Lições de um velório

Comecei o primeiro dia de 2014 em um sepultamento. Era o pai de uma amiga da minha esposa. Nossa presença lá se restringia a dar apoio à amiga, nada mais. Ainda assim, ao mesmo tempo, vivenciei uma cena comum e incomum. Se por um lado, eu nunca tinha ido a um “evento” fúnebre em um dia que costuma ser festivo; por outro, todavia, percebi que não há nada de especial no primeiro dia do ano, pois nem a morte pede licença. Para muitos era um feriado, mas, para os coveiros, um dia de trabalho normal. Na verdade, muito trabalho, pois, só enquanto lá estive, vi três corpos sendo levados para sepultura.

No entanto, algo me chocou de maneira especial e me incomodou de maneira tal que fui obrigado a escrever um texto para organizar as ideias e tentar entender o incompreensível. Desde o início, percebi um grupo de religiosos na sala do velório, o que achei bonito e positivo. Eram pessoas da igreja de um parente do falecido que estavam ali para apoiar. Eis aí um lindo papel que muitas igrejas prestam.

No decorrer dos acontecimentos e observando alguns fatos, comecei a me perguntar se o papel que aquele grupo de religiosos estava prestando era realmente positivo. A dor da família era realmente grande. A esposa do falecido chorou até desmaiar. Ela não conseguia compreender. Dizia que não saberia como viver sem o seu marido. Várias vezes ouvi o seu grito de dor: “Por quê, meu Deus?” Igualmente, outras pessoas da família repetiam, em prantos, o mesmo grito. E ouvi várias crianças, provavelmente, netos do falecido, perguntando o porquê de aquilo estar acontecendo.

Foi então que começou o show de respostas prontas e praticamente indiferentes à dor da família. Alguém parou ao lado da viúva e disse: “Foi a vontade de Deus, que o levou para ele não sofrer muito.” Como quem nem escutou, a viúva simplesmente continuou seu pranto e, meio que não suportando a dor da perda, desmaiou. Quando recobrou a consciência, simplesmente repetia: “Por quê, meu Deus?”

Foi duro ver e ouvir alguém dizendo para uma criança inocente que “Papai do céu quis levar o vovô para morar com ele”. Ouvindo as palavras, tudo que a criança podia fazer era continuar seu choro. Para piorar a dor, ela descobriu que Deus era o culpado pelo seu sofrimento. Talvez, por isso, ela tenha chorado ainda mais depois dessas palavras.

Eu já estava incomodado com essas cenas que insistiam em se repetir, mesmo assim, nada me preparou para o que veio a seguir. Um pastor foi chamado para trazer uma palavra para os familiares e amigos do falecido. Eu pensei que ele traria uma palavra de consolo, no entanto, eu vi alguém subindo em um pedestal, se colocando em posição de superioridade, como se nem mesmo a morte o afetasse. Suas palavras eram proselitistas. Ele parecia ignorar a dor e “aproveitou” o momento para falar de sua fé.

O problema é que ele falava com arrogância. Falava de pecado, morte. Tentava encaixar um plano de salvação. A família enlutada, em sua maioria longe dos arraiais da igreja, parecia não escutar. Limitavam-se a chorar. Os religiosos que acompanhavam o pastor faziam questão de dizer: “Amém”, “Aleluia”, após cada frase de efeito. Ele falou, falou, e não disse nada. Ao final, fazendo uso de uma cadeia hierárquica eclesiástica que pouco fazia sentido ali, chamou um presbítero para orar. Não parecia uma oração, mas sim uma pregação, daquelas em se cita a bíblia para Deus. Perdeu a oportunidade de pedir por consolo e pelo alívio da dor experimentada pela família. A oração, seguindo o estilo do pastor, foi arrogante e prepotente, estava mais preocupada em “evangelizar” do que em consolar.

É interessante que quando me dirigi ao carro para ir embora, encontrei uma propaganda do cemitério, oferecendo-me a oportunidade de comprar uma cova. No mesmo instante, eu disse a minha esposa: “A administração do cemitério está igual àquela igreja. Não respeitam nem a dor das pessoas. Não perdem uma oportunidade para fazer negócio”.

Sabe, há anos questiono o que muita igreja faz em sepultamentos. Ouvi várias mensagens pregadas em velórios e a maioria esmagadora delas possuía um tom proselitista. Eu já vi várias pessoas dizendo: “Temos que aproveitar, pois nessas horas as pessoas estão mais abertas para ouvir o evangelho”. Eu questiono seriamente esta tese. Ouvir? Quem sente dor simplesmente sente, não escuta nada. A pessoa não quer alguém para falar, muito menos fazer propaganda de religião, mas quer alguém para compartilhar a dor. Eu lembro que no velório do meu avô um pastor chegou sorrindo. Eu pensei comigo na época: “Por que esse desgraçado está sorrindo? Será que ele não poderia pelo menos fingir que sente algo?” Na verdade, ele fingia sim, tentava fingir que estava tudo bem. Mas, para que fingir? Para que tentar passar um clima que não existe?

O problema todo é que boa parte das igrejas não vai a um velório para se solidarizar com a dor e oferecer um pouco de consolo, nem que seja apenas um ombro para chorar. Na verdade, vão para fazer caridade e proselitismo travestidos de evangelismo barato. Quando alguém faz caridade, simplesmente se mantém em uma posição de superioridade, olhando de cima para baixo, como se estive bem e, aquele que recebe a sua caridade, numa pior. Quando alguém se solidariza com a dor do outro, simplesmente, se coloca ao lado do sofredor. Não oferece respostas prontas e sem sentido. Não oferece posições doutrinárias. Não repete cartilha de teologia e nem revistinha de EBD. Quando nos solidarizamos, simplesmente nos oferecemos para sofrer junto.

Boa parte de nós não quer sofrer a dor do outro. Por isso, é melhor agir como aqueles religiosos do velório, cuja espiritualidade os havia tirado a humanidade. É melhor nos acharmos melhores por termos uma fé. É melhor nos acharmos superiores por crermos num conjunto de dogmas. É melhor olhar de cima para baixo do que sentar ao lado para chorar junto.

Quando eu olho para Jesus vejo alguém que se esvaziou de sua divindade para ser plenamente humano e se solidarizar com a nossa dor e sofrimento. Ele levou isso às últimas consequências, chegando ao ponto de assumir a morte que era nossa. Enquanto esteve entre nós, chorou diante da morte de um amigo, tanto pela dor que Ele mesmo sentiu, quando por solidariedade ao sofrimento das irmãs do morto. Jesus simplesmente sofria com os que sofriam. Jesus nunca fez caridade e só mostrou superioridade diante dos caridosos religiosos do seu tempo. Jesus se solidarizava.

Diferentemente de Jesus, nós gostamos de parecer espirituais, quase seres diferentes, iluminados, quase deuses. Esse sempre foi o pecado mortal da humanidade: desejar ser como Deus, igual a Deus. Jesus se esvaziou da divindade e foi plenamente humano e, sendo achado em forma humana, pode mostrar o que significava verdadeiramente ser Deus. Gosto de quando Leonardo Boff diz: “Jesus era tão humano que só podia ser Deus”. Infelizmente, a igreja parece fazer propaganda contra o humano. Querem ser “espirituais” e acabam vivendo como que alienados. Não tenho tempo para explicar, mas a mensagem do velório foi mais platônica do que cristã. Infelizmente, a maioria dos púlpitos das igrejas prega mais Platão do que Jesus.

Na hora da dor, a igreja quer levar Jesus em forma de palavra e versos decorados, tentando evangelizar. No entanto, já deveríamos ter aprendido que não faz sentido levar simplesmente o nome de Jesus ou alguns conceitos, precisamos ser Cristo para as pessoas que estão sofrendo. Precisamos sofrer junto, solidarizar e não fazer caridade, muito menos evangelismo barato.

Mas, sabem o que mais me impressionou positivamente? Duas cenas protagonizadas por pessoas que não criam em Deus. Em uma delas, um tio explicava para o sobrinho que “não conseguimos entender a morte, mas precisamos nos acostumar, pois faz parte da vida.” Ele dizia que “durante a vida veremos várias pessoas que amamos morrendo, por isso era preciso aceitar.”

Eu sei que é impossível aceitar a morte ou mesmo se acostumar. No entanto, o tio ateu não colocou a culpa em Deus e muito menos deu respostas prontas e sem sentido. Simplesmente assumiu que não conseguimos entender.

A outra cena foi impressionante. Após o caixão ter sido colocado no solo e a sepultura fechada, as pessoas ficaram paradas, olhando, sem dizer uma palavra. Foi aí que uma das filhas do falecido quebrou o silêncio e disse: “Gente! Se meu pai estive vivo iria pergunta o que vocês estão fazendo aí parados. Ele diria: ‘vão viver a vida de vocês porque eu vivi a minha e muito bem.’”

Instantaneamente, lembrei os apóstolos olhando Jesus subir ao céu em Atos 1. Eles ficaram parados, sem dizer nada. Até um anjo disse a eles: “O que vocês estão fazendo aí parados?”

Após as palavras dessa filha, eu percebi que um peso saiu do semblante das pessoas. Todas se sentiram mais soltas. A dor continuava, as lágrimas ainda regavam o solo, mas a página podia começar a ser virada. Me pergunto:  por que isso não aconteceu através das palavras do pastor e da oração do presbítero? Por que as pessoas não se sentiram consoladas após a pregação? Há momentos em que Deus fala mais por uma pessoa de fora da igreja do que por um pastor que arrogantemente diz estar falando em nome dEle.

 

 

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Publicado em janeiro 3, 2014, em Cotidiano. Adicione o link aos favoritos. 3 Comentários.

  1. Gostei muitíssimo deste artigo pois é sempre bom lembrar que a vida passa rapidamente.
    Também foi útil para não cair no mesmo erro e lembrar que somos humanos. Davi, o grande rei disse certa feita: “um passo me separa da morte”. Sei que é difícil se separar, mesmo que por um momento de nossos queridos, mas durante todo esse tempo, tenho experimentado o consolo do Senhor e, quando possível numa situação semelhante, aproveito para ficar perto da pessoa, só dando lenços para ela poder extravasar o que sente através das lágrimas.
    Deus continue te abençoando ricamente.

  2. Sou batizada na igreja luterana, mas não sou “praticante” se isso significa estar na igreja toda a semana… lendo seu blog repensei muitas coisas…
    O que me intriga em estar na igreja, são os irmãos do “fazer o social” da igreja… tive muitas experiências religiosas… mas nenhuma de fé. Vejo irmãos que se chamam de irmãos, mas na verdade são pessoas fracas que procuram a igreja para se “amuletar” mas não praticam fé e nem o bem. Praticam o social… estão lá para serem vistos e para ver. Infelizmente muitas pessoas são assim e conhecem e aprendem a igreja assim. Mas se encontram alguém com fome ou caído, não ajudam. Eles se ajudam, a igreja SE ajuda. Eu não vejo a igreja se movimentar em lares carentes, em escolas e outras coisas. Se movimentam na política, na música, em criar núcleos ou células para empresários – para crescer a “fartura” a “prosperidade”, mas a compaixão ao próximo não existe, E por mais que você ou qualquer outro diga que isso não acontece, no fundo sabe e não quer admitir. A igreja está – ao meu ver – perdida.
    Não consigo estar em comunhão com essa igreja. A PALAVRA é passada ao coração dos fracos como uma flecha certeira. Não é consolo, é tiro! A Igreja não torna ninguém melhor ou pior, isso vem do seu coração!
    Sobre o texto deste post, é justamente isso, é só reler os últimos parágrafos: o consolo verdadeiro não vem necessariamente de alguém que frequenta a igreja e detém a PALAVRA para uso pessoal, mas daquele que COMPREENDE a palavra e a usa para o bem do próximo!

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