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Por que só a música é sagrada?

Às vezes, vejo em algumas igrejas campanhas do tipo “troque uma banda do mundo por uma banda evangélica”. Não raro, sou questionado se é certo ou errado ouvir músicas mundanas. Há pouco tempo ouvi dizer de um casal que brigava porque um achava errado ouvir músicas do mundo e o outro não. Eu confesso que já me questionei muito a respeito, principalmente em minha adolescência. Eu me perguntava, com sinceridade, se era certo ou errado ouvir músicas “mundanas”, ir a shows e etc. Hoje, não mais me pergunto sobre isso, mas, aproveitando o clima de “Rock in Rio”, apenas quero compartilhar algumas impressões sobre o assunto.

A pergunta que faço é: por que a mesma questão não é levantada a respeito de filmes, livros, novelas, televisão, artes e demais formas de manifestações artísticas e culturais? Por que a música merece atenção especial? Seria a música superior a outras manifestações artísticas?

Eu nunca vi um jovem ser recriminado, dentro da igreja, porque gosta de filmes de terror ou romance. Nunca vi ninguém ser taxado de “crente mundano” porque gosta de ler livros de filosofia, romances, ficção e outros mais. Nunca vi ninguém ser rebaixado em seu grau de santidade porque admira obras de arte. Na verdade, dentro das igrejas emergentes, pseudo- intelectuais que gostam de livros, filmes “cult” e artes são tidos como pessoas inteligentes, sendo até elogiadas. Nenhum problema com isso. Mas por que o jovem que escuta uma música “não gospel” é convidado a trocar sua banda preferida por uma banda evangélica? Por que também não se fazem campanhas convidando pessoas a deixar de ler um livro “mundano” para ler um evangélico? Por que as pessoas não são convidadas a largar um canal mundano para assistir somente a canais evangélicos? Por que as pessoas não são convidadas a largar os filmes hollywoodianos para ficarem somente com os evangélicos? (acabo de bater na madeira três vezes)

Em um tempo passado, sei que já se chegou a esse nível de radicalidade. Também tenho visto exemplos de igrejas radicais que estabelecem proibições severas aos seus membros, quando o assunto é “coisas do mundo”. Alguns, buscando um grau de santidade tão grande, realmente tentam se separar de tudo que não tenha o rótulo gospel. Mas será que esse é o caminho?

Em minha particularidade, prefiro não lidar de modo radical com isso, mas minha melhor impressão sobre o assunto repousa na minha pergunta título: “Por que só a música é sagrada?” Se repararmos, historicamente a música é a manifestação artística mais utilizada pelos cristãos. É evidente que há outras, mas a música é, pelo seu apelo ao coração e pela sua fácil disseminação, a forma cristã de arte mais usada e difundida em todas as camadas. Não é por acaso que a mídia evangélica tem como seu motor principal a música. Música gospel no Brasil vende tanto quanto música secular. As principais rádios evangélicas disputam, em muitos momentos, a liderança da audiência com rádios normais. Igrejas da mídia como a Universal, Internacional da Graça, e todas as outras da TV possuem gravadoras e seu quadro particular de artistas gospel.

Por conta disso, a questão transcendeu aos limites meramente religiosos e atingiu os limites do comércio. É uma guerra comercial. Se um jovem escuta uma banda secular ele compra o CD da banda secular e deixa de comprar um CD gospel. Ele vai ao show da banda secular e deixa de pagar para ir ao show gospel. Isso, em larga escala, significa milhões de reais (ou dólares) envolvidos. Talvez, por isso, haja essa campanha voraz em direção à música. De outro modo, por que não há também em direção a outras manifestações artísticas? Talvez quando o cinema e outras expressões gospel’s começarem a evoluir o suficiente para precisarem do dinheiro dos fieis para manter seus luxos, essas expressões em suas versões seculares começarão a ser atacadas, não por consciência cristã ou teológica, mas por amor ao bolso do povo.

O que mais me deixa indignado é a forma como a coisa é feita. Dizem para um jovem que ele está perdendo bênçãos de Deus porque ele tem um CD do mundo em casa. Dizem que ele não cresce espiritualmente porque ele gosta de determinada banda. Fazem manipulações do tipo “é melhor abençoar um irmão comprando um CD evangélico e pagando o ingresso do seu show do que dar dinheiro para artistas do mundo”. Talvez por isso, os principais artistas do gospel vivam no luxo. Sinceramente, o mundo evangélico carece de honestidade e integridade. É hora de deixar de lado o domínio político que brota de um pretenso domínio do conhecimento das coisas de Deus e abraçar a liberdade de consciência.

Há muitas outras questões que mostram a desonestidade gospel neste assunto. Sempre atacamos as bandas seculares que estão na mídia e com possibilidades de vender CD’s, mas os gostos dos mais “antigos” são considerados menos nocivos. Já vi pastor falando mal de música mundana, mas dizendo que Roberto Carlos era diferente. Isso faz sentido? Sim, como ele gostava de Roberto Carlos, logo este precisava ser menos “do mundo” que os outros do mundo. A falta de honestidade que impera em nosso meio é tanta que conseguem classificar músicas do mundo em boa e ruim para o crente, e isso só é possível dentro do critério do gosto pessoal de quem classifica, porque gosto é gosto.

Por fim, acho um pecado artístico querer obrigar um jovem a ouvir música gospel, demonizando as bandas que ele gosta naturalmente. Meia hora ouvindo as rádios evangélicas me faz odiar a música de todo o meu coração. Letras horríveis e sem poesia, além de uma qualidade musical extremamente baixa, salvo raras exceções. Não há como me fazer gostar de algo simplesmente com pressões pseudo-teológicas, com cunho financeiro. Antes de me convencer a escutar música gospel, é melhor mandar o meio gospel aprender a compor com arte e poesia profunda, conectada com a realidade. Se olho para a natureza como uma obra de arte de um grande artista, se encaro os sons dos pássaros como belas sinfonias naturais, eu me percebo diante de um Deus que ama a arte e a beleza. Eu admiro as manifestações artísticas genuínas, porque creio que há uma graça comum derramada que faz do homem capaz de ver a beleza e expressar a beleza, de várias formas, inclusive a arte e, dentro desta, a música pela música, sem rótulos. Por esse prisma, a arte, seja ela qual for, transcende à politicagem religiosa de sagrado e profano. A arte, por si só, é sagrada.

NEVERMIND – O que ainda temos a dizer?

Eu lembro como se fosse hoje. Era um dia comum, desses que parecem que não vão dar em nada. O velho modo de vida deflagrado por Renato Russo em “Eduardo e Mônica” – o “esquema escola/cinema/clube/televisão” – parecia ser a melhor pedida para um adolescente, exceto pelo fato de não se ter o dinheiro para o cinema e o clube, reduzindo o esquema a simplesmente “escola/televisão”.

Sim, de fato, seria um dia normal se não fosse um único fato, um fato que mudaria tudo para sempre. Eu cheguei em casa, como sempre, na hora do almoço e meu primo Marcel, que sempre foi como um irmão, chegou um pouco depois. Eu lembro que colocamos algumas músicas para escutar enquanto conversávamos, até que ele disse: ‘tenho uma música aqui que você vai se amarrar’. Ele pegou uma fita cassete que tinha várias músicas gravadas do rádio (cidade do rock) e a primeira delas era “Smells Like Teen Spirit” do Nirvana. Já nos primeiros acordes da música eu percebi que estava diante de algo completamente diferente, mas foi na entrada do coro, onde a guitarra pesada entrou em perfeita harmonia com a voz rouca e estridente de Kurt Cobain, que a música me ganhou por completo e me tornei, digamos, um ‘fã’ do Nirvava.

O tempo passou a ponto de comemorarmos, dia 24 de setembro de 2011, o vigésimo aniversário de Nevermind, o álbum que mudou os rumos do rock e do pop. Para muitos, o Nirvana não passou de uma banda de Rock barulhenta, formada por drogados revoltados, que tocavam músicas maneiras. No entanto, as revistas especializadas em música pelo mundo a fora já começaram a fazer coro, constatando que 20 anos após Nevermind nenhuma banda conseguiu revolucionar o mundo da música novamente. Tudo que se teve até agora foram pífias tentativas ou, no máximo, “mais do mesmo”. O que fez do Nirvana uma banda diferente?

Entre muitas coisas que eu poderia dizer, abro mão para fazer coro com a maioria das publicações que li: simplesmente, o Nirvana foi a última banda em 20 anos que teve algo a dizer, sem contar o fato de ter sido a primeira banda a dizer algo após os apáticos anos 80, década em que a música mergulhou de vez no mercado do entretenimento vazio. Nesse cenário de nada vezes nada, o Nirvana com letras quase indecifráveis aparece com uma crítica contundente à apatia de sua própria geração. Não é preciso ser um gênio para entender que a famosa capa do Nevermind, com um neném nadando atrás de uma nota de dólar, é uma crítica ao fato de já nascermos capitalistas, correndo atrás de dinheiro, vivendo por ele e para ele.

Nos anos que se seguiram ao fim do Nirvana em 1994, após a trágica morte de seu líder, Kurt Cobain, a humanidade e o mundo da música mergulharam novamente em sua apatia letárgica. Assistimos, passivamente, no máximo chocados, ao ataque terrorista às torres gêmeas e a alguns outros ataques de menor vulto ou comoção pelo resto do mundo. Assistimos os americanos invadindo o Afeganistão e o Iraque, o que no máximo gerou protestos isolados. Ficamos preocupados com o futuro do capitalismo quando assistimos à quebradeira geral das bolsas de valores pelo mundo, no evento que ficou conhecido como a crise financeira de 2008, gerada pela ganância de homens que arriscam tudo para poder “tomar café em uma cafeteria melhor”.

E ao que mais assistimos? Assistimos às guerras civis devastando o continente africano, levando pessoas à fome e à miséria. Até nos comovemos com as fotos de crianças esqueléticas, implorando por comida, mas mantemos o nossos estilo de vida capitalista como um câncer que consome o planeta e mata de fome nossos semelhantes, renegando o sonho do reino à mera utopia.

Estamos assistindo ao governo comprando a esquerda com um pseudo estado de bem-estar social e calando a boca dos mais pobres com esmolas mensais ou com a possibilidade de comprarem uma TV maior em 12 parcelas bombadas com juros, enquanto os níveis de corrupção atingem números endêmicos. Afinal, “A minha felicidade é um crediário nas Casas Bahia”, já diziam os Mamonas Assassinas. Simplesmente assistimos e assistimos, de modo apático e passivo, simplesmente, assistimos. Ninguém se atreve a dizer mais nada.

Vejo, passivamente, todos os dias, em meu país, crianças pelas ruas, velhos jogados, viciados em crack. Meu coração se parte, escrevo um texto sobre o assunto, mas 10 minutos depois estou alimentando o “American Drean” e mantendo o maldito “American way of life”mais vivo do que antes. E eu não me atrevo a dizer nada. E muito menos me atrevo a mudar.

Infelizmente, a última geração que falou algo na música aqui no Brasil foi a geração de Legião Urbana, Cazuza, RPM, Capital Inical e outros. Hoje, tenho pena de uma juventude que é quase obrigada a ouvir KLB, Restart, Detonautas, NX-Zero e outras coisas que não dizem nada com nada. Pelo mundo, se alguém tem algo a dizer, ou está calado ou não teve paixão suficiente. Depois da primeira metade dos anos 90, tristemente, ninguém disse mais nada. Eu, infelizmente, nasci ouvindo os últimos ecos de uma geração que não tinha medo de levantar a voz , mas em pouco tempo, mergulhei na apatia da minha própria geração.

Dizem que uma profecia é uma moeda com um lado da denúncia e um outro lado que aponta para uma esperança no futuro. O Nirvana simplesmente denunciou um câncer: uma sociedade apática, vivendo para consumir e destruir o planeta, sem se preocupar com nada ou ninguém. Nas mãos de quem está o outro lado da profecia? Nas mãos de quem está a esperança? Nas mãos de quem está a cura do câncer social?

Eu termino com algumas perguntas: será que temos algo a dizer? E se temos, por que não temos dito? E se estamos dizendo, por que não somos ouvidos? Temos algo a dizer que possa mover as pessoas? Temos algo a dizer que possa fazer as pessoas se levantarem da apatia em busca de um mundo melhor?