O PARADOXO DAS EXPERIÊNCIAS RELIGIOSAS

Há poucos dias, eu conversava com um amigo que, aparentemente, não tem nenhuma religião. Ele favava de uma visita feita a um templo budista, levado pelo seu irmão mais velho. Em um momento, chegou a um lugar no qual as pessoas dedicavam algum tempo para fazer seus pedidos. Foi então que ele percebeu que havia tanta coisa boa acontecendo em sua vida e, assim, passou aqueles momentos agradecendo. Ele falava de ter tido uma experiência magnífica. Sentido uma energia positiva. Por fim, disse ter experimentado uma sensação que gostaria de repetir várias vezes.

Quando ouvi a palavra “repetir”, imediatamente, eu disse: “Cuidado, pois esse é o mal das religiões. As pessoas tem uma experiência isolada e querem repetir outra vez. Acontece que experiências não se repetem. São únicas. Quanto mais alguém tenta repetir uma experiência, uma sensação, mais se embola em rituais infinitos e, no fim, se sente exaurida e frustrada. Você só experienciou as sensações descritas porque não estava procurando experiências. Estava livre para o que viesse. A partir do momento em que você procurar repetir uma experiência específica, estará se fechando para novas experiências.”

É claro que meu amigo ficou assustado e terminamos a conversa ali mesmo. No entanto, o que falei ao meu amigo serve também para qualquer religião, inclusive para o cristianismo. Ou melhor, principalmente para o cristianismo. Bato na tecla: o problema não é a experiência. Quanto a isso não tenho o que dizer. O problema é tentar repetir a experiência. É tentar sentir de novo o que se sentiu em um momento específico. Por que isso é um problema?

Simples, ao tentar se repetir uma experiência religiosa é comum tentar recriar o ambiente em que o fato ocorreu primeiramente. É comum tentar voltar ao mesmo lugar, ouvir as mesmas músicas, as mesmas palavras, ler o mesmo livro. Na segunda vez, a pessoa ainda sente algo, talvez um eco do que ocorreu antes, mas logo percebe que a intensidade não fora a mesma. Instintivamente, tenta-se entender o que deu errado e um novo ciclo litúrgico se inicia. Tenta-se aumentar a intensidade, adiciona-se itens ao ritual. E no fim, se a pessoa for honesta consigo mesmo, na busca por experiências, o máximo que encontrou foi o vazio. Domingo após domingo, culto após culto, louvorzão após louvorzão, livro após livro, madrugas em montes. Nada disso parece satisfazer. Nada disso parece fazer a pessoas sentir o que ela quer sentir. Ela quer mais. Busca mais. Mas, honestamente, ela só tem o vazio. Só tem rito. Só tem liturgia. Só tem religião. Pouco de Deus. Quase nada de sagrado. A experiência com o divino se torna apenas uma lembrança do passado longínquo.

O pior é que quem está em busca de experiência se torna presa fácil para modas que aparecem. Seja uma nova campanha que promete fazer você chegar mais perto de Deus. Seja ir a um monte orar. Seja um pastor famoso que aparece na mídia e todos dizem que tem uma palavra poderosa. Seja um final de semana que promete ser um encontro tremendo com Deus. Seja entrando num ritmo doentio de atividades religiosas. Seja seguindo manuais de espiritualidade que negam a vida e promovem o sectarismo. Seja doando dinheiro para pregadores inescrupulosos. Seja indo a igreja quase todo dia…

Por fim, buscar experiência nos leva a simplesmente mergulhar no mundo dos ritos religiosos. Dessa forma, negamos a vida, a existência, as coisas boas e belas que estão a nossa volta. Perdemos a chance de experienciar Deus no cotidiano, nos encontros com amigos, na risada livre e solta, no amor dedicado a quem amamos, no pão conquistado com o suor dos nossos rostos. Para mim, desculpem a franqueza, buscar experiências religiosas nos faz perder a chance de experimentar, de fato, a presença do Divino, do Totalmente Outro, do Luminoso, de Deus, em cada segundo das nossas vidas.

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Publicado em dezembro 25, 2013, em Cotidiano, . Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. São os 4 M’s ao longo da história do cristianismo. Mover, movimento, monumento e morte. Primeiro recebemos um mover, uma experiência nova. Em seguida, repetimos o movimento acerca é em busca do vivido anteriormente. Em seguida, aquilo se torna um monumento, seja físico, geográfico ou psicológico, para onde voltamos nossas expectativas e esperanças de termos mais do mesmo que ja tivemos. Após disso, o que se segue é a morte, a religiosidade. Abraços.

  2. Em primeiro lugar JESUS liberta e a religião aprisiona, porém quem pela fé quer seguir os passos de Jesus, deve participar de uma igreja, pois Ele é a cabeça e nós os membros que formam , não o templo físico, mas o espiritual.”Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo,” (Efésios 4 : 15).Ou seja a igreja é onde podemos e devemos praticar caridade, amor , respeito e tudo mais.Religiosidade não salva e JESUS foi ,podemos dizer exclusivista, ja que em sua época havia várias religiões, “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.” (João 14 : 6),
    O contexto quer dizer que a igreja será edificada sobre a verdade da confissão feita pelo próprio Pedro e demais discípulos, sobre o fundamento que é Cristo, o Filho do Deus Vivo (Mt 16:16: E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.
    A Bíblia é bem clara que Jesus é a Pedra fundamental da igreja, onde é o cabeça da igreja, sendo o Sumo Sacerdote ou Sumo Pastor da igreja. Pedro foi apenas um homem que andou com Jesus, pregou o evangelho. A Bíblia atravessou milênios e permanece a Palavra inalterada, pois é o manual do criador e nada além dela é verdade.”Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir.” (Mateus 5 : 17).No velho testamento JESUS foi anunciado e no Novo testamento , cumpriu algo em uma época em que não havia nascido, mas profetizado. A fé é uma graça , a igreja a reunião dos que correm na veia o DNA de Cristo,quanto aos que frequentam e dão mau testemunho, deixe-os, por amor pois a salvação é individual.

  3. raquel augusta

    Texto perfeito,o último parágrafo é perfeito, é tudo em que acredito.
    Não precisamos de templos, de santos e bíblias nenhuma para sermos, bons e caridosos…..cada experiência que vivemos é única.

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