença, mas não se pratica efetivamente. Mesmo assim, a pergunta que fica no ar é: “Por que os evangélicos estão abandonando as igrejas?”. Há muitas pesquisas que tentam responder essa pergunta.

A própria matéria da Folha estava embasada pelas opiniões de antropólogos e sociólogos.  Em comum as pesquisas revelam que as pessoas estão cansadas do modelo eclesial vigente, no qual se valoriza mais a instituição do que o ser humano, ou seja, o fiel se transforma em mercadoria religiosa, disputada pelas mais variadas denominações que tentam se colocar como legítimas representantes de Cristo, únicas detentoras da verdade.

igreja(4)É interessante notar que em junho de 2007 a revista Enfoque Gospel publicou uma matéria que apontava razões pelas quais os fieis estavam abandonando as igrejas. Isso mostra que o assunto preocupa não é de hoje. As razões que a matéria levantou giravam em torno de problemas institucionais, como não achar uma tarefa para se engajar, mudanças do jeito de ser da comunidade religiosa, reclamações da liderança, hipocrisia dos irmãos etc.

Tudo isso seria efeito colateral da institucionalização exagerada, que deixaria as pessoas em segundo plano, tratando-as como mercadoria. Essa insatisfação generalizada e crescente é uma das causas do aumento de números de novas igrejas independentes, sem vinculo com nenhuma denominação já existente. Mas, nota-se que, apesar de o número de igrejas independentes crescer, o número dos sem igreja e dos sem vínculo cresce numa proporção ainda maior. A razão é simples: essas novas igrejas não apresentam, em essência, uma nova proposta, um novo jeito de ser. Em tese, nascem como uma alternativa, mas, na prática, vão se tornando apenas mais uma instituição, caindo nos mesmos vícios que antes condenavam.

Estamos longe de entender tudo que está relacionado a esse fenômeno, mas o certo é que estamos diante de uma crise, com problemas, desafios e oportunidades. Não há como apontar saídas para o mundo evangélico em si, pois ele já trilha uma estrada quase sem volta. Neste sentido, precisamos reforçar a nossa identidade enquanto igreja, comunidade de fé. Precisamos continuar sendo uma “igreja para quem não gosta de igreja”, ou seja, sendo um abrigo, uma família cristã, para abraçar, cuidar e amar aqueles que se machucaram, decepcionaram-se, desiludiram-se com as igrejas que tratavam a fé de maneira institucionalizada demais ou, até mesmo, como mercadoria barata. Precisamos reforçar nossas dimensões comunitárias, entendendo que nosso chamado é para compartilhar a vida uns com os outros e, assim, sermos uma alternativa real ao modelo de igreja mercadológico que impera em nosso tempo. Hoje, as pessoas creem, mas não querem pertencer. Precisamos continuar sendo uma comunidade da qual as pessoas tenham orgulho de fazer parte, na qual se possa crer e pertencer.

Simpatia Gospel

Sempre escrevo a partir do cotidiano, dos acontecimentos e dos encontros da vida. Também escrevo a partir de lembranças, coisas que ouvi ou vivi, coisas que vi acontecer, coisas que fiz. É normal, ao olhar para trás, reler a vida com outros olhos, enxergando a partir de outras e novas perspectivas. Com já dizia o antigo filósofo: “Não é possível se banhar duas vezes no mesmo rio”.

Assim, revistando a minha memória, lembrei coisas que me fizeram refletir.

A primeira delas diz respeito a um pastor que disse que sempre que saía de casa de manhã recitava o Salmo 23 completo, com o intuito invocar a presença de Deus. Por várias vezes o vi dizer que Deus o livrou de determinados perigos porque ele havia orado de manhã e recitado o Salmo que, neste caso, funcionava como um mantra ou uma simpatia. Se recito o Salmo Deus me livra, caso contrário o mal chega a mim.

Passei por muitos problemas comuns em companhia de outras pessoas cristãs. Problemas da vida, como um acidente de carro, um pneu furado, um radiador que ferveu, uma chave de casa perdida, uma carteira roubada ou esquecida e infinitos outros. O interessante é que sempre aparecia alguém para questionar nossas atividades com o sagrado. “Vocês oraram antes de sair de casa? Fizeram o culto doméstico? Leram a bíblia?”. Com as perguntas, a pessoa estava querendo dizer que o mal está vindo sobre nós porque deixamos de cumprir nossos deveres religiosos.

O engraçado era quando havíamos cumprido todos os nossos deveres e mesmo assim um mal ocorria. Então, alguém levantava e dizia: “Estão vendo, se não tivéssemos orado, poderia ter ocorrido algo bem pior. Precisamos buscar mais o Senhor”.

Um último fato também se relaciona a encontros com outros cristãos. Vez ou outra aparecia alguém sugerindo que cada um dos presentes tirasse um versinho da caixinha de promessas para recitar pro grupo. Como é um evento aleatório, as pessoas recebiam como se fosse Deus falando para vida delas naquele momento, não importando o contexto em que o verso estava presente, nem o período histórico. Os versos funcionavam como cartas de tarô e sempre tinham uma boa promessa, algo positivo. Vez ou outra alguém ainda fazia comentários do tipo: “Viu o que diz o verso? Deus tem algo grande para sua vida”. Impressionante, mas nunca apareceu em uma caixa de promessa versos do tipo: “Vende tudo que tem e dá aos pobres”, “Nem todo que me diz: ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino de Deus”.

Esses fatos mostram que tratamos Deus como objeto ou mesmo um gênio da lâmpada mágica. Mostra o quanto transformamos a fé cristã em superstição. Mostra também que achamos que para Deus nos proteger ou cuidar de nós precisamos cumprir algumas tarefas, como orar, recitar salmos em forma de mantra, ler a bíblia por obrigação e não devoção. A maioria dos cristão acha abominável deixar uma cigana ler a mão ou ir a uma cartomante para ver o que as cartas dizem (para mim é inutilidade), mas usa caixinhas de promessas (tarô gospel) para tentar saber o que Deus tem para sua vida, pois as mesmas funcionam como uma espécie de horóscopo gospel ou algo do tipo. Como diz Ed René Kivitz: “O mundo evangélico está mais preocupado em fazer Deus funcionar do que em se relacionar com Ele”.

Termino citando uma das minhas frases preferidas do Philip Yancey: “Graça significa que não há nada que possamos fazer para Deus nos amar mais e nada que possamos fazer para ele nos amar menos”. Não há nenhuma simpatia, nenhum ritual, nenhum dever religioso que obrigará Deus a fazer o que queremos que Ele faça. Como diz Jesus de Nazaré: “O meu Pai trabalha até agora” e “sabe do que precisamos antes de pedirmos”. Então, sem simpatia, sem neuras, sem medo de perder bênção ou ocorrer o mal, busquemos a Deus não para fazê-lo funcionar ou nos amar mais, porém para simplesmente nos relacionarmos com Ele, tendo-o como o Pai de amor, o amigo fiel, mas nunca como o gênio da lâmpada.

Obama x Fundamentalistas

Acompanhei as eleições americanas com certa apreensão. Eu confesso que estava ligado na Globo News e praticamente não dormi essa noite. Quando vi que Obama venceu, senti um alívio pelo mundo. Tudo que o mundo menos precisava agora é de mais um fundamentalista político/religioso e xenofóbico assumindo o poder da nação com maior poderio bélico do planeta. Muitos dizem que Obama não é boa opção devido às opiniões dele a respeito dos gays e do aborto. Para mim, os gays, as prostitutas, as adolescentes grávidas e toda uma gama de excluídos precisam ser abraçados e cuidados pela igreja. O que adianta proibir casamento gay se homens vão continuar dormindo junto? A menos que se faça como nos países islâmicos que declaram o próprio homossexualismo como crime. E mesmo nos países onde homossexualismo é crime há homens e mulheres que o praticam, inclusive de maneira forçada (Há países que se um homem for estuprado por outro pode ser condenado por homossexualismo forçado, dá para entender?). E digo que muito fundamentalista cristão gostaria que fosse assim nos EUA e no Brasil. Não estou falando de liberalismo, mas tenho me convencido que as pessoas nas quais a igreja mais bate e acusa hoje seriam as mais amadas e protegidas pelo Cristo.

Não estou falando de um fundamentalismo clássico, no qual se crê em algumas coisas como imutáveis, mas falo de algo perverso, que exclui o outro.
Muitos que consideram os gays como os piores seres do mundo estão nas igrejas fazendo fofoca, negam a fala ao outro, não perdoam, brigam por cargos nas igrejas e denominações, fazem calúnias e difamações, em muitos casos mantém relações extra conjugais por anos por baixo dos panos, quando não desejam as meninas e meninos das igrejas e até consumam esses desejos.
Eu não sou melhor que nenhum desses, sou pior. E por isso não quero escolher nenhum grupo para Judas, nem mesmo os fundamentalistas ou liberais, enquanto escondo meu câncer debaixo de um “terno armani”. Aquele que não tem teto de vidro atire a primeira pedra. Aquele sem pecado atire a primeira pedra. Eu sou pecador. Meu teto é de vidro. Que o Senhor me ajude a não jogar pedras nem mesmo como resposta aqueles que me apedrejam. Aqui está minha outra face, é só bater.

Os Dízimos e as Bênçãos de Deus

Há alguns dias, alguns amigos e eu estávamos conversando sobre um amigo comum, não era bem fofoca, mas estava quase nesse nível. O amigo em comum é um profissional liberal e alguns amigos da roda estavam dizendo que ele ganhava muito bem e não entendiam como ele não tinha um carro. Eu argumentei dizendo que ele sustentava a família sozinho e por isso não era possível adquirir um bem tão caro. A conversa estava girando nestes dois eixos: uns dizendo que ele podia e outros que ele não podia comprar um carro. Foi quando uma das pessoas disse: “Ele ganha bem, mas não tem um carro porque não serve a Deus e não dá o dízimo”. Eu fiquei estarrecido com o comentário e na hora preferi não continuar a conversa.

Algumas coisas me vieram à mente. Para começar, conheço muitas pessoas que nunca pisaram na igreja e muito menos deram dízimo que tem carros bons e casas boas. Também conheço pessoas que são de igreja, mas nunca deram o dízimo e, contudo, tem bons carros, empregos e casas boas. Para piorar, conheço pessoas que foram dizimistas a vida inteira, mas nunca conseguiram comprar um carrinho velho e vivem uma vida simples. Sem contar que há muita gente que dá o dízimo e para ter um carro precisa pagar em infinitas prestações, se privando de muitas coisas, quase não tendo dinheiro nem para colocar gasolina no carro ou fazer as revisões. Isso é bênção ou a pessoa se ludibriou com esse mundo capitalista e deu um passo maior que as pernas? Era a questão do salmista: “Por que os ímpios prosperam?”.

Não preciso responder essa pergunta agora. Talvez prosperem porque trabalham ou porque deram sorte ou, até mesmo, porque Deus os abençoou para mostrar que o “sol brilha sobre os bons e sobre os maus”. O que me intrigada não é o fato dos não cristãos que não entregam o dízimo prosperarem, mas alguém achar que um cristão só é abençoado quando entrega o dízimo.

Esse sistema de trocas me entristece bastante. É um relacionamento com Deus negociado, sempre esperando algo. Muita gente esquece que, na vida, a maior bênção que podemos ter é andar com Deus e não as coisas que ele pode ou não nos dar. Eu prometo que não queria falar de religião, mas quando me deparo com essas coisas, eu vejo que Deus está sendo reduzido a um deuzinho tribal, e não consigo deixar de falar ou escrever.

Eu não acredito que dízimos e ofertas sejam um meio para se alcançar à bênção de Deus, mas sim uma forma de abençoarmos outras pessoas e a comunidade na qual estamos inseridos. A bênção não é o que vamos ganhar por darmos um dízimo ou uma oferta, mas é o simples ato de nos despirmos de nosso egoísmo para contribuir com o outro.

Hoje, o que tem se mostrado complicado é que tem muita gente usando as contribuições dos irmãos para benefício próprio. Basta ver o pessoal da mídia. No entanto, neste assunto, precisarmos ter consciência comunitária e discernimento. Quando somos cristãos e fazemos parte de uma comunidade cristã, nada mais justo do que contribuir para mantê-la funcionando e para suprir a necessidade daqueles que tem menos. A maioria das comunidades precisam de um local para se reunir, pagam contas de energia e telefone, precisam de móveis, pagam zeladores e etc. E todos que fazemos parte precisamos colaborar. Seria dez por cento? As ofertas devem ser entregues só na igreja? Não vou responder essas questões, cada um contribua segundo o que Deus colocar no coração e com quem (ou onde) desejar, mas é certo que precisamos ter discernimento. Precisamos saber como o dinheiro que damos está sendo usado e gerido. Há muita gente se aproveitando da boa fé das pessoas e explorando de tudo que é jeito possível. É preciso consciência e discernimento.

Eu sempre digo que falta honestidade hoje em dia e, até mesmo, caráter. Uma pessoa normal, criada na igreja, tem essa mentalidade de entregar o dízimo para ser abençoada porque foi ensinada assim, talvez nem tenha culpa. Chateia-me é ver líderes, que estudaram teologia, ensinando barganha com Deus, sistema de trocas, busca louca por bênçãos. Eu proponho uma coisa: ensine a abençoar vidas ao invés de buscar bênçãos. Mas ensine a abençoar não como a forma mais nova e reveladora de se arrumar mais bênçãos ainda, ensine a abençoar e a dar, a se doar, como a forma mais sublime de se viver o cristianismo. O resto é com Deus.

Tudo bem, você vai mandar eu ler Malaquias 3.10 e eu vou mandar você ler o texto todo e o contexto histórico e depois ler o que o Novo Testamento fala do assunto, depois que você fizer isso, a gente volta a conversar, porque eu já li Malaquias 3.10. E doutrina de versinho isolado está mais para simpatia gospel do que teologia cristã.