O Paradoxo da Fé

Eparadoxoxistem alguns paradoxos na bíblia. Creio que não pelo texto em si, mas pela nossa dificuldade natural de interpretação.  Por exemplo, pensemos na fé. O que é fé? Como definir? Como entender? Inicialmente, os conceitos parecem totalmente subjetivos, internos. O próprio autor da carta aos hebreus diz simplesmente que a “fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos.” Em outras palavras, a fé seria aquilo que você tem e não sabe definir exatamente, mas que prova algumas coisas que você acredita que são verdadeiras.

– Deus existe?

– Existe, claro!

– Como você prova?

– Não posso provar, apenas sei que existe!

–  Mas como você sabe?

–  Pela fé, óbvio!

– Mas o que é fé?

– “É a prova das coisas que não vemos.”

inceptionNo entanto, os textos sagrados não nos incentivam a ficar em paradoxos. No caso da fé, por exemplo, Tiago nos convida a tirar a fé da subjetividade e colocá-la no campo da prática. Ele diz que de nada adianta ter fé, mas não ter obras. Para Tiago, não faz sentido pensar na fé no campo da opinião pessoal, como uma força ou qualquer outra coisa que possa mover o mundo espiritual em nosso favor. Ao contrário, a fé, para ele, só faz sentido quando o mundo espiritual nos move em nosso próprio mundo para mudar a realidade das pessoas que aqui sofrem.

Tiago nem mesmo está preocupado com a fé como caminho para salvação. Ele argumenta: “Porventura a fé poderá salvá-lo?” Ele diz que fé como sinônimo de acreditar e crer em Deus não é suficiente, já que os próprios demônios crêem e estremecem. Diferentemente de nós, homens, os demônios nem sequer duvidam da existência de Deus.  Realmente, para Tiago, crer não é suficiente.

Tiago avança bastante na discussão sobre o tema porque ele deixa de considerar a fé como um elemento capaz de provar o que não se pode provar e passa a considerar o que fazemos como um elemento que prova se temos ou não fé. Não é que Tiago esteja contradizendo o apóstolo Paulo quando este diz que “somos justificados pela fé”, mas é que para Tiago se não temos obras nem mesmo temos a fé que pensamos ter. Se não praticamos, não temos fé. Só dizer que acredita não vale, não é suficiente.

Por que Tiago pensa assim? Porque para ele a fé é algo tão forte que necessariamente tem que mover aqueles que a tem para fazer o bem ao próximo. Se achamos ter fé, mas não somos movidos a fazer o bem ao próximo, temos tudo menos fé. Temos crendices, conceitos religiosos, posições doutrinárias, costumes litúrgicos, hábitos piedosos, mas nunca a fé.

É interessante ver que com o passar do tempo disfarçamos essa questão das obras e reduzimos tudo a simplesmente crer. Durante muito tempo, quando se falou em obras, o tema ficou reduzido a obras de religião. Por exemplo, um bom crente, que tem fé, é aquele que vai a todos os cultos, canta, participa de todas as programações da igreja, não falta uma aula da EBD, está em todas as vigílias, correntes, etc.

Tiago, todavia, não fala em termos de religiosidade, pois para ele “a religião que Deus, o nosso Pai aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo.” Tiago, mais uma vez inverte os conceitos tradicionais. Religião para ele não é uma forma de convencer Deus a fazer o que queremos que Ele faça, mas é deixar o próprio Deus nos usar para cuidarmos dos pequeninos deste mundo. Religião, para ele, não é doutrina, nem liturgia e muito menos moralidade julgadora, mas ação objetiva capaz de mudar a vida das pessoas deste mundo, aqui e agora.

Talvez por isso, Jesus tenha dado a entender, em algumas ocasiões, que teremos algumas surpresas no céu. Em Mateus 7, Ele diz que “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.” Repararam? “Dizer: Senhor, Senhor!” tem a ver com confessar, crer, e isso fica em marcante contraponto com a ação: “fazer a vontade do pai”. Por isso Ele diz: “nem todo aquele”, pois há os que dizem “Senhor, Senhor!” e conjuntamente fazem a vontade do Pai. Melhor ainda, é fazendo a vontade do Pai que dizemos com as nossas vidas: “Senhor, Senhor”.

Em outra ocasião, ainda mais inusitada, Jesus fala que no dia do juízo dará as boas-vindas aos que estiverem a sua direta, pois estes lhe deram água, comida, roupa e abrigo quando Ele passou por dificuldades. No entanto, estes que estão sendo recebidos no Reino dirão surpresos: “‘Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar?” Então, para sacramentar, Jesus diz a eles: “Digo-lhes a verdade: o que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram.”

As duas cenas parecem ter o mesmo propósito: mostrar que o caminho para Deus não é o caminho da religião de crença vazia no sobrenatural, mas se aproxima de uma fé que gera ações práticas capazes de mudar nossa própria realidade. Quem confia simplesmente nas confissões religiosas corre grande risco de se surpreender no Reino de Deus.

No final das contas, continuo sem saber definir o que é fé, mas passo a entendê-la melhor. Meus parâmetros para “medir” se tenho muita ou pouca fé mudaram radicalmente. Não tenho muita fé se creio com todas as minhas forças que Deus vai fazer o que desejo que Ele faça, mas sim, se O deixo atuar em minha vida para que eu faça aquilo que Ele quer que eu faça. Não tenho muita fé se cumpro todas as minhas obrigações religiosas, mas sim, se demonstro um amor real e objetivo para as pessoas que estão diante de mim. Não posso definir a fé, mas posso fazer o bem. A fé pela fé só prova coisas para mim. A ação que vem da minha fé, prova aos outros que tenho fé.

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Publicado em setembro 27, 2013, em . Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. … de fato..

  2. Ótimo texto, perfeito! Sempre acreditei assim, mas nunca parei para refletir tão objetivamente e claro, contextualizar! Fui muito edificado aqui..

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