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Por um Reino de Consciência

Há alguns detalhes do filme Cruzadas (Kingdom of Heaven) que me despertam um interesse profundo. O filme conta um pouco da história das guerras entre cristãos e muçulmanos pela conquista de Jerusalém, mais ou menos no final do primeiro milênio da era cristã. As guerras eram motivadas por questões religiosas, pois Jerusalém tem lugares considerados sagrados por ambas as religiões. Apesar de algumas imprecisões históricas, o filme tenta se localizar no final do século XII, época em que o sultão Saladino reconquista Jerusalém, cidade que os cristãos da primeira Cruzada haviam tomado em 1090 d.c.

Quando os cristão tomaram Jerusalém na primeira Cruzada, tentaram transformá-la no Reino de Deus na terra; por isso, a tradução do título original do filme é “Reino dos Céus”. No filme, Jerusalém era mostrada como uma cidade onde um rico é pobre e o pobre é rico; um senhor é escravo e um escravo é livre; uma cidade onde se pode encontrar o que se procura, inclusive o perdão. Jerusalém tentava ser um reino de justiça e equidade, um lugar onde cristãos, judeus e muçulmanos pudessem conviver, sendo um lugar comum de oração para todas as crenças. Entretanto, para se manter a paz eram necessário sacrifícios. Alguns cavaleiros templários tentavam cavar uma guerra a qualquer preço com os muçulmanos e sempre que descobertos eram condenados a morte em Jerusalém.

Em um momento delicado do filme, o rei de Jerusalém, prestes a morrer, se vê em um duro dilema. Ele não tinham herdeiros – o que levaria sua única irmã ao trono, juntamente com o marido dela, um cavaleiro templário, louco para estourar uma guerra entre cristãos e muçulmanos. Ele então propõe a um dos personagens centrais do filme que se casasse com sua irmã, mas para isso, o marido dela precisaria ser executado. Seria a velha máxima: “os fins justificam os meios”, pois de outro modo Jerusalém deixaria de ser o “Reino dos Céus”. Neste momento, o rei recebe uma resposta desconcertante: “Não posso fazer uma coisa dessas”, diz o personagem, “É um reino de consciência ou nada”.

Essa frase nunca mais saiu da minha mente, ficou impressa. Eu acho que no mundo cristão temos muito a aprender com ela. Vejo, hoje, evangélicos lutando para assumir o poder no congresso para lutar pela “moral cristã”, evitando que leis contrárias às suas tradições religiosas sejam aprovadas. Muitos sonham com o dia em que o país será governado por um evangélico e assim poderão impor à sociedade os padrões de vida cristãos. Sem casamento homossexual, sem aborto, sem provas aos domingos etc. Ou seja, seria uma espécie de “Reino dos Céus” imposto pela força, pela coercitividade da lei.

Do mesmo modo, vejo, em um universo mais restrito, a igreja tentando impor aos cristãos um modelo de vida encabrestado e fechado, definido pelo universo religioso particular. Forçando os cristãos a viverem um “Reino dos Céus” com base na força e persuasão religiosa. O que vale é cumprir regras e seguir tradições, mesmo sem um encontro genuíno com o Cristo ressurreto. Há muitos líderes que acham que discipulado é colocar um cabresto no discípulo para que este siga no caminho “correto”. Esquecem que o discipulado verdadeiro vem da inspiração de vida que o líder causa no liderado e não na força e persuasão religiosa. Cristão não é cavalo para ser encabrestado. Cristão é um ser humano consciente e que deve agir a partir da consciência livre em Cristo, não em cabrestos.

Eu não acredito que a virtude genuína possa brotar pela força e imposição. Não acredito que os valores do “Reino dos Céus” possam ser impostos. Ou vivemos a ética do Reino por consciência ou ela não tem valor. Ou, se preferirem, vivemos os preceitos da bíblia por consciência ou esses preceitos serão como nada. Como Jesus disse: “Deus procura adoradores que o adorem em espírito e em verdade”, em outras palavras, que o adorem com consciência. Culto sem consciência é nada. Adoração sem consciência é vácuo. Oferta sem amor é fumaça ao vento. É um reino que brota da mente e do coração ou nada. Não adianta cabresto, “É um Reino de consciência ou nada”.

Vivendo o Truque

Acho que foi há mais ou menos uns três anos que escrevi um artigo sobre o filme “O Grande Truque” para ser publicado na revista Atitude, literatura de jovens da Juerp. No entanto, nunca gostei muito de revistas para EBD e, por fim, não fiquei com nenhum exemplar. O arquivo, juntamente com alguns outros textos, perdeu-se quando formatei o HD do computador. Por ironia, algumas pessoas que tomaram conhecimento do texto me convidaram para falar sobre o mesmo em uma aula de EBD para jovens em uma igreja diferente da minha. Eu mesmo não lembro o que escrevi, mas aproveitei para rever o filme e, agora, vou tentar colocar minhas impressões neste texto e usar como base para conversar com aqueles jovens. O grande problema é que o “eu” que escreveu o texto há três anos está morto e não quero ressuscitá-lo, assim, o que vai sair agora pode ser bem diferente do que saiu na revista.

O filme, para mim, é de uma maestria incrível. Dirigido pelo aclamado Chris Nolan e estrelado por Christian Bale, Hugh Jackman e Michael Cane, consegue manter a trama num nível bastante elevado do começo ao fim, não permitindo distrações, ao preço de se perder por completo o entendimento do filme.

Basicamente, o filme conta a história de dois jovens mágicos, lutando por fama, disputando o melhor lugar no palco. Em uma das primeiras cenas, os dois são convidados a ir até um teatro, onde um velho chinês se apresenta, para desvendar o segredo do seu truque. No palco, apenas o chinês, uma mesa vazia e uma mesa com um aquário cheio de água e um peixinho dourado. O Chinês simplesmente passava um pano sobre o aquário e, ao suspender o pano, não havia mais nada. O velho caminhava com dificuldades até a outra mesa, passava o pano por ela e, num passe de mágica, o aquário surgia.   Como poderia ser isso?

Um dos mágicos rapidamente mata a questão. O chinês simplesmente segura o aquário entre as pernas e caminha até a outra mesa, passa o pano, e solta o aquário nela. Simples, não? Não Exatamente. Como um velho raquítico, fraco, que precisa de ajuda para andar conseguiria carregar um aquário de vidro, cheio de água? Na verdade, para o truque fazer sentido, o velho tinha que parecer fraco e debilitado, pois a única possibilidade para realização do truque seria justamente a primeira a ser rejeitada. O Chinês, em todas as suas aparições públicas, era visto sempre sendo ajudado e amparado, frágil e fraco. É aqui que mora o segredo e o grande pano de fundo do filme: o chinês tinha devoção total à arte. Ele não só realizava o truque, mas vivia o truque. A sua vida era o truque, por isso ninguém desvendava o segredo do truque.

Não vou me ater a mais detalhes do filme, talvez muitos que estejam lendo já tenham visto e, aos que não viram, sugiro que vejam, pois ainda não revelei nada do filme que vai se desdobrar em sacadas geniais. Por enquanto basta para pensar.

Ao ver o filme não pude deixar de fazer uma analogia com a vida cristã. Fiquei imaginando que a vida cristã, em muitos momentos, é como um truque, um grande truque. Eu olho isso através de dois aspectos, um negativo e outro positivo:

O ponto negativo se relaciona com o fato de a vida cristã ter se transformado com o passar do tempo em uma coleção de afazeres religiosos ao invés de uma experiência relacional com o Cristo ressurreto. Quando a vida cristã se transformou nisso, passamos a ser julgados pelo quanto sabíamos da vida religiosa e pelo quanto cumpríamos as regras religiosas. No entanto, regras religiosas não traduzem um relacionamento saudável com Deus e nem com o próximo, destruindo, também, a saúde mental de quem as segue. Assim, um bom cristão passa a ser conhecido por ir a todos os cultos, frequentar EBD, se encher de cargos na igreja, cantar em corais e ser um bom decorador de doutrinas (se além de decorar for um bom papagaio, melhor ainda). Essas coisas podem não ser exatamente ruins em si, mas quando elas se tornam um parâmetro definidor da vida cristã o palco da desgraça está armado. Isso porque, essas coisas levam o indivíduo a valorizar externalidades para que possa ser reconhecido e bem aceito na cristandade, em detrimento do cultivo de virtudes que levem a uma ética de vida, compromissada com Deus através do serviço ao próximo.

A partir deste ponto, o palco para se viver um truque está pronto, o teatro lotado de outros mágicos e as luzes acesas. Cumprir essas regras religiosas na frente dos outros torna-se a coisa mais simples e fácil do mundo. Eu falo isso por experiência próxima. Durante muito tempo fui um grande religioso, cumpridor de todas as regras e era conhecido como um bom cristão, mas, por dentro, o que eu era? O que eu fazia quando ninguém podia me ver? E meus pensamentos? O que se passava pela minha cabeça? Será que meus pensamentos eram coerentes com minhas palavras? Sim, eu confesso, fui um bom mágico, vivi o grande truque da religião muito tempo. E você? Talvez você também seja um bom mágico. Talvez você esteja apenas vivendo o truque. Para viver o truque da religião é bem simples (eu sei que você já sabe dessa, mas vou contar assim mesmo): basta fazer tudo que a religião manda fazer quando alguém estiver vendo e fazer o que você quer fazer quando ninguém estiver vendo. Basta falar o que os outros religiosos querem ouvir e pensar o que você quer pensar. Talvez, ao invés de cristãos deveríamos ser chamados de mágicos, ilusionistas, engenheiros de truques.

Já o ponto positivo se relaciona com a boa notícia de que para se ser cristão não é necessário seguir passos religiosos, porque a vida cristã pode ser a superação da religião. Neste sentido, precisamos viver o grande truque, mas não o grande truque engendrado por nós. Precisamos do grande truque, da grande mágica, do verdadeiro milagre do “Deus em nós”, nos humanizando nos moldes da imagem de Jesus, o homem de Nazaré, única e exclusivamente pela Graça. O que, a partir de Cristo, você faz ou deixa de fazer para Deus não é tido como critério de julgamento delimitador para determinar se você é ou não um bom cristão. O que você faz em Cristo não deve ser feito a partir de critérios definidos simplesmente pela religião da qual você faz parte, mas deve ser definido a partir de uma submissão radical a Jesus. Nessa submissão radical, em muitos momentos você vai ter que contrariar pai, mãe, denominação, igreja, pastor, bispo, apóstolo e qualquer outra coisa que se possa inventar. Nessa grande mágica, não é o que a mídia gospel diz para você fazer e nem o que os ditames da religião institucionalizada dizem, mas, apenas, Jesus.

Por isso, é importante se achar uma comunidade cristã na qual você tenha a liberdade de viver uma vida com Deus derivada dessa submissão radical a Jesus. É inútil e frustrante tentar mudar uma comunidade cristã para que ela se pareça com a sua forma de viver a vida cristã, dentro da liberdade que você recebeu em Cristo. Todas as tentativas de mudanças terminam, de uma forma ou de outra, com muitos mortos e feridos, divisões e amizades desfeitas. No final das contas, quando se está em uma comunidade em desacordo com o que você acredita em termos de vivência da fé, duas coisas podem ocorrem: ou você se adequa e vive uma vida frustrada, disfarçando e vivendo o truque da religião, ou você tenta mudar tudo e vai viver constantemente em guerra. Se um dia você vencer a guerra, alguém terá perdido e o seu troféu não será nada além de amizades quebradas e vidas destruídas.  Nunca viva o grande truque da religião, mas viva o mistério profundo e indescritível do “Deus em nós”. Viva o grande truque, a grande mágica, o grande milagre e o mistério tremendo da submissão radical a Jesus, nada além disso faz sentido.

O Livro de Eli – Religião é Poder!

Essa semana, pela segunda vez, assisti ao filme “O Livro de Eli”. O filme conta a história de um homem chamado Eli que atravessa os EUA de leste a oeste carregando e protegendo um livro grande e velho a todo custo. O cenário é apocalíptico. Aparentemente, depois de uma guerra mundial, uma bomba fora lançada, abrindo um buraco no céu, destruindo a camada de ozônio, fazendo com que o sol se transformasse em um grande inimigo da humanidade. Logo após a bomba, as pessoas passaram anos em abrigos para sobreviver, até que a atmosfera começou a se reequilibrar e as pessoas puderam sair e tentar reconstruir suas vidas. Quando elas saem, resolvem destruir todos os exemplares do livro que Eli carrega, fazendo com que apenas um restasse – o que está com Eli. Segundo o filme, os livros foram queimados porque, provavelmente, a guerra teria começado por causa deles, dando a entender que a guerra fora motivada por questões religiosas.

Saindo dos abrigos, tentando reconstruir uma vida normal, as pessoas descobrem que nada poderia ser como antes. Não exista mais energia elétrica, nem água encanada, nem rios, nem plantas e pouquíssimos animais. Toda tecnologia parecia perdida. O cenário era de luta por sobrevivência. Os alimentos eram super escassos e o canibalismo passou a ser comum, fazendo com que cada encontro com outro ser humano significasse uma verdadeira batalha.

No filme, aparece uma pequena cidade, tentando se reerguer das cinzas, governada por um homem que conhecia algumas fontes de água – o bem mais precioso naquela realidade – e isso fazia com que ele tivesse o domínio econômico e político, na verdade, ele era como o dono da cidade e das vidas das pessoas que estavam em volta dele. Mesmo assim, ele reconhece que precisava recorrer à força das armas para manter a ordem na cidade e, então, busca freneticamente por um livro, com uma cruz estampada, que, segundo ele, as palavras contidas no livro teriam o poder de dar um rumo às pessoas e de unir as pessoas. Por isso, dia a dia ele manda pessoas percorrerem todos os lugares possíveis em busca desse livro.

O filme deixa claro que a intenção é usar as palavras do livro para dominar as pessoas. Há falas onde se expressa que as pessoas viriam de todos os cantos atrás das palavras daquele livro, porque isso já havia acontecido antes na história. Com o livro na mão, não haveria mais necessidade de manter o controle através das armas e da força, seria apenas usar as palavras do livro. Em uma fala, toda força do livro é expressa: “Não é apenas um livro, é uma arma”. Em suma, quem tivesse o livro não dominaria apenas pela força, mas conquistaria o coração e a mente das pessoas. Ele formaria uma religião em torno do livro, fazendo as pessoas viverem pela religião e, então, obtendo o completo controle sobre as pessoas.

Eli, em sua viagem que já durava quase 30 anos, lia o livro, religiosamente, durante todas as noites. Em um certo ponto do filme, ele cruza a tal cidade e as pessoas descobrem que ele tem o livro, fazendo com que uma batalha se trave pela sua posse. Eli perde o livro e quase perde a sua vida, mas continua sua viagem em direção ao oeste, em busca do lugar revelado a ele para depositar as palavras do livro. (se eu disser mais acabo com a graça de quem ainda não assistiu)

Ao ver o filme, algumas coisas me despertaram o interesse, mas uma em especial eu gostaria de usar para refletir:

Ela está relacionada ao quanto a religião é usada para se dominar pessoas ao invés de libertar. A pessoa que detém o mínimo conhecimento dos textos sagrados consegue manipular pessoas, dominando-as de todas as formas possíveis. Ditam cada passo das pessoas, sempre as levando no cabresto, fazendo-as jogar tudo que possuem na religião. Isso me faz lembrar das palavras de um professor, Dr. Valdemar, no primeiro semestre de teologia: “Aqui, vocês vão receber ferramentas para duas coisas: ou vocês escravizam o povo pela palavra ou vocês libertam o povo pela palavra. A escolha é de vocês e só cabe a vocês decidir”.

Eu não tenho dúvidas de que a escolha certa seja libertar pela palavra, embora seja o caminho mais complicado e incerto. É mais fácil manter o povo no cabresto, rezando a cartilha, do que dar a liberdade. A certeza do libertar para mim se torna mais clara quando olho para as palavras do Cristo: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos“. A palavra não tem a função de oprimir, mas sim de libertar. Infelizmente tenho conversado com muitas pessoas que se sentiram durante anos oprimidas pela palavra, ao invés de libertas. E mais infelizmente ainda, hoje, muita gente, em muitas igrejas pelo nosso Brasil estão sendo escravizadas pela palavra ao invés de libertas. Se o próprio Cristo escolheu libertar, porque justamente eu vou escolher escravizar?

Em muitos opressores está a sinceridade de tentar manter as pessoas no que ele considera uma vida correta diante de Deus, mas há também o esquecimento de que a virtude não pode ser alcançada pela força e de que o bem não vem pelo poder, mas pelo amor, como um dom do Espírito. “Não por força, nem por violência, mas pelo Espírito de Deus”. Assim, a força não se traduz apenas em armas, mas também em palavras de persuasão e medo. E isso se torna mais perigoso quando se está diante de alguém que se diz ungido de Deus, conhecedor das palavras de Deus e, ainda, sabedor da vontade soberana de Deus.

Há uma mística forte em cima dos santos ungidos de Deus. Homens considerados intocáveis, como se suas palavras brotassem diretamente da boca de Deus sem escalas, nem em suas próprias vidas. Há níveis de unção hoje em dia. O primeiro passo é ser pastor, pois isso já confere o respeito das pessoas. O segundo é ser bispo, porque com a quantidade de seminários de fundo de igreja que abrem todos os dias no Brasil não é difícil deduzir que o mercado de pastores está saturado. Então, sendo um bom bispo, já dá pra controlar a vida de mais gente e mais igrejas, controlando até pastores. No terceiro momento o cara se acha o suprassumo e percebe que ser bispo já não dá mais ibope, afinal de contas se fôssemos contar a quantidade de bispos só da Universal perceberíamos que o mercado está em crise. Então ele se autodenomina apóstolo. O apóstolo já é o semi-deus da coisa. Esse é poderoso! Mas, para piorar, como a cada dia mais e mais caras se autodenominam apóstolos, fazendo com que tenha tanto apóstolo quanto ratos no Brasil (o mal que eles causam é o mesmo), um indivíduo no nordeste resolveu inovar e se autodenominou “Pai-póstolo: o único com autoridade para ungir apóstolo no Brasil”. Alguém consegue ter criatividade para chutar qual é o próximo nome que vai aparecer? Não quero nem pensar.

Se Jesus que era Deus se esvaziou das prerrogativas divinas para se humanizar e servir, por que nós percorremos o caminho inverso querendo nos deificar ou deificar nosso semelhante para dominar o próximo pela religião? Não estou dizendo que não há pastores sérios que, pelo serviço a Deus através do próximo, honram a vocação que receberam, mas estou falando de pessoas inescrupulosas que se apoderam da fé do povo para controlar suas vidas.

Antes a escravidão do chicote à escravidão de palavras humanas travestidas de vontade de Deus. Que as escrituras cheguem a nós como o som de correntes quebradas caindo ao chão, mas nunca como o som do chicote da opressão.

O que Deus pode Fazer por Preciosa?

Há alguns dias, após ser submetido a uma exodontia do siso inferior esquerdo, passei em uma locadora com minha esposa e aluguei alguns filmes. Confesso que eu estava mais interessado em filmes que me levassem a mera diversão alienada, mas minha esposa pegou dois filmes que acabaram roubando minhas atenções, dentre eles estava “Preciosa: Uma História de Esperança”.

Por algumas razões, foi o último filme dos que aluguei que coloquei para ver. A trama se desenvolve em 1987, no Harlem, bairro pobre de Nova York. O filme conta a história de uma garota negra, super feia, pobre e gorda que atendia pelo nome de “Preciosa”, interpretada por Gabourey Sidibe, que recebeu várias indicações a prêmios pela excelente atuação no longa.

Sem revelar muitos detalhes do filme, para não tirar a graça daqueles que não viram, Preciosa era uma garota de 16 anos, que viveu um verdadeiro inferno durante a sua infância, sendo privada, até então, de uma vida normal. Por conta disso, estava bem atrasada na escola e sempre que passava por uma situação complicada ela “sonhava”, se imaginava em outra situação como, por exemplo, sendo uma estrela de cinema, linda e maravilhosa, recebendo premiações.

Na primeira cena do filme, Preciosa é mostrada de modo caricato, com os colegas de escola debochando de sua aparência não convencional. Confesso que fui levado a rir neste início, até que me senti o pior dos seres humanos quando, alguns minutos depois, a trama entrou fundo no inferno de Preciosa.

A garota, desde bebê, era violentada pelo seu próprio pai. Para completar, a mãe da garota sabia que o pai violentava a própria filha e passou a sentir raiva e ciúmes da filha, porque era como se o pai preferisse a filha a ela. Assim, ela tratava a filha da pior maneira possível, com agressões físicas e verbais. Por conta da violência sofrida, aos 16 anos preciosa já era mãe de uma filha do próprio pai, portadora de Síndrome de Down, e estava grávida de um segundo filho. A mãe de preciosa não trabalhava e dependia da ajuda do serviço social para viver.

A realidade social do bairro era a pior possível. No prédio onde Preciosa morava, havia pichações por todos os lados e crianças sempre com marcas de violência. Nas ruas, a maioria da juventude largada às drogas, vadiando, sem a menor perspectiva de futuro.

Por algumas razões, no filme, Preciosa sai de casa e passa a morar num abrigo, onde tem seu segundo filho. As coisas parecem que começaram a melhorar para Preciosa, pois ela foi enviada para uma escola diferente, estava conseguindo se desenvolver, sendo ajudada por uma professora. Até que sua mãe a procura dizendo que o pai de Preciosa havia morrido e estava contaminado com o vírus do HIV. Preciosa faz os exames e descobre que também é portadora do vírus. Sinceramente, não sei como os tradutores brasileiros conseguiram enxergar “Uma História de Esperança” neste filme.

Ao terminar o filme, eu estava completamente atordoado com a vida de Preciosa. Num primeiro momento comecei a me sentir feliz pela vida que eu levava, pois percebi que, na verdade, minha vida havia sido bem tranquila até aqui. Num segundo momento, comecei a lembrar de quantas “Preciosas” existem no mundo e estão passando por situações de completa privação em suas vidas. Neste momento, de impulso, comecei a fazer uma espécie de prece por estas pessoas que sofrem pelo mundo a fora. Eu dizia: “Deus, por favor, ajude essas pessoas!”. No entanto, algo calou minha mente e eu não prossegui, pois um pensamento atordoante passou a me perturbar naquela longa noite: Deus não pode fazer nada pelas “Preciosas” desse mundo a fora se eu mesmo não arregaçar as mangas para fazer.

Parece lugar comum dizer essas coisas, mas estou cansado de ver pessoas falando em nome de Deus pela televisão prometendo uma vida de prosperidade, enquanto eles mesmos se enriquecem com o suado dinheiro do pobre que sonha com uma vida melhor. Estou cansado de ver igrejas e mais igrejas se proliferando como rato pelas esquinas do meu Brasil, alienando mentes, ensinando barganha com Deus, uma vida asceta, enquanto milhares de “Preciosas” estão passando necessidades bem em frente aos nossos olhos. De que vale essa quantidade absurda de igrejas que se proliferam pelo Brasil se a única realidade que elas conseguem mudar é o status do bolso de seus líderes?

O que Deus pode fazer por Preciosa? Minha resposta sincera: nada! Se você e eu também não fizermos.