Por um novo caminho

mulçumanoNão faz muito tempo, talvez uns três ou quatro anos, eu defendia a ideia de que o cristianismo deveria ser mais unido. Eu lembro que ouvia piadas do tipo: “Tranque um gato, um cachorro e um passarinho em uma gaiola que eles vão aprender a conviver, mas tranque um batista, um presbiteriano e um pentecostal em um quarto que em pouco tempo eles vão se matar”. Eu lembro também de ter presenciado uma palestra com um mulçumano enquanto eu era do seminário. Na época, perguntamos para ele quais eram as razões pelas quais o islamismo crescia tanto pelo mundo. As palavras dele ainda ecoam em minha mente: “Não temos praticamente nem divisões nem dogmas, o islamismo se divide em no máximo dois grandes grupos”.

maos-unidas1Para mim, na época, estava claro que o cristianismo perdia forças, penetração e relevância no mundo graças, em boa medida, pelas múltiplas divisões que existem dentro dele. Divisões essas derivadas de múltiplas compreensões e interpretações das escrituras sagradas. De fato, não sou contra a diversidade, mas quando você divide demais algo que era para ser unitário, a ponto de causar grandes contradições internas, as coisas começam a desandar. Imagine alguém que não nasceu em um lar cristão e que resolve, por hipótese, procurar uma religião. Suponhamos que ele entre em um domingo numa igreja batista, no outro em uma presbiteriana, no outro em uma neo-pentecostal e, em outro, em uma que nem podemos classificar. O que ele pensará do cristianismo?

Quando_se_vive_dividido,_sofre-se_sempre!Depois de um tempo, eu passei a perder a fé numa possível união entre os multifacetados seguimentos cristãos. Ao olhar alguns casos esdrúxulos, principalmente oriundos do evangelho midiático, comecei a questionar se, de fato, eu fazia parte do mesmo grupo. Eu comecei a ficar chateado porque, por onde eu passava, as pessoas pensavam que eu era como aquelas pessoas da mídia. Se pregando, como um pastor que só pensa em dinheiro. Se ouvindo, como alguém facilmente engado por promessas vazias. Não! Eu nunca gostei de ser tratado como eles, confesso!

Por isso, comecei a dizer que eu não era evangélico, apenas cristão, pois esses grupos se afirmam como evangélicos e eu não queria ser contado no mesmo saco que eles. Comecei, também, a tecer duras críticas e, literalmente, me coloquei em posição de combate contra eles. Para mim, era claro que eles se tratavam de lobos desfaçados de ovelhas, joio no meio do trigo.

dualidadeEu confesso que encarei uma dualidade muito forte quando me deparei com versos que diziam para “não julgar” e com outros que diziam para “tomar cuidado com falsos profetas”. Ora, como vou saber quem é um falso profeta a menos que eu tenha suas características e exerça um certo julgamento para discernir? Não é uma questão fácil. Alguns mentores meus apontam que há uma diferença entre julgar e discernir. Eu concordo, mas admito que há uma linha muito tênue entre um e outro. Como saber o que está no coração de alguém? Como saber suas intenções?

frutoUm saída, seria olhar os frutos, pois “pelos seus frutos os conhecereis”. No entanto, há frutos que não são facilmente perceptíveis. Paulo chega a dizer aos coríntios que ele plantou e Apolo regou, mas quem viu os frutos? Que tipo de fruto tinha em Coríntio já que Paulo mesmo diz que não pode falar a eles como a espirituais, mas como carnais? Às vezes leio biografias de missionários que passaram anos no campo, mas os resultados mensuráveis humanamente são quase nulos. Seriam esses missionários infrutíferos? Em um caso ou outro vejo frutos incontestáveis na vida de irmãos, pastores, igrejas, ministérios. Mas os vejo de acordo com minha percepção humana. Como será que Deus os contabiliza?

Por conta disso tudo e mais algumas coisas, eu vou tentar voltar há três ou quatros anos e retomar meus pensamentos sobre o assunto a partir do prisma da unidade, não da unidade burra e cega, mas da unidade que entende a diversidade, com seus pontos positivos e negativos. Algumas outras razões me levam a isso.

juizAlém do fato de eu me sentir incapaz de julgar, pretendo deixar o discernimento nas mãos de Deus e nas mãos da consciência de cada um. Eu mesmo jamais me submeterei a algumas coisas, dentre elas o evangelho da prosperidade, mas pretendo apenas ensinar o caminho que acredito sem ficar tacando pedras. Isso porque, tenho que reconhecer, que igrejas neo-pentecostais chegaram em lugares e pessoas que gente como eu jamais chegaria. No meu íntimo, eu gostaria que ninguém recebesse o evangelho por um viés que não o da Graça do Crucificado, mas às vezes conto que a graça será maior que os conceitos e as formas, pois de uma forma ou de outra, como diz Paulo, o que importa é que Cristo está sendo anunciado. Eu confesso que não é fácil para mim escrever isso.

imagesEu mesmo tinha e tenho uma crise com as fortes políticas denominacionais existentes em minha própria denominação. Por conta disso resolvi nunca chegar perto dessas questões. No entanto, sempre falei mal, o que não julgo correto da minha parte. Tenho o direito de não concordar com as politicagens e de me manter longe dela, da mesma maneira que não gosto de levantar bandeiras denominacionais. Mesmo assim, meu coração de pedra se quebranta, quando eu vejo que, apesar das politicagens, eles mantém um programa chamado “Cristolândia” cujo objetivo é cuidar e recuperar viciados em Crack. Hoje, até mesmo os governos reconhecem os benefícios sociais da “Cristolândia”.

De minha parte, já que estamos falando de julgamento, se eu julgasse a mim mesmo eu me condenaria. Quais são os meus frutos? O quanto de Jesus tenho demonstrado a quem está próximo a mim? Não! Não sou melhor que ninguém! Aliás, não faz o menor sentido comparar condenados com condenados, estão todos sentenciados.

images (1)A experiência com o fesembengalas.com e com a página do facebook me fez provar boas doses de julgamento. Recebi vários e-mails enfurecidos me chamando de herege, dizendo que eu havia abandonado a sã doutrina e infinitas outras coisas. Enquanto me chamavam de herege e diziam que eu não seguia a doutrina, eu não me importava, pois quem lê o que escrevo sabe que acho essas questões ligadas demais ao controle político institucional das igrejas. Todavia, começaram a duvidar se sou ou não cristão. Isso me fez pensar. Eu senti um pouco, justamente porque eu havia parado de me nominar evangélico para me dizer simplesmente cristão. Mas, em fazendo isso, era como se eu considerasse, talvez meio sem querer querendo, os evangélicos de mídia como não cristãos. É como seu eu tivesse provado uma dose do meu próprio veneno.

images (2)Continuo não me preocupando com coisas pequenas como, por exemplo, quando me chamam de liberal. Se quem me chama de liberal parasse para estudar a teologia do século XIX para saber de fato o que é um teólogo liberal, passaria a me chamar de fundamentalista. Não me importo com julgamentos infundados. Mas, eu sei que fiquei profundamente sentido quando duvidaram do fato de eu ser cristão.

images (3)Tudo o que eu sei é que Cristo tem me salvado de mim mesmo a cada dia, pois já me salvou da morte da eterna. Sei que vivo no mar das tensões humanas, no mar das contradições e de querer fazer um bem e acabar fazendo um mal que não quero. Sei que vivo na tensão entre o que sou e o que eu deveria ser, mas ainda não sou. Mas sei que já não sou o que era e estou longe de ser o que haverei de ser. Em minha caminhada, me vejo como um Jacó lutando com Deus pelo controle da minha própria vida. Tem horas que parece que me entrego e tem outras que eu penso que retomei controle. Há momentos que parece que caminhei bastante em direção ao alvo e, em outros, parece que em voltei lá no início da caminhada. Já tentei me livrar de Deus, mas não consegui. Já tentei abandonar o evangelho do Crucificado, mas não dá. Tem horas que vejo o que preciso mudar, o quanto que preciso ser transformado e me desanimo. Tem coisas que eu sei que deveria fazer e não faço, mas olhando para trás vejo coisas que jamais imaginaria que faria e fiz (em Cristo). Vejo mudanças em mim que jamais pensei que aconteceriam, mas quando eu menos esperei, aconteceram (em Cristo). Estou bem longe de dizer como Paulo: “Vivo não mais eu, mas Cristo vive em mim” e “Sejam meus imitadores como eu sou de Cristo”. Estou longe, reconheço, bem longe disso. E não sei se um dia conseguirei dizer.

oracao-51Ainda lembro de quando eu era um adolescente e chorando, sozinho em casa, orava intensamente, de joelhos, pedindo a Deus que mudasse o que havia de ruim em mim. Eu lembro que dizia que não estava pedindo dinheiro ou cura de doenças, mas queria ser mudado. Às vezes acho que Deus não ouviu; em outras, acho que ele está aguardando a hora de agir; mas, tenho gostado de pensar que Ele está, de uma forma ou de outra, agindo. Pois é na vida, nos contados, no sofrimento, nas escolhas, que Ele molda e transforma nosso caráter, nosso ser.

uniaoPor isso, quero tentar não julgar ninguém, mesmo que eu jamais venha a seguir seus ensinamentos. Quero acreditar que, começando com as minhas imperfeições e de mãos dadas com diversos cristãos imperfeitos, poderemos sinalizar melhor o Reino de Deus. Seja um fundamentalista, um liberal, um progressista, um batista, um calvinista, um pentecostal, um neo-pentecostal, um católico, qualquer um que se reconheça como cristão a despeito dos que julgam se achando mais cristãos – como eu me achava. Quero acreditar que poderemos ser um só corpo que se une através dos dogmas fundamentais do amor e do serviço, deixando de lado os infinitos debates que duram séculos e causaram mais divisões do que união.

fe sem bengalasContinuarei manifestando minhas percepções limitadas e imperfeitas em busca de uma Fé Sem Bengalas. Peço que não julgue sem antes conversar comigo e pedir maiores explicações. Manifestarei minhas opiniões sobre temas sem julgar a opinião do outro. Em muitos momentos serão contrárias a algumas opiniões ou conceitos, mas, se você não concordar, sinta-se livre para comentar e para falar comigo. Do diálogo advém efeitos colaterais positivos para todos nós. Eu, particularmente, tenho aprendido muito dialogando. Existem percepções polêmicas, mas que não são o centro, todavia com cuidado e respeito podemos debater e construir sem nos destruir e dividir mais do que já estamos todos. Vamos tentar um novo caminho: em vez de batermos uns nos outros vamos deixar o julgamento nas mãos de Deus, assumir nossas limitações, e nos unir para tentarmos ser, de fato, um só corpo.

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Publicado em abril 2, 2013, em . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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